“Para nós era imperioso, era imperativo poder fazê-lo aqui. Nós conseguimos que ele ficasse exposto pela primeira vez em Torres Novas e criámos as condições necessárias para que isso pudesse acontecer, porque ele foi encontrado em Torres Novas e, para nós, enquanto concelho, é de uma relevância extrema”, disse à Lusa Elvira Sequeira, vereadora da Cultura na Câmara Municipal de Torres Novas.
A autarca sublinhou que Torres Novas tem “vestígios absolutamente extraordinários que importa salientar e mostrar ao mundo”, com a arqueóloga Filipa Rodrigues a destacar que este achado “é um acontecimento raro” a nível mundial.
VIDEO/REPORTAGEM
O mais antigo fóssil humano até hoje encontrado em Portugal, o “Crânio da Aroeira”, teve o arqueólogo João Zilhão como responsável pelas escavações na gruta da Aroeira, no complexo arqueológico do sistema cársico da nascente do Almonda, em Torres Novas, que em 2014 revelaram este crânio humano de 400 mil anos, “um dos poucos dessa época encontrados no mundo”, e “o mais antigo fóssil humano encontrado até hoje em Portugal”, segundo a Direção-Geral do Património Cultural (DGPC).
Nunca se tinha encontrado um fóssil humano da altura média do Pleistoceno, que cobre o período desde há 2,5 milhões de anos até há 11,5 mil anos, num local tão ocidental da Europa, sendo este “o mais antigo fóssil encontrado em território português e um dos mais antigos da Europa”, disse, então, em declarações à Lusa, João Zilhão.




O achado arqueológico foi alvo de “trabalhos de estudo e restauro” na Universidade Complutense de Madrid, por uma equipa internacional liderada por Juan Luis Arsuaga, tendo sido entregue ao Museu Nacional de Arqueologia em 2018, onde esteve até hoje.
Em declarações à Lusa, Filipa Rodrigues, a arqueóloga responsável pelo núcleo museológico e que integrava a equipa de João Zilhão à data da descoberta, falou hoje num “achado raro” e “muito importante”, tendo feito notar que, “por si só, a identificação de crânios ou de fósseis humanos com esta antiguidade é um acontecimento raro”, a nível mundial.

“Este crânio é revestido de uma enorme importância, quer do ponto de vista do estudo da evolução humana, pelas características morfológicas que apresenta, mas sobretudo também pelo sítio arqueológico onde ele foi identificado e por todo o contexto que permite fazer um estudo multidisciplinar das características desta época, designadamente dos utensílios que eram usados pelos humanos que ocuparam aquele local e da fauna que caçaram, do domínio do fogo, que é dos vestígios mais antigos que temos do domínio comprovado dessa técnica por parte do homem, que data de há cerca de 400.000 anos, com todas as implicações que isso tem para o estudo e para a nossa evolução enquanto espécie”, declarou.
Trata-se de um antepassado “a meio caminho entre o ‘homo erectus’, que apareceu em África há entre 1,5 e dois milhões de anos e os mais recentes, a que chamamos Neandertais na Europa e modernos em África”, tendo sido encontrado neste gruta, onde os arqueólogos trabalham há mais de 30 anos.




O local da descoberta “tem potencial, pelas condições geológicas, para ter vestígios de todas as épocas do último meio milhão de anos” sendo que, na gruta da Aroeira, foram encontrados também restos de animais e ferramentas de pedra, como machados.
O fóssil, recuperado em 2014, foi retirado do local incrustado num bloco único de sedimentos e levado para um centro de investigação em Madrid, Espanha, onde os especialistas o conseguiram separar ao cabo de dois anos de trabalho.







O núcleo expositivo ‘Cerca da Vila’, novo espaço museológico inaugurado este mês em Torres Novas, estrutura-se em três espaços distintos a partir do mote “Um rio, um território, uma história humana”, com uma mostra expositiva de achados arqueológicos desde a Pré-História (400.000 anos) até ao final da Idade Média (século XV), e onde o crânio da Aroeira é o ponto de partida para a divulgação da história da evolução humana.
Horários:
Abril – setembro: terça a domingo – 10h00-13h00//14h00-18h00
Outubro – março: terça a domingo – 9h00-13h00//14h00-17h00
Morada: Terreiro do Arco do Vento, n.º 1, 2350-444 Torres Novas
Informações e marcações: 249 812 535 (Museu Municipal Carlos Reis) | agenda.museu@cm-torresnovas.pt

*Com Lusa
