O espanhol Guillermo Soler Calero, 51 anos, foi nomeado Diretor-Geral da Endesa em Portugal, anunciou hoje a empresa em comunicado. Licenciado em Gestão e Administração de Empresas pela Universidade Internacional da Catalunha, o gestor ocupou nas últimas duas décadas cargos de responsabilidade na Endesa, tanto em Espanha como em Portugal, sendo considerado pela empresa como “uma das figuras-chave” para que esta seja hoje o segundo maior comercializador de eletricidade no mercado português.

Esta nomeação acontece na sequência da saída de Nuno Ribeiro da Silva, que ocupava o lugar há 17 anos, e cujas declarações em agosto do ano passado à Antena 1 e ao Jornal de Negócios, alertando para a possibilidade de o “travão ibérico” nos preços da eletricidade poderem levar a aumentos de 40% nas faturas dos consumidores portugueses, o colocaram debaixo de fogo do governo de António Costa. Poucos dias depois foi publicado um despacho determinando a obrigação de fazer uma “validação prévia” a todas as faturas da Endesa e a intenção de procurar “outros fornecedores de energia” nos contratos com o Estado, o que foi considerado por vários analistas como uma “retaliação” clara do governo. Pedro Santos Guerreiro, diretor da CNN, denunciou haver “uma pressão muito grande” sobre a empresa para “tomar decisões” em Portugal.

A Endesa comunicou de imediato que não faria alteração nos preços da eletricidade em Portugal e que não iria “cobrar ou discriminar” o valor do custo do mecanismo de ajuste do Mercado Ibérico de Eletricidade nas faturas até ao fim de 2022. O governo aprovou logo a seguir várias medidas para conter a escalada dos preços da energia, baixou o IVA da eletricidade para 6%, criou mecanismos de compensação de emergência para empresas e voltou a permitir o regresso dos consumidores ao chamado “mercado regulado”.

Nuno Ribeiro da Silva liderou a Endesa Portugal durante 17 anos. Fotografia: mediotejo.net

O mediotejo.net tentou ao longo dos últimos meses confirmar a saída de Nuno Ribeiro da Silva junto da Endesa – o gestor já não falava em nome da empresa –, mas sem sucesso. O nosso jornal sabe que a elétrica espanhola pretendia nomear um sucessor de nacionalidade portuguesa e que procurou recrutar para o cargo alguns gestores a nível internacional, mas o processo arrastou-se durante meses sem que fosse possível encontrar uma solução satisfatória, acabando agora por ser nomeado um quadro há 24 anos na empresa.

No Conselho de Administração, Nuno Ribeiro da Silva foi substituído na semana passada por Pedro Almeida Fernandes, que lidera a Enel Green Power e Thermal Generation Portugal (o grupo Enel é o maior acionista da Endesa).

Segundo apurou o mediotejo.net, Nuno Ribeiro da Silva, atualmente com 68 anos, deverá manter-se como “consultor externo” da Endesa, na sequência do seu acordo de saída. Uma das figuras mais relevantes do setor energético nacional, com um papel determinante na aposta nas energias renováveis, bem como na liberalização dos mercados de eletricidade e gás natural em Portugal, foi secretário de Estado da Energia no segundo governo de Cavaco Silva, entre 1986 e 1991 (antes tinha sido assessor do Secretário de Estado do Ministério do Ambiente) e negociou ao lado do ministro Carlos Pimenta a implementação da Central Termoeléctrica no Pego – um processo que, como recordou em entrevista ao mediotejo.net, implicou duros debates com a população abrantina, em Assembleia Municipal.

Foi ainda deputado entre 1993 e 1996, e presidente do Conselho de Administração da Partex, administrador da Somague e do OMIP (Mercado Ibérico) entre 1998 e 2005, ano em que foi nomeado presidente da Endesa Portugal.

A Central do Pego deixou de funcionar a carvão a 30 de novembro de 2021. Créditos: mediotejo.net

No ano passado, após um processo de cisão na estrutura da Tejo Energia, concessionária da Central Termoelétrica do Pego (em que a Endesa detinha 44% da estrutura acionista) – e que Nuno Ribeiro da Silva explicou em primeira mão ao nosso jornal – o governo anunciou o primeiro concurso de Transição Justa em Portugal para determinar qual a empresa que deveria liderar o processo de reconversão da Central do Pego, após o fim do ciclo do carvão em Portugal, determinado para 30 de novembro de 2021. A Endesa venceu o concurso com uma proposta de desenvolvimento renovável que inclui o maior projeto de baterias da Europa e um plano de desenvolvimento socioeconómico, representando um investimento de 600 milhões de euros na região.

Na área das renováveis, ao Pego juntam-se os projetos solares obtidos em 2020 no Algarve (o primeiro desenvolvimento fotovoltaico da Endesa com baterias na Península Ibérica) e em 2022 na barragem do Alto Rabagão (também o primeiro projeto solar flutuante da empresa hibridizado com energia eólica e baterias na Península Ibérica). A Endesa diz ter ainda “em carteira 3.000 MW de energia renovável a desenvolver durante a presente década em Portugal”.

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Patrícia Fonseca

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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