Lagar centenário foi adquirido há dois anos por empresa alentejana e esteve parado até ao último verão Foto: mediotejo.net

Quatro meses depois dos episódios de mau cheiro que afetaram a aldeia de Parceiros de Igreja e arredores, no concelho de Torres Novas, o lagar da antiga Parceria de Azeites, agora da propriedade da empresa alentejana Cratoliva, continua a laborar e parecem ter sido sanados os problemas ocorridos no verão. Foi entretanto realizada uma fiscalização pela CCDR LVT – Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional de Lisboa e Vale do Tejo e a empresa comprometeu-se, em reunião com elementos da União de Freguesias e Câmara Municipal, a realizar obras no edifício, centenário, e em equipamentos. Em resposta ao mediotejo.net, a CCDR informou que a Agência Portuguesa do Ambiente foi contactada devido a problemas identificados durante a fiscalização.

Em Parceiros de Igreja, na União de Freguesias de Brogueira, Parceiros de Igreja e Alcorochel, já não há mau cheiro intenso (embora permaneça o odor já tradicional face à presença do lagar na aldeia), mas a população gostava de ter algumas respostas. Na localidade existe, com perto de um século, um lagar dedicado ao tratamento do bagaço de azeitona, que até há poucos anos pertencia à Parceria de Azeites. Esta empresa entrou em insolvência, tendo sido adquirida pela Cratoliva, empresa com sede no Crato (Portalegre), há dois anos, que retomou a produção este verão. 

A forte campanha de azeitona, que esgotou a capacidade de tratamento do bagaço pelos lagares nacionais, assim como o calor, a utilização de bagaço armazenado há três anos e a reativação de um lagar que estivera parado, parecem ter sido os fatores na origem dos fortes episódios de poluição atmosférica que se seguiram e despoletaram queixas da população e pedidos de esclarecimentos de grupos políticos. Entretanto houve uma reunião da empresa perante várias entidades, onde esta explicou a situação e se comprometeu a realizar obras no edifício e investir de forma gradual na modernização de equipamentos.

Edifício centenário fica perto da população o que, mediante o vento, dispersa o fumo e poeiras pela aldeia Foto: mediotejo.net

Passou também pelo espaço uma fiscalização da CCDR, tendo já produzido um relatório. O mediotejo.net foi informado pela Câmara de Torres Novas que o documento, que refere quais as alterações que devem ser realizadas no lagar, se encontra na secção do Urbanismo a ser tratado. 

Em resposta a um pedido de informação do mediotejo.net sobre o conteúdo deste documento, a CCDR LVT confirmou ao nosso jornal a realização da ação de fiscalização às instalações da Cratoliva em outubro de 2021. À data, refere a informação, “na zona envolvente ao estabelecimento, verificou-se que não apresentava indícios de qualquer tipo de odores que pudessem causar incomodidade ou emissões para atmosfera, embora se tenha verificado a existência de poeiras e partículas negras, no exterior da instalação, nomeadamente nos pavimentos confinantes com a caldeira e chaminé”.

“Relativamente à monitorização das fontes fixas existentes na instalação e da análise dos respetivos relatórios entregues, verifica-se que a instalação para esta atividade, encontra-se em cumprimento com o disposto no Decreto-Lei n.º 39/2018 de 11 de Junho, cumprindo a periocidade imposta no diploma atrás referido. Contudo foram constatadas várias situações relacionadas com o acondicionamento de resíduos e outros materiais, bem como intervenções de manutenção de equipamentos e instalações que carecem de correção urgente”, adianta.

Segundo a CCDR LVT, o estabelecimento industrial Cratoliva, Lda. é uma atividade classificada como Tipo 3, nos termos do Sistema da Indústria Responsável (SIR), na redação do Decreto-Lei n.º 73/2015 de 11 de Maio, sendo a Entidade Coordenadora (EC) do licenciamento industrial a Câmara Municipal de Torres Novas.

Compete, assim, ao município de Torres Novas a imposição da “adoção de medidas e condições de funcionamento para mitigar riscos e consequências nas populações, saúde pública e ambiente” ao industrial.

“Nesse sentido, a CCDR-LVT oficiou a EC, dando conhecimento dos aspetos sobre os quais se constatou a necessidade de correções por parte da unidade industrial e para que encete as diligências necessárias à implementação dessas correções e outras que considere adequadas”, refere.

A informação termina a indicar que APA foi contactada, a fim de informar “da ação realizada e da situações específicas relacionadas com os recursos hídricos para atuação no âmbito das suas competências de licenciamento e fiscalização”.

População quer respostas 

O mediotejo.net passou pelo lagar da Cratoliva, em Parceiros de Igreja, na manhã de terça-feira, 25 de janeiro, tendo falado com a administração, que preferiu não prestar declarações públicas. Confirmou, porém, a intenção da empresa de realizar obras de melhoria das condições do espaço, remetendo os problemas verificados no verão para o pico de produção e o calor.

Presidente da união de freguesias acredita que problema de fundo foi resolvido Foto: mediotejo.net

Tendo estado presente na referida reunião entre várias entidades, o presidente da União de Freguesias, Manuel Carvalho Júnior, adiantou ao nosso jornal que o mau cheiro teve proveniência, sobretudo, aquando o tratamento de bagaço de azeitona que se encontrava armazenado no lagar há cerca de três anos, o que entretanto já foi resolvido.

“Esse cheiro não existe mais”, afirmou, salientando que o ar era irrespirável na ocasião, mas que agora regressou-se ao odor tradicional da laboração do lagar.

O responsável da empresa “comprometeu-se a resolver o problema aos poucos”, uma vez que o orçamento para instalar filtros nas chaminés ascende os 480 mil euros. “É um valor incomportável para quem compra uma empresa em insolvência”, constatou, referindo que cabe à Junta agora ir fiscalizando, crente, porém, que o problema de fundo não se repete.

Dono do café local, Luís Jeremias constata que cheiro do lagar já é comum, mas gostava de saber os resultados da fiscalização Foto: mediotejo.net

Pela aldeia alguns populares continuam a queixar-se de situações de mau cheiro, mas há também quem relativize. O problema maior prende-se neste momento com as partículas que saem das chaminés e se alojam nas piscinas de alguns moradores, provocando sujidade. Para quem esteve envolvido, como Luís Jeremias, nas queixas contra a poluição, a sua insatisfação prende-se mais com o facto de não haver informação sobre as fiscalizações realizadas à empresa.

“O cheiro já não é o que nos incomodava em agosto, mas do lagar normal” e a que a população já estava habituada a sentir ao longo dos anos perante a presença de um lagar tão antigo.

“Neste momento estamos todos à espera de saber o que foi falado, das fiscalizações” que foram realizadas. “A população ficou a zeros”, constatou, não sabendo o que está a ser feito e se alguma coisa foi efetivamente alterada após a ação das instituições.

Os esclarecimentos obtidos apontam no sentido da resolução do problema de fundo, situação que será facilmente detetada na localidade se a questão se repetir.

Cláudia Gameiro

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

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