Exploração de energia solar. Foto: Unsplash

O governo quer aprovar até final de agosto um mapa que vai definir uma “via-verde” para construir grandes parques solares e eólicos, com licenciamento “pré-aprovado” e burocracias resolvidas em menos de um ano. O documento chama-se Programa Setorial das Zonas de Aceleração para a Implantação de Energias Renováveis (PSZAER) e nasceu inicialmente para fazer a transposição da Diretiva Europeia das Energias Renováveis (RED III), que obriga os Estados-membros a identificarem zonas de “baixa sensibilidade” ambiental e patrimonial onde os projetos renováveis fiquem dispensados de avaliações mais complexas e possam avançar rapidamente. Mas o mapa agora apresentado pela Estrutura de Missão nomeada pelo governo vai muito mais longe, e reserva cerca de 7% do território continental para estes projetos, quando, segundo a própria coordenadora técnica do programa, 1% do país bastaria para cumprir as metas definidas.

Foi a extensão das áreas “pré-aprovadas” para investimentos estratosféricos das grandes empresas energéticas que começou por fazer levantar a voz de alguns ambientalistas no mês de maio, quando as primeiras informações foram divulgadas, mas logo depois, com o processo de consulta pública aberto até 15 de julho, começaram a juntar-se num coro de protestos várias pessoas e entidades. Desde logo os autarcas, que não foram “tidos nem achados” neste processo, e a quem o PSZAER retira basicamente qualquer poder de veto futuro a estes projetos.

Dimensão avassaladora: a central do Pego como referência

A Endesa venceu em 2022 o concurso público para transformar aquela que foi a última Central a carvão em funcionamento em Portugal num projeto que combinará produção renovável, armazenamento energético e iniciativas de desenvolvimento económico e social para a região.

A reconversão da Central Termoelétrica do Pego, em Abrantes, num cluster de energias renováveis é o maior projeto em curso na região e este ponto de injeção é considerado estrutural para a rede energética nacional: envolve 600 milhões de euros de investimento da Endesa para criar 600 MW de capacidade renovável híbrida, combinando produção eólica, solar e sistemas de armazenamento em baterias, em cerca de mil hectares.

Apesar do concurso público já ter previsto uma série de exceções e medidas facilitadoras para a implementação deste projeto, os impedimentos e alterações têm-se sucedido nos últimos quatro anos, de forma a mitigar impactos ambientais, e as obras levam já um atraso de dois anos

Ainda não está construído, mas é a maior referência de escala que a região tem para comparar com o que aí vem. Façamos então as contas.

Neste momento, a área do Médio Tejo ocupada com renováveis é de 215 hectares: 94 em produção solar e 121 em energia eólica. O projeto do Pego prevê 1.000 hectares ocupados por painéis solares e torres eólicas. A área agora mapeada no PSZAER para o Médio Tejo é de 21.041 hectares: ou seja, o equivalente a cerca de 20 projetos do Pego.

Vinte vezes a área do “projeto estrutural e prioritário para o país” que, em quatro anos, ainda não conseguiu implementar-se cumprindo “os mínimos” da legislação que diz respeito a impactos ambientais. Vinte vezes esta área em “via verde”, com licenciamento em menos de um ano, sem que as autarquias se possam opor.

Um outro exemplo: nos últimos 30 anos foram construídas em Portugal centenas de centrais eólicas e fotovoltaicas de média e de grande dimensão, ocupando, no total, cerca de 20 mil hectares. Em termos europeus, é considerada uma quota acima da média.

Só para o Médio Tejo está mapeada agora uma área de aceleração superior à de todos os locais construídos em Portugal nos últimos 30 anos – é esta a dimensão do que está em cima da mesa para a região.

Abrantes no top nacional

Num relatório do LNEG publicado em 2023, a região Centro do país era já indicada como especialmente apta para a instalação de renováveis, por ter maior desenvolvimento de rede elétrica e estar próxima de grandes centros de consumo, como Lisboa, o que reduz a necessidade de construir novas e extensas linhas de transmissão.

Nesse relatório, mais comedido do que o plano atual, a região onde se inclui o Médio Tejo representa 41% da área do país apta para as futuras licenças simplificadas de projetos de energias renováveis.

Indicador no PSZAERValor
ZAER solar em Abrantes7.781 ha | 10,9% do concelho
ZAER eólica em Abrantes4.735 ha | 6,6% do concelho
Contribuição de Abrantes para a quota solar nacional2,1% do total do país
Contribuição de Abrantes para a quota eólica nacional5,7% do total do país

Na proposta agora apresentada, Abrantes surge entre os dez municípios do país que mais contribuem para a área total de ZAER a nível nacional, tanto solar como eólica. O facto de existir no concelho um ponto de injeção na rede elétrica nacional contribui também muito para esta escolha.

Com Constância (onde os 646 hectares mapeados para eólica representam 8% do concelho), é um dos dois municípios da região cuja área ocupada com ZAER eólica ultrapassa os 5% do território municipal.

Em Vila Nova da Barquinha, a situação ganha proporções muito diferentes, com 25% do concelho dado como “apto” para painéis solares. É um dos 6 municípios do país, entre 278, nesta situação (juntam-se-lhe Albergaria-a-Velha, Mortágua, Pedrógão Grande, Proença-a-Nova e Sertã, que anunciou também a sua oposição a este mapa).

Perante este cenário, a Câmara de Vila Nova da Barquinha anunciou esta quarta-feira o seu “parecer desfavorável” ao PSZAER, alinhando-se com a posição da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo (CIMT), submetido também esta quarta-feira no processo de consulta pública.

Tal como está redigido, o PSZAER “não assegura o necessário equilíbrio entre os objetivos da transição energética e a salvaguarda dos valores territoriais, ambientais, paisagísticos e patrimoniais”, considera a autarquia.

O município da Barquinha alerta em particular para os riscos sobre a paisagem do Vale do Tejo, a estrutura ecológica municipal e o enquadramento paisagístico do Castelo de Almourol, “elementos identitários e estratégicos para o desenvolvimento sustentável do concelho”. 

Critica ainda que o processo de elaboração do PSZAER não tenha “garantido uma participação atempada dos municípios, desvalorizando o conhecimento local sobre as especificidades dos territórios”.

11 municípios da CIMT entregam posição conjunta

Fonte da Comunidade Intermunicipal confirmou ao mediotejo.net que não foi concedido acesso a mapas detalhados do PSZAER, que a informação fornecida foi “escassa” e que o tempo para as autarquias se pronunciarem foi muito curto. Apesar de reconhecerem a importância estratégica deste setor e o tipo de investimentos que pode atrair, os autarcas da região ouvidos pelo nosso jornal estão muito preocupados e, independentemente das suas cores políticas, a reação perante o mapa apresentado foi praticamente unânime: “Assim não.”

O desenvolvimento na área das energias renováveis tem de fazer-se “em articulação com a coesão territorial e com a qualidade de vida das nossas populações”, pode ler-se numa posição conjunta dos 11 municípios que integram a CIMT, a que o mediotejo.net teve acesso, considerando que a versão em consulta pública do PSZAER suscita “preocupações relevantes”, dada a “forte incidência territorial das áreas propostas” para os concelhos da região.

Foto: Unsplash

“O Médio Tejo assume uma posição particularmente sensível neste processo, na medida em que vários dos seus municípios se encontram entre os territórios nacionais com maior aptidão para a produção solar e eólica, acumulando, simultaneamente, fragilidades demográficas, económicas e ambientais”, explica-se.

Entre as preocupações identificadas pela CIMT estão a elevada concentração territorial das ZAER em determinados municípios, a pressão sobre o solo rústico e florestal, os impactos cumulativos sobre paisagem, ecossistemas e corredores ecológicos, e a inexistência de mecanismos claros de repartição dos benefícios económicos gerados.

Também a Associação Nacional de Municípios revelou o seu “parecer desfavorável” e defendeu que esta versão do PSZAER “deverá ser objeto de uma reflexão mais alargada, devidamente articulada com os municípios, restantes entidades públicas e sociedade civil”.

CIMT elencou nove pontos indispensáveis a incluir na versão final do PSZAER

  1. Avaliação da capacidade de carga territorial, com limites de saturação por município e sub-região;
  2. Indicadores obrigatórios de monitorização territorial, social, ambiental e económica;
  3. Um modelo de governação supramunicipal, com as comunidades intermunicipais a acompanhar os efeitos das ZAER;
  4. Mecanismos efetivos de partilha de valor com as comunidades locais, distintos das rendas pagas aos proprietários dos terrenos;
  5. Disponibilização, em formato aberto e georreferenciado, de toda a cartografia das ZAER;
  6. Reforço do papel dos municípios no licenciamento, para que a simplificação administrativa não reduza a capacidade local de intervenção no ordenamento do território;
  7. Revisão dos critérios de delimitação, considerando também a capacidade real da rede elétrica;
  8. Integração do armazenamento energético e das infraestruturas de rede nos critérios de avaliação;
  9. Prioridade efetiva a áreas já artificializadas ou degradadas, em detrimento de espaços agrícolas, florestais ou ecologicamente sensíveis.

A dimensão da proposta agora apresentada pode medir-se também comparando-a com o estudo feito entre 2023 e 2024 pelo Grupo de Trabalho para a Definição das Áreas de Aceleração de Energias Renováveis, criado no Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG). Esse grupo identificou cinco cenários possíveis, do menos restritivo ao mais restritivo, tendo o Cenário A (menos exigente em termos legais) mapeado 427.330 ha, ou seja, 4,8% do território continental, e o Cenário E (o mais exigente), libertado 132.100 ha, o que equivalia a 1,5% do território continental.

A proposta agora apresentada mapeou 663.395 hectares, cerca de 7% do continente. Partiu do Cenário A, mas foi ainda mais longe, introduzindo adaptações que alargaram as áreas elegíveis.

Entre as críticas mais apontadas está o facto de terem sido ignorados corredores ecológicos previstos nos Programas Regionais de Ordenamento do Território, bem como perímetros de pinheiro-bravo, vinhas, pomares e olivais, que ficam agora também sujeitos a abate para dar lugar às zonas de aceleração.

Além disso, a legislação europeia determina que a instalação de centrais fotovoltaicas deve ser feita prioritariamente em espaços já artificializados ou degradados, para proteger solos agrícolas e a biodiversidade. No entanto, apenas 37.500 hectares do PSZAER (5,7% do total) correspondem a esse tipo de terrenos.

Finda a consulta pública, resta saber se o Governo vai sentir o “peso” das centenas de pareceres desfavoráveis recebidos ou se avançará “sem medo”, como gosta de dizer o primeiro-ministro, com este “Mapa Verde”.

Um mapa que, tal como é apresentado, não reflete o equilíbrio fundamental entre a necessidade de progresso e de preservação – e que poderá transformar radicalmente não apenas a paisagem mas até o propósito e o destino de várias zonas do interior do país.

NOTÍCIAS RELACIONADAS

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

Entre na conversa

1 Comment

Deixe um comentário

Leave a Reply