Quando à paixão por animais e à aguerrida vontade de os proteger se junta a audácia de ir mais além e a ambição de tornar real a sua conservação, nasce o BARK. Numa simbiose onde não fica de fora a curiosidade, o altruísmo e a convicção de que há lugar no mundo para todos, um dos responsáveis é João Paulo Rodrigues, o promotor deste mega projeto que pretende criar em Vila Nova da Barquinha o primeiro bioparque do país. Num investimento de 70 milhões de euros que representa o culminar de “uma inevitabilidade” na vida do jovem abrantino, a promessa é a de que “em 2022 já vai haver muito BARK”. Com as máquinas prestes a entrar nos 40 hectares onde vão coexistir 120 espécies vindas dos quatro cantos do mundo, o projeto quer ainda ser reconhecido pelo pilar da investigação, com o foco no desenvolvimento do conhecimento científico.

Ao sonho do promotor e às expectativas da comunidade junta-se o impacto económico: estimativas (no mínimo) de 50 milhões de euros num raio de abrangência até 50 km de distância. Em entrevista ao mediotejo.net, precisamente no local onde vai ser a praça principal do BARK, o empreendedor admite não ter dúvidas de que este é um projeto “perfeitamente concretizável”.

Fear is the little-death that brings total obliteration. I will face my fear. I will permit it to pass over me and through me. And when it has gone past, I will turn the inner eye to see its path” (em português, “O medo é a pequena morte que traz a obliteração total. Vou enfrentar o meu medo. Permitirei que ele passe sobre mim e através de mim. E quando tiver passado, farei o meu olhar interior para ver o seu caminho”), escrevia o americano Frank Herbet, jornalista e escritor de ficção científica. É esta a citação que João Paulo Rodrigues usa para descrever o caminho que tem feito nos últimos anos em concretização daquilo que considera ser “uma inevitabilidade” na sua vida.

João Paulo Rodrigues, 25 anos, é o diretor da empresa Olifantes & Nature, promotora do projeto do BARK – o primeiro bioparque do país, a nascer em Vila Nova da Barquinha. Imagem: David Pereira | mediotejo.net

“Eu não tenho mesmo esse medo [de falhar], nem esse pavor. É algo de tal forma natural (…) o parque ia acabar por ser uma inevitabilidade vir a ser feito, se não agora, no futuro. Devido a como eu era como criança, estava tudo encaminhado para que tal acontecesse”, confessa ao mediotejo.net a cara por detrás do mega projeto anunciado para a região do Médio Tejo que junta natureza, animais, turismo e investigação.

Inevitavelmente, a história começou a escrever-se em criança, quando trocou um avião por um dinossauro. “O meu pai contava sempre a história de que quando eu era pequenino comprou-me um brinquedo de avião e eu não fazia nada com ele. E depois comprou-me um brinquedo de um dinossauro e eu fiquei todo contente. Muito resumidamente, isso é uma boa introdução para tudo o que veio de seguida”, afirma sucintamente João Paulo.

A ligação aos animais vem desde infância, com a convivência diária na quinta de família, a Quinta dos Plátanos, no Pego (Abrantes). Imagem: David Pereira | mediotejo.net

A juntar-se ao dinossauro de brincar esteve a convivência diária com animais de verdade na quinta de família, a Quinta dos Plátanos, na freguesia do Pego, bem como as inúmeras viagens desde tenra idade para os quatro cantos do mundo – incluindo a Antártida, aos 14 anos. “Depois, entrei para a National Geographic Students Expeditions. Fiz três expedições com eles e depois fiz mais quatro já fora do molde de estudantes, e, calmamente, fui para a Royal Veterinary College, em Londres, estudar Biologia e Veterinária Animal”, conta, enumerando a as viagens ao Equador, Galápagos, Índia, Bíbia, YellowStone, Madagáscar, Mongólia e outros tantos locais que, um a um, foram construindo na sua cabeça o puzzle da inevitabilidade do BARK.

OS PRIMEIROS PASSOS DA INEVITABILIDADE DO BARK

Foi em 2015 que o BARK – cujo nome, para os mais curiosos, resulta simplisticamente da junção da letra “B”, de Barquinha, com “park” (em português, “parque”) – começou a ser pensado. “Na altura, estava a privatização do Oceanário [de Lisboa] a decorrer mas não tínhamos todos os critérios para poder entrar para o concurso. Fomos ver também o Hotel Turismo de Abrantes, mas não chegámos a tempo. Outra ideia que estava em cima da mesa era agarrar na nossa quinta de Abrantes e torná-la profissional, ou seja, manter a coleção de animais que tínhamos e aumentá-la com outros animais”, começa por recordar.

“Calmamente, e a fazer os nossos cálculos de joelho, começámos a notar que era capaz de resultar e de ser interessante. Começou o processo todo dessa maneira”, acrescenta. Mas o projeto não avançou porque a zona onde a quinta se encontra, na margem sul do rio Tejo, é considerada inundável. Foi aí que surgiu, pela primeira vez, a ideia de Vila Nova da Barquinha.

“Os nossos arquitetos lembraram que já tinha existido um projeto para um parque em Vila Nova da Barquinha e sugeriram virmos falar à Câmara sobre possivelmente desenvolver este projeto aqui”, diz, deixando claro que o BARK nada tem que ver com um outro projeto já previsto para o concelho barquinhense, o do Galaxy Park: “Existem pessoas que confundem os dois, mas são completamente distintos – nós não vamos ter aqui nenhuma montanha russa”, esclarece.

De forma discreta, a inevitabilidade começou a ganhar forma até aos dias de hoje e a resposta é concisa quando questionamos sobre se tem corrido bem o desenrolar do processo: “Se tem”, assume o jovem.

O projeto foi tornado público pela primeira vez a 15 de fevereiro de 2019, em sessão de Assembleia Municipal de Vila Nova da Barquinha. Na altura, foram apresentadas as linhas gerais deste investimento estimado em 70 milhões de euros e ficou clara a intenção do promotor: “Esperamos que o BARK seja o melhor bioparque, se não da Europa, do Mundo”, dizia na altura João Paulo Rodrigues.

Pensado como uma porta para o conhecimento e respeito pela biodiversidade, projetado como centro de conservação e reprodução de espécies em extinção e com a intenção de educar e sensibilizar os visitantes para que “não estão sozinhos neste planeta”, o BARK funcionará sob a lógica de um zoo de imersão onde a recriação dos habitats naturais das espécies é um dos objetivos primordiais, de modo a corresponder àquela que é a prioridade número um: o bem-estar dos animais.

“A ideia de metermos uma vedação e o animal vai lá para dentro, não é isso. Cada animal tem necessidades únicas”, defende. “A ideia tradicional de um Jardim Zoológico é a de ter num espaço uma coleção de animais para que as pessoas se entretenham. (…) Com o desenvolvimento do tempo, essa ideia desapareceu e tornou-se mais científica e educacional do que simplesmente entretenimento. Sim, existe entretenimento, porque obviamente as pessoas pagam. Mas hoje em dia o foco é cada vez mais em conservação, educação e investigação. Não ser puro entretenimento cego, onde as pessoas não aprendem absolutamente nada. Essa ideia acabou”, reforça.

O BARK representa um investimento de 70 milhões de euros numa área de 40 hectares (o dobro do Jardim Zoológico de Lisboa). Imagem: David Pereira | mediotejo.net

Da América à Ásia, da Europa a África, são mais uma centena de espécies (120) que vão ter no BARK a sua nova casa. Inicialmente, estavam previstos quatro habitats (o Arquipélago Indonésio, o Pantanal, o Peneda-Gerês e a Savana Africana) que, por força do aparecimento da pandemia de Covid-19, foram reduzidos a dois.

“Nós vamos recebê-los [referindo-se aos animais] todos da Europa. Temos duas espécies que vão vir do Médio Oriente – vai ser giríssimo o transporte, vêm pela Emirates. Mas o resto vai vir da Europa. Existe uma incógnita devido ao Brexit, se tivermos animais a vir do Reino Unido, como funcionará”, adianta o promotor do BARK, que sublinha que existem já “bastantes animais para vir para cá”. Os mesmos vêm de outros bioparques, graças à integração na EAZA – European Association of Zoos and Aquariums (Associação Europeia de Zoológicos e Aquários, em português), a maior associação do mundo na área da preservação de espécies.

E vai ser o habitat dedicado à Península Ibérica (o Peneda-Gerês) que vai ter presentes mais espécies ameaçadas. “Como a maior parte das pessoas não sabe o que existe cá, espero que compreendam o que possa vir ser necessário fazer para que essas espécies se mantenham. Muitos deles estavam cá muito antes de nós e neste momento só estão em perigo devido a nós”, expressa.

Animais é também sinónimo de burocracia, porque “trabalhar com animais é completamente diferente de tudo o resto”, admite o jovem abrantino que não se deixa demover pelos muitos passos necessários para meter de pé um projeto destes. “Do que eu sei, nestes últimos 20 anos existiam planos para existirem mais 14 parques zoológicos e aquários em Portugal. A maior parte deles morria exatamente devido à burocracia”, diz.

IMPACTO ECONÓMICO NA REGIÃO ULTRAPASSARÁ 50 MILHÕES DE EUROS NUM RAIO DE 50 KM

Localizado a norte do Centro de Negócios de Vila Nova da Barquinha, no centro da tríplice Barquinha, Tomar e Entroncamento, os mais de 40 hectares do BARK (o dobro do Jardim Zoológico de Lisboa, para se ter uma melhor noção) têm acessibilidades de ouro: junto à A23 e à A13, a breves minutos de distância da Estação Ferroviária do Entroncamento e a outros breves da A1, além da proximidade com outras atrações, como o Convento de Cristo, em Tomar, ou o Castelo de Almourol, em Vila Nova da Barquinha.

Desenhando com inspiração no parque da Disney, além da vertente animal está também concebido no projeto um restaurante com 300 lugares e vista para a Savana Africana, um hotel de quatro estrelas com 130 quartos, um centro pedagógico e uma clínica veterinária. Infraestruturas que vão trazer cerca de 150 postos de trabalho direto e, em épocas altas, até 1000 postos de trabalho sazonais.

O projeto do BARK prevê a criação de um hotel de quatro estrelas com mais de 100 quartos. Imagem: MODO Associados

“Há especializados e não especializados. O parque todo vai estar preparado para receber alunos universitários – quer de veterinária, biologia, química. Nós, tendo essa vertente, é um mundo que podemos desenvolver”, refere, admitindo a intenção de fazer publicações científicas com regularidade. “Temos dois estudos para serem desenvolvidos já cá. Um de genética e outro de reprodução in vitro de outra espécie”, diz.

E a expectativa na comunidade é tal que, ainda antes de abrir, o BARK recebeu já mais de 2000 currículos. “Nós sabemos que, em geral, parques destes, por cada pessoa que é contratada cá dentro, cinco são contratadas lá fora. Épocas altas, com o parque já em velocidade cruzeiro, poderemos vir a ter de contratar cerca de 1000 pessoas cá dentro, facilmente 5000 pessoas são contratadas [lá fora]”, refere João Paulo.

“Em termos da população, vemos que há muita gente que quer que o projeto ande para a frente. Também vemos muitas pessoas que querem vir para cá trabalhar: por favor, tenham calma”, apela, sublinhando que o impacto económico do BARK será, em primeira instância, “o que a população quiser que seja”.

Mas há já números em cima da mesa. “O número baixo é cerca de 50 milhões de euros de impacto económico num raio de 50 quilómetros à volta do parque: isto apanha todo o concelho de Vila Nova da Barquinha, Entroncamento, Tomar. Constância também está dentro, Abrantes deve haver ali franjas que devem apanhar. Torres Novas também e Golegã”, anuncia, sublinhando que este é o número mais baixo.

EM 2022 “JÁ VAI HAVER MUITO BARK”

Ainda sem data de inauguração, o projeto, já com classificado como de Interesse Municipal por parte do Município de Vila da Barquinha e com luz verde para a construção, através da Declaração de Impacte Ambiental favorável condicionada por parte da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo, é mesmo para avançar, garante João Paulo.

Ao mediotejo.net, João Paulo Rodrigues garante que “em breve” haverá máquinas no terreno onde vai nascer o BARK. Imagem: David Pereira | mediotejo.net

“Em 2022 já vai haver muito Bark. Não vamos ter todo o Bark mas vamos ter muito Bark – nunca vai estar terminado, vai estar sempre em fluxo. (…) O plano de abertura é termos savana e ibéria, restauração, centro pedagógico e toda a logística feita. E a primeira coisa que vai ser feita cá dentro é as nossas quarentenas. Se queremos receber animais temos de ter as quarentenas feitas. (…) Possivelmente, podemos não ter todas as espécies no dia 1, mas isso não nos impede de abrirmos”, afirma.

Com o lema “Live Curious” (“Viva Curioso”, em português) em mente para cada passo que perspetiva dar no futuro, João Paulo deixa ainda a garantia para os mais céticos: “Eu ando a trabalhar nisto há tanto tempo que neste momento vejo muito pouco a impedir que o projeto venha para a frente”.

“Neste momento estamos mesmo prontos para arrancar. Em termos burocráticos não temos mais nada para fazer, chegámos mesmo à parte final”, elucida o promotor, admitindo que “dentro de pouco tempo, vão ver máquinas a vir para cá. Finalmente!”

Ana Rita Cristóvão

Abrantina com uma costela maçaense, rumou a Lisboa para se formar em Jornalismo. Foi aí que descobriu a rádio e a magia de contar histórias ao ouvido. Acredita que com mais compreensão, abraços e chocolate o mundo seria um lugar mais feliz.

Entre na conversa

9 Comentários

  1. Projeto fantástico que pode potênciar o desenvolvimento turístico no concelho e concelhos limítrofes.
    Parabéns e muita sorte.

  2. Muitos parabéns a este jovem Homen João Paulo Rodrigues.
    Este projecto é o exemplo, que infelizmente a maioria das pessoas, ignora o respeito pelo próximo e sobretudo pelos animais, que se envergonham de ver “humanos” barbaros e indisciplinados. Este Homem faz ver muitos politicos e tantos outros que engordam e destroem o planeta e os animais, e são impunes, já ouvi comentario que devia haver um lago de crocodilos e alimentados de seres humanos assassinos, seria esta uma forma de não haver tanta violência em Portugal ? Será que a justiça existe ? Eu acho só Deus poderá um dia aplicar a verdadeira justiça e você o que acha ?
    Gostaria também trabalhar com os animais, lamento dizer bem poucas pessoas hoje se aproveitam, e acho que os animais dão-se melhor do que muitos maus e invejosos colegas trabalho… abraço e coragem. Filipe – Golegã

  3. Existe todo um potencial à volta da ideia deste projeto. Para que resulte é essencial encaixar no meio onde vai ser implantado e receber um forte apoio da comunidade envolvente.
    Atenção aos comportamentos das entidades oficiais que envolvem este tipo de projectos, pois normalmente estão do lado do problema e não da solução.
    Força e boa sorte.

  4. O que eu penso, que vai acontecer quando passar a eufuria da novidade.meus senhores do governo este projeto não é viável, por isso queremos uns subsídios para viabilizar o projeto e para que os animais não morram a fome, e no meio disto tudo já houve alguém que encheu os bolsos, não estou a dizer que é mau, mas infelizmente é o que se passa neste país

  5. Daqui a meia dúzia de anos, não é sustentável, e depois vai de pedir dinheiro ao governo, tipo TAP, novo banco, e muitas instituições que andam por aí, e quando começam a ser investigadas é um ver se te havia, infelizmente é a realidade deste país

  6. É triste que em pleno séc.XXI ainda haja quem se orgulhe desta visão colonialista sobre os outros animais. Há espécies exóticas em perigo? Reabilitem-se os habitats em vez de deslocalizar os pobres animais e tentar mimetizar os ecossistemas de onde eles provêm. Portugal tem um problema grave de desflorestação, descaracterização e perda de biodiversidade; a solução não é, obviamente, recriar África em 20 hectares (os outros 20 devem ser ocupados pelas restantes infraestruturas), mas sim regenerar o coberto vegetal, a micro e a macro fauna. O território de uma girafa pode chegar aos 1500km2 = 150.000 hectares, mas para satisfazer a curiosidade dos clientes e o ego do promotor, vão-se enfiar dezenas de espécies nas traseiras do hotel para garantir a vista.
    Tudo isto é francamente deplorável.

  7. Absurdo, ridículo!
    A protecção e conservação das espécies faz-se no seu habitat sem deslocar animais para os manter cativos e os utilizar como objectos em exposição.
    A escravaura tem que acabar também para os animais.

  8. Num município que promove a violência sobre animais para entretenimento, mais um triste exemplo de exploração de animais mascarado de conservação! Os animais têm os seus habitats e comportamentos que não podem ser reproduzidos em cativeiro. Porque não expor os seus parentes? Ou a mulher barbuda ou um anão? Evoluam e deixem os animais em paz!

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *