A elétrica espanhola Endesa confirmou esta segunda‑feira em Madrid que o projeto de reconversão da antiga Central do Pego, em Abrantes, inicialmente previsto para 2025, deverá avançar em 2027. A informação surgiu integrada na apresentação de contas da empresa (ver caixa) e na atualização do seu Plano Estratégico 2026‑2028, que prevê um investimento global de 10,6 mil milhões de euros na Península Ibérica.
Recorde‑se que a Endesa venceu em 2022 o concurso público para transformar aquela que foi a última central em carvão em funcionamento em Portugal apresentando um projeto que combinará produção renovável, armazenamento energético e iniciativas de desenvolvimento económico e social para a região.
O projeto de transição justa do Pego inclui a instalação de 600 MW de capacidade renovável híbrida, combinando produção eólica, solar e sistemas de armazenamento em baterias – um investimento de cerca de 600 milhões de euros.
A Endesa já tinha admitido há um ano “algum atraso” no calendário inicial do projeto. Ainda assim, o CEO, José Bogas, assegurou que todas as fases estavam “a avançar corretamente”. Contudo, o processo de reconversão tem sido marcado por sucessivos entraves administrativos e ambientais.
O primeiro revés surgiu em 2022, quando o Exército rejeitou a construção de uma central fotovoltaica dentro da área militar de Santa Margarida, levando ao abandono da central solar do Copeiro e à criação de um novo projeto, Helíade, a 19 quilómetros.
Outro obstáculo surgiu quando um dos quatro grupos previstos do cluster recebeu um parecer ambiental desfavorável, devido à intenção de ocupar áreas de sobreiro que arderam em 2003 – onde a lei impede qualquer alteração de uso do solo durante 25 anos, o que obrigou a mudanças nos layouts e à redução de potência de alguns projetos solares, compensada com a inclusão de novos parques fotovoltaicos, como o da Comenda.

O cluster do Pego está agora dividido em quatro grupos:
Grupo 1. Parque eólico de Aranhas e ligações à rede elétrica na subestação da Concavada, que já obteve título ambiental favorável (com condições). Terá 44 geradores e uma potência total instalada de 244,6 MW.
Grupo 2. Parque eólico do Cruzeiro, subestação e respetiva linha de ligação à central da Concavada, com declaração de impacte ambiental favorável (condicionada)
Grupo 3. Centrais solares da Atalaia e da Concavada e projetos associados (linhas de muito alta tensão e subestações), que teve parecer desfavorável ao projeto de execução e cuja reformulação proposta aguarda aprovação final.
Grupo 4. Centrais fotovoltaicas de Helíade e de Torre das Vargens e linha de muito alta tensão para ligação à rede e à subestação da Comenda, com parecer ambiental favorável (condicionado).
As alterações mais recentes incluiram o enterramento de linhas de média tensão e a remoção de um núcleo de 60 hectares para reduzir impactos na biodiversidade. Já o enterramento parcial da linha de muito alta tensão entre Atalaia e Comenda foi rejeitado pela REN, que alertou para os riscos operacionais e custos elevados.
Os estudos ambientais apontam ainda que a acumulação de parques solares, eólicos e linhas elétricas num mesmo território está a gerar efeitos cumulativos difíceis de mitigar, sobretudo num corredor utilizado por aves em risco, como o abutre‑preto.
Estes atrasos obrigaram também o Governo a prolongar já por três vezes o pagamento dos salários dos antigos trabalhadores da central a carvão, enquanto aguardam pelo arranque do novo projeto. Esse custo está a ser suportado pelo Fundo Ambiental, no âmbitos da compensações europeias previstas para a Transição Justa.
A Tejo Energia, consórcio que geriu a central nos últimos 30 anos, anunciou entretanto esta semana que iniciará em março a destruição das antigas torres de refrigeração. A intervenção visa “repor os terrenos às suas condições de base, garantindo a devolução em plena segurança e conformidade ambiental”, tal como previsto no contrato de concessão firmado com o Estado português.
Com lucros em alta, Endesa anuncia investimentos superiores a 10 mil milhões de euros
A Endesa apresentou ontem em Madrid o seu plano estratégico para 2026‑2028, que prevê investimentos com um valor global de 10,6 mil milhões de euros. Neste plano, 52% (5,5 mil milhões) serão destinados ao reforço da rede elétrica em Espanha, um ponto crítico devido à elevada saturação das infraestruturas. A aposta nas energias renováveis ascenderá a 3 mil milhões de euros, com foco na energia eólica e no armazenamento, prevendo‑se a instalação de 1.900 MW adicionais até 2028. A empresa já dispõe de uma plataforma com 3.000 MW de projetos híbridos prontos para avançar. A atividade de comercialização de eletricidade e gás receberá 900 milhões, reforçando atendimento, parcerias e ganhos de eficiência.
Em 2025, a Endesa superou as previsões e registou um EBITDA de 5.756 milhões (+9%) e um lucro líquido de 2.351 milhões (+18%). Com este desempenho, a empresa proporá um aumento de 20% do dividendo, para 1,58 euros por ação.
A Endesa voltou também a defender o prolongamento do funcionamento das centrais nucleares até que estejam garantidas as metas de renováveis e armazenamento previstas no PNIEC, argumentando que a energia nuclear continua mais competitiva do que as alternativas.
