Castelo de Torres Novas Foto: CMTN

O assinatura do Presidente Ramalho Eanes, em 1985, foi uma formalidade que pouco alterou o dia-a-dia dos torrejanos. Mas, com o tempo, a identidade da vila feita cidade foi-se transformando. Oficializada, ganhou outra vida. Criaram-se museus para guardar as memórias do lavrador e do operário. Fez-se do castelo, imponente sobre toda a cidade, mais do que uma ruína bonita: hoje é lugar de encontros, de vistas largas sobre as casas e sobre o rio. E os TUTs passaram a ligar a cidade aos seus satélites, à Meia Via, Riachos, Lapas, como linhas a coser um território que se quer unido.

A cidade fez-se centro de cultura, de pequenas modernidades, valorizando a sua história e preservando os laços da comunidade.

Poderá dizer-se que aprendeu a dar valor ao que é seu. O Castelo de Torres Novas, antes ruína empoeirada, foi intervencionado em 2005 e 2006, e voltou a merecer atenção em 2023, com o projeto de um elevador de acesso, cujo concurso público foi recentemente lançado. Marcas de uma cidade que sobe degraus sem esquecer quem precisa de rampa.

O Museu Agrícola, em Riachos, inaugurado em 1989, preservou os saberes, objetos e tradições da região. É o museu da vida diária, dos gestos passados de geração em geração. Nele cabem alfaias agrícolas, trajes, utensílios e histórias que se contavam à lareira. É um espelho da ruralidade que moldou tantas freguesias do concelho.

Em 1985, o presidente da Câmara Municipal de Torres Novas era Casimiro Gomes Pereira. O mediotejo.net entrevistou-o há dez anos, pedindo-lhe para recordar o processo de elevação a cidade.

“A população de Riachos fazia muita questão que a Câmara apoiasse e ajudasse a desenvolver o projeto da elevação de Riachos a vila. Tenho que falar com franqueza, foi um pouco o espoletar da coisa… ‘Calma aí, nós vamos fazer de Riachos vila, mas também de Torres Novas cidade’. E a partir daí, tanto um projeto como o outro foi acelerado o mais possível.”

Num passado muito mais distante, na Gruta da Aroeira, o que parecia ser apenas mais uma escavação de rotina revelou um segredo com mais de 400 mil anos: o crânio humano mais antigo descoberto em Portugal e um dos mais antigos da Europa ocidental. Os vestígios vieram do subsolo, mas trouxeram à superfície perguntas antigas e uma nova centralidade científica para Torres Novas, que passou a estar inscrita nos mapas da paleoantropologia.

Torres Novas expõe pela primeira vez crânio mais antigo descoberto em Portugal. Foto: mediotejo.net

Ao longo dos últimos 40 anos foram realizadas muitas escavações no sistema cársico do Almonda, lideradas pelo arqueólogo João Zilhão, e parte das descobertas desses trabalhos podem hoje ser vistas no Núcleo de Arqueologia Cerca da Vila. Não é qualquer cidade que se pode orgulhar de guardar uma parte da história da Humanidade.

A identidade de Torres Novas moldou-se ao longo do Almonda mas guarda-se também dentro de portas, em espaços que preservam o que o tempo poderia apagar. O Museu Municipal Carlos Reis, no centro histórico, é um desses lugares. Mais do que uma coleção de objetos, é um repositório vivo da memória coletiva. Nele se cruzam quadros, cartas, artefactos do trabalho e da vida, como se cada sala fosse um capítulo da cidade. Inaugurado com o nome de um dos seus filhos mais ilustres, o pintor e intelectual Carlos Reis, o museu foi sendo adaptado às novas exigências, sem nunca perder o enraizamento na comunidade.

Contudo, nesta história nem tudo se escreveu a tinta dourada. Existem também capítulos negros, tingidos a óleo e a espuma espessa. Quem no concelho viveu nos anos 1990 e 2000 recorda-se dos cheiros que se entranhavam na roupa e de ribeiras que deixaram de ter nome para se chamar apenas “cursos de água poluídos”.

Retiradas 3.000 toneladas de resíduos perigosos da Fabrióleo. Foto arquivo: mediotejo.net

A Fabrióleo, fábrica de óleos vegetais às portas da cidade, foi durante anos um nome que se sussurrava com desconfiança. As descargas na ribeira da Boa Água tornaram-se parte de uma narrativa que nem os relatórios conseguiram calar. Mesmo depois de ordens de suspensão da APA em 2015 e coimas em 2016, as águas continuaram a correr turvas e com elas a tristeza de muitos torrejanos. O encerramento pela IAPMEI em 2018, por condutas lesivas do ambiente, parecia pôr fim ao episódio, mas ainda há muitos vestígios por limpar e o desconforto permanece na memória.

Mais a sul, em Parceiros de Igreja, um novo problema, mas o mal-estar parecido. A Cratoliva, empresa de transformação de bagaço de azeitona, levou os moradores à Assembleia Municipal, num gesto raro de resistência. Cheiros insuportáveis, fumo negro e o descontentamento de um povo que se uniu para colocar um ponto final e devolver a “saúde” à localidade. Em outubro de 2024, a autarquia mandou encerrar a fábrica por incumprimento das normas ambientais, após a ASAE ter apreendido 18.200 litros de óleo com rótulos fraudulentos.

Fábrica Cratoliva em Parceiros de Igreja (Torres Novas). Foto arquivo: BE

O rio Almonda, espelho que acompanha a cidade e com ela se entrelaça, também tem um passado de sofrimento. Recentemente, em agosto de 2024, não resistiu a mais um golpe: uma descarga que terá levado à morte de quase uma tonelada de peixes.

A água que nasce na Zibreira, e atravessa o centro serenamente, deixou de ser cristalina. A morte dos peixes era apenas o sintoma visível de uma ferida mais profunda. Em resposta, a Câmara anunciou medidas: limpeza das margens, repovoamento piscícola, instalação de uma sonda de monitorização e reforço da vigilância em articulação com APA e PSP.

A cidade que hoje comemora o seu 40º aniversário não parou. Enquanto limpava as águas e as margens, realizou investimento em escolas, centros de saúde, infraestruturas e espaços de lazer para a comunidade.

E o comércio? Algum foi morrendo, outro reinventou-se, com criatividade. Os apoios municipais aos pequenos negócios tentaram travar o esmorecimento do centro histórico e avançaram a digitalização de montras e os mupis com interatividade, de que o projeto “Vila – Bairro Comercial Digital” é um exemplo, procurando trazer modernidade sem apagar a familiaridade do comércio de rua.

Novo Bairro Comercial Digital está a nascer em Torres Novas. Foto: CMTN

A escola também mudou. A renovada Secundária Maria Lamas ganhou novas salas e espaços dedicados às novas necessidades de aprendizagem do mundo atual. Os parques infantis e os centros escolares não ficaram esquecidos e foram também alvo de intervenções.

A Unidade de Saúde Familiar Cardílio foi intervencionada e as extensões em freguesias como Brogueira ganharam nova vida. Afinal, a distância ao centro não devia ditar a qualidade dos cuidados de saúde primários. No entanto, freguesias como Assentiz continuam a enfrentar dificuldades, ainda sem médico de família atribuído, deixando muitos utentes dependentes de deslocações frequentes ou da resposta limitada, com atendimentos esporádicos.

Foto: CMTN

Nestes quarenta anos de cidade, há marcas que ficam não só nos arquivos históricos, mas no quotidiano de todos os torrejanos. Basta olhar para a forma como se chega hoje ao centro, com os TUT a cruzarem freguesias e a ligarem o que antes parecia distante. A mobilidade deixou de ser apenas uma questão de transportes e passou a ser um direito de proximidade.

Algumas coisas, porém, resistem enraizadas. A tradição das festas populares, os encontros na praça, os passeios de domingo nas margens do Almonda. O cheiro a sopa de couve nas aldeias, a missa que reúne mais do que fiéis, junta histórias. E mesmo com os avanços tecnológicos, Torres Novas mantém a sua essência, sendo palco de conversas entre amigos ao fim da tarde e momentos de convívio da grande vizinhança de uma terra que, há 40 anos, se tornou cidade.

Castelo de Torres Novas. Créditos: Turismo do Médio Tejo

Talvez este seja o paradoxo de Torres Novas – uma cidade que avança, mas que nunca esquece o que ficou para trás. Uma cidade que constrói futuro enquanto tenta preservar o que o passado lhe deixou. E mesmo com uma população envelhecida, é feita de gente que não se resigna, que exige respostas e luta pelos seus direitos.

No final, o que faz uma cidade não é só a pedra lavada das obras novas. É também a memória das suas águas, a história dos seus recantos e a teimosia de quem, todos os dias, insiste que vale a pena viver aqui.

Mestre em Jornalismo e apaixonada pela escrita e pelas letras. Cedo descobriu no Jornalismo a sua grande paixão.

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