As duas chaminés mantinham-se de pé no terreno já limpo de entulhos, no final de outubro. Foram demolidas a 19 de novembro, um sábado. Créditos: DR/mediotejo.net

As duas chaminés da antiga fábrica “Alves das Lãs”, na Várzea dos Mesiões, em Torres Novas, foram demolidas no dia 19 de novembro. Um sábado de manhã. Naquele local, decorriam desde setembro as obras para a construção de um supermercado da insígnia Intermarché, que no projeto aprovado pela Câmara Municipal previa a manutenção dos dois fumeiros históricos.

Perante a inesperada demolição, a população ficou em choque e manifestou-se ativamente. O presidente da Câmara garantiu que iriam haver consequências, agiu em conformidade e embargou a obra. Um mês passado, o empresário Vasco Simões decidiu pronunciar-se “em sede própria”. Apresentou-se na Assembleia Municipal de Torres Novas, na terça-feira, 20 de dezembro, e disse de sua justiça. As chaminés foram abaixo para evitar uma “catástrofe”, afirmou.

ÁUDIO | Vasco Simões, Gerente do Intermarché, na Assembleia Municipal de Torres Novas

Vasco Simões começou a sua exposição explicando a longa história do processo daquela obra, desde a compra dos terrenos em 2007, até à emissão do alvará de licença de construção, em maio de 2022, que obrigou, inclusive, à suspensão do Plano Diretor Municipal (PDM). Os trabalhos tiveram início em setembro último. Pararam no final do mês de novembro, com o embargo à obra, quando as chaminés foram demolidas sem autorização camarária.

Vasco Simões, gerente do Intermarché, justifica demolição das chaminés da antiga fábrica “Alves das Lãs” na Assembleia Municipal.
Fotografia: mediotejo.net

“Com o decorrer dos trabalhos e numa semana de chuva intensa, com a trepidação da cravação das estacas e com a falta de manutenção ao longo de muitos anos, verificou-se a olho nu, e perto das chaminés, os deslocamentos obtidos, sobretudo pelo desprendimento de materiais, principalmente na sua base, numa perda clara de secções de tijolos e de verticalidade, devido à posição superficial do nível freático. Segundo os técnicos, tendo tudo isto em conta, não era possível manter em segurança as chaminés, pois o risco de derrocada natural e não controlada, era real e muito evidente”, explanou.

O gestor lembrou ainda que Torres Novas “encontra-se na segunda zona de maior risco de sismo do território nacional”, pelo que, “a conservação das chaminés, com a altura que tinham e no estado de degradação em que se encontravam, sem que tenham resistência sísmica adequada, nem a possibilidade de vir a ter, ao lado de um edifício projetado com todos os requisitos de segurança, que se pretende que acolha muita gente, traduzia-se em poder vir a falhar, sem salvaguarda de segurança de pessoas e bens”.

“Quantos anos podiam durar as chaminés? Podiam durar 50 anos, 50 meses, 50 semanas… 50 minutos ou 5 segundos. Ninguém sabe.”

Vasco Simões

E justificou o porquê de só em novembro ter sido tomada a decisão da demolição: “Isto só aconteceu porque nós pensámos sempre mais com o coração do que com a razão. Mais do que ninguém, queríamos manter aquele símbolo da cidade no projeto”, assegurou.

Perante a “emergência”, o gestor confirmou que os serviços camarários não receberam em tempo útil qualquer pedido de licença de demolição relacionado com aquelas chaminés.

“Não, não informei a Câmara. Era inerente. Elas iriam cair. As chaminés podiam cair naturalmente a qualquer momento. Se isso acontecesse, podia haver um acidente na obra, e isso seria bastante complicado. Trabalharam lá, desde o início, 42 pessoas, e nem um pequeno arranhão tiveram. Como as chaminés estavam, podia haver uma catástrofe a qualquer momento. Estou de consciência tranquila”, afirmou Vasco Simões ao mediotejo.net à margem da sua intervenção na Assembleia, sem querer alongar-se nas explicações quanto ao facto de não ter parado a obra e comunicado à autarquia a situação de fragilidade das chaminés.

“A decisão foi tomada naquele sábado, porque a situação era irreversível. Agora, vai perguntar-me quantos anos podiam durar as chaminés? Podiam durar 50 anos, 50 meses, 50 semanas… 50 minutos ou 5 segundos. Ninguém sabe. E dou-lhe novamente o exemplo da ponte de Entre-os -Rios ou da falésia do Algarve. No caso das chaminés, era visível a olho nu. Perderam a verticalidade. Estar ali a trabalhar naquela situação tornou-se altamente perigoso. Toda a estrutura estava apodrecida. Isso foi detetado durante a cravação das estacas. Os tijolos que as suportavam estavam podres. Isso está registado em estudos técnicos que foram sendo feitos durante a monitorização da obra. Houve um deslocamento visível. As chaminés iam cair”, disse o empresário, reforçando estar de “consciência tranquila”.

Com a obra parada, Vasco Simões diz que aguarda ser convocado pela Câmara para em conjunto tentarem encontrar a melhor opção de alteração ao projeto, preservando a memória histórica da antiga “Alves das Lãs”, por forma a que o embargo seja levantado. “Não faço a mínima ideia e não vou dizer mais nada”, respondeu, quando questionado sobre se teria algo a apresentar como alternativa.

Pedro Ferreira reitera desilusão e Luís Silva diz que “é pena”, mas lembra que as chaminés não eram património classificado

Perante a exposição de Vasco Simões, o presidente da Câmara, Pedro Ferreira (PS), reiterou a sua desilusão com o sucedido, garantindo que agiu em conformidade com a sua consciência e dever quando assinou o embargo. Reconheceu a importância da obra em questão e a urgência em ser encontrada uma solução de alteração ao projeto, “com as torres ou sem as torres”, garantindo que “estão a ser cumpridas as figuras jurídicas do Urbanismo”.

ÁUDIO: Pedro Ferreira, presidente da CMTN

Por sua vez, Luís Silva, vice-presidente da Câmara, com o pelouro do Urbanismo, lamentou a situação, admitindo que “há um desrespeito pelo projeto apresentado pelo promotor” e que foi “com tristeza” que viu as chaminés serem deitadas abaixo.

Áudio: Luís Silva, vice-presidente da CMTN, vereador com o pelouro do Urbanismo

“É pena”, refere. No entanto, diz que agora “é preciso dar a volta… andar com o processo para a frente”. E lembra que, apesar do valor que lhes é reconhecido pelos torrejanos, aquelas chaminés nunca foram consideradas património classificado.

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Carla Paixão

Natural de Torres Novas, licenciada em jornalismo, apaixonada pelas palavras e pela escrita, encontrou na profissão que abraçou mais do que um ofício, uma forma de estar na vida, um estado de espírito e uma missão. Gosta de ouvir e de contar histórias e cumpre-se sempre que as linhas que escreve contribuem para dar voz a quem não a tem. Por natureza, gosta de fazer perguntas e de questionar certezas absolutas. Quanto ao projeto mais importante da sua vida, não tem dúvidas, são os dois filhos, a quem espera deixar como legado os valores da verdade, da justiça e da liberdade.

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