“Como é que é possível ter acontecido uma coisa destas?” A pergunta continua a repetir-se na cabeça do Presidente da Câmara de Torres Novas, Pedro Ferreira, desde o momento em que recebeu um telefonema, neste sábado de manhã, a alertá-lo para a demolição das duas chaminés da antiga fábrica António Alves, nos terrenos onde está a ser construído um novo supermercado da cadeia Intermarché. Meteu-se imediatamente no carro e foi para o local, onde ainda encontrou as máquinas a trabalhar, e “uma chaminé parcialmente destruída e a outra já totalmente arrasada”, como explica ao mediotejo.net.
Foi dali mesmo que telefonou para Vasco Simões, administrador do Intermarché, exigindo explicações. “O projeto aprovado previa de forma inequívoca que aquelas chaminés tinham de ser preservadas”, reforça o autarca. “Trabalharam centenas de pessoas naquela fábrica” ao longo do século passado, e aquelas chaminés eram “um ícone” do passado industrial de Torres Novas, na área da fiação. “É impensável…”, desabafa.
O responsável pela obra alegou “motivos de falta de sustentabilidade” e uma eventual “perigosidade futura” para ter decidido demolir as estruturas. “Obviamente não poderia tê-lo feito sem autorização prévia da Câmara”, confirma Pedro Ferreira, explicando que, “mesmo que as chaminés tivessem caído naturalmente”, o procedimento legal exigiria “a entrega de um projeto de alteração” ao anteriormente aprovado.
Os serviços jurídicos do município estão a avaliar “todas as consequências legais” relativas a esta demolição, que Pedro Ferreira classifica como “inesperada e socialmente chocante” e que, garante, não ficará impune. Desde logo, existirá “uma coima por não terem pedido licença para a demolição”, avança o autarca, dizendo ainda que o Intermarché se comprometeu a reconstruir as chaminés. “Não sei se é tecnicamente possível, sequer…”, diz Pedro Ferreira, notoriamente abalado com esta situação. “É angustiante”, admite.
Tal como mediotejo.net noticiou, as duas chaminés foram demolidas às 9h10 deste sábado – um dia em que, por norma, não se realizam obras – e a notícia depressa se espalhou pela cidade e pelas redes sociais, gerando uma onda de indignação. Centenas de pessoas apelam já a um boicote às compras neste supermercado, como forma de retaliação.
O Intermarché destruiu uma chaminé semelhante em Abrantes, em 2020, alegando também “debilidade estruturais”. Nesse caso, havia a agravante de existir um ninho de cegonhas no topo da chaminé, mas o dono da obra requereu autorização ao Instituto da Conservação da Natureza para mudar o ninho para outra estrutura semelhante nas imediações e avançou com a demolição depois de obter autorização da Câmara Municipal.
Intermarché diz que demolição foi “último recurso”
O mediotejo.net solicitou esclarecimentos adicionais junto da administração do Intermarché de Torres Novas, tendo recebido resposta ao final da tarde de domingo, garantindo que “a primeira intenção do promotor da obra foi proceder à preservação integral das mesmas” e que “a demolição ocorreu apenas em último recurso”. Vasco Simões frisa que “o perigo de derrocada das chaminés era real e eminente e levou a que a esta acção, urgente e imediata, fosse realizada de forma a garantir a segurança de todos os que operam no local e usufruirão dele no futuro”.
Diz ainda que “prova disso é que, na fase anterior da obra, toda a plataforma foi preparada com a demolição de todas as edificações ali existentes com excepção, precisamente, das duas chaminés tendo procurado alcançar, até esta data, uma solução válida e sustentável para a preservação destas infraestruturas cujo peso reconhecemos na história da cidade”.
“No entanto e não o afirmando de ânimo leve, a degradação de todas as infraestruturas da antiga fábrica de lãs, fruto do abandono absoluto de décadas sem qualquer manutenção das estruturas, mais precisamente desde o encerramento da fábrica, fez com que o estado de degradação das infraestruturas aquando da conclusão do licenciamento da obra se verificasse como muito acentuado e, na maior parte das estruturas, irrecuperável”, refere.

“No que diz respeito às chaminés, em termos de estabilidade, registámos que as mesmas apresentavam uma incorrigível perda da verticalidade (até verificável a olho nu), fendas estruturais ao longo do fuste (no corpo principal da chaminé), danos na coroa, deterioração muito significativa do material que as constitui, assentamento e cedência das bases (fundações) e perda de ligação entre os vários materiais constituintes, situações estas que em conjunto não permitiram uma recuperação viável dos cones”, diz, remetendo para as fotografias que aqui publicamos.



“Tendo o objetivo de preservar as chaminés, mas tendo como principal preocupação a segurança das pessoas, instalámos alvos e testemunhos nas chaminés de forma a monitorizar o seu comportamento e que “os vários técnicos competentes, cujo parecer apresentaremos em sede própria, foram do entendimento que o caminho adequado para garantia da segurança de todas as pessoas, agora e no futuro, passaria pela demolição integral das chaminés porquanto não seria possível conservar as mesmas, fruto do seu assentamento em plataforma aluvionar e do seu irreversível estado de degradação”.
Vasco Simões diz que o Intermarché pretende “ajudar o concelho criando postos de trabalho, inovação e bem-estar nos Torrejanos e nunca estar associados a um gesto que desrespeite a história da comunidade” em que estão inseridos. “Iremos estudar, em conjunto com o Município e com os Serviços Competentes, uma forma adequada de preservar a memória histórica daquela que também é a nossa Cidade.”
*Notícia atualizada com os esclarecimentos do Intermarché.
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Impressionante como às vezes as pessoas se apegam literalmente a chaminés do passado sem qualquer utilidade.
Por outro lado a empresa instala-se a poucas dezenas de metros do rio Almonda, com evidente risco de inundação no futuro, já que o desnível é mínimo, e isso não parece preocupar ninguém.
Há uma coisa que se chama Boycott.
Não duvidando da instabilidade das chaminés nem da necessidade da sua demolição,questiono a forma quase secreta e atropelando a lei,fazendo tábua rasa da autoridade camarária e fugindo ao que estava contemplado no projeto.
Foi um atentado ao património cultural, já não há artistas que façam uma obra dessas,pura ignorância de quem autorizou esse crime,sim esse crime.
Que sejam punidos aqueles que só pensam em dinheiro. Sim porque esse senhor ( Vasco Simões) só pensa em dinheiro.
Já vi chaminés iguais com anéis de metal para evitar caírem e em pior estado mas se deitar abaixo foi a solução fico preocupado pois existe muitos prédios em Torres Novas com rachaduras e fissuras bem piores e no entanto não vão abaixo .
Quer dizer que este hipermercado vai ficar instalado em leito de cheias, é isso, li bem?
Poderá acontecer que a segurança das torres esteja duvidosa, no entanto antes de começarem as obras devia procedesse á sua recuperação e não á sua demolição e ainda por por cima sem autorização camarária. Está situação devia ser revertida no sentido de as torres ser reconstruídas.