Este foi um ano com muita azeitona, aumentando a produção de azeite. Créditos: Unsplash

Em ano de números recorde de azeitona, o setor do azeite está em vias de parar a nível nacional devido à lotação da capacidade de armazenamento de bagaço de azeitona. Os problemas já se sentem na Cooperativa de Olivicultores de Fátima, que pondera recorrer a Espanha, com custos extra para a produção.

O alerta foi dado esta quinta-feira, 9 de dezembro, pela FENAZEITES – Federação Nacional das Cooperativas Agrícolas de Olivicultores, mas já há algum tempo que era esperado pelo setor da oliveira e do azeite. Num ano em que se prevê que a produção de azeite venha a atingir valores na ordem das 180 mil toneladas, constituindo a maior campanha de que há registos, as três grandes unidades nacionais que recebem o bagaço de azeitona já esgotaram o seu armazenamento. No Alentejo, refere a FENAZEITES, todo o setor já está paralisado.

Bagaço de azeitona no lagar da Cooperativa de Olivicultores da Freguesia de Alvega (Abrantes). Créditos: mediotejo.net

“A FENAZEITES tomou conhecimento de que todo o setor olivícola do Alentejo está paralisado, desde a apanha de azeitona aos lagares que a transformam”, refere a instituição em nota de imprensa. “Devido ao boom verificado na produção deste ano, as três grandes unidades de receção de bagaço de azeitona, proveniente dos lagares, cooperativos e não cooperativos, que processam toda a azeitona produzida no Alentejo, têm a sua capacidade de armazenamento esgotada ou praticamente esgotada e não aceitam mais matéria-prima”, explica.

“Toda esta situação está a provocar prejuízos incalculáveis aos agricultores e empresas ligadas ao setor, além de que será aterrador o que poderá ocorrer à cadeia de valor oleícola, por não haver onde colocar aquele bagaço de azeitona, cuja produção estimada prevê atingir os 900 000 000 Kgs”, adianta a mesma informação.

Tanto a FENAZEITES como a sua associada, a UCASUL – União de Cooperativa Agrícolas, encontram-se há vários anos a tentar sensibilizar as entidades responsáveis para esta eminente possibilidade. “Apesar disso, as unidades extratoras não tiveram autorização nem para aumentar a sua capacidade, nem licenciamento para abrir novas unidades”, refere.

“A imagem negativa das unidades de tratamento de bagaço que tem passado nos últimos anos, seja através de grupos de pessoas ou de associações que, de algum modo, identificaram a fragilidade no impacto social, fizeram parte da agenda política setorial e em nada ajudaram a implementar as soluções necessárias para garantir o equilíbrio e a tão desejada sustentabilidade do setor”, constata.

Acresce que o Programa de Desenvolvimento Rural 2020 deixou de incluir o setor olivícola desde 2018 até novembro último. “A transferência de verbas do 2º pilar para o 1º pilar demonstra a pouca preocupação da administração na urgência dos investimentos na transformação e laboração dos bagaços”, aponta.

“A ausência e recusa da aceitação de uma estratégia global equilibrada para o setor, pelos organismos competentes, tem provocado estes desequilíbrios estruturais, que já estão a penalizar todo o setor nacional, nomeadamente no Alentejo, onde o estrangulamento na receção dos bagaços de azeitona está a levar ao colapso das atividades relacionadas”, conclui a mesma informação.

A situação já está a afetar a Cooperativa de Olivicultores de Fátima, que recebe azeitona de todo o país, nomeadamente do Alentejo, e nesta campanha já ultrapassou as 5 mil toneladas. “É um ano com muita quantidade, que se previa muito forte”, admite, não obstante a qualidade seja inferior devido às condições meteorológicas, razão pela qual este cenário não é propriamente uma surpresa. 

O responsável da Cooperativa, Pedro Gil, explicou ao mediotejo.net que nos últimos anos, face aos múltiplos incentivos para a plantação de olival, este tem crescido por todo o país, no entanto o financiamento não veio acompanhado das necessárias autorizações de ampliação do armazenamento do bagaço de azeitona. “Temos vindo a alertar que isto um dia ia acontecer”, salientou ao nosso jornal.

Ainda a trabalhar, a Cooperativa de Fátima encontra-se porém também em risco de parar. Neste momento a estrutura está a ponderar alternativas, nomeadamente encaminhar o bagaço para Espanha, o que se irá refletir no aumento dos custos de produção de azeite. “Todos os lagares que estão a funcionar encontram-se a lidar com este problema”, constatou.

 

Cláudia Gameiro

Cláudia Gameiro, 32 anos, há nove a tentar entender o mundo com o olhar de jornalista. Navegando entre dois distritos, sempre com Fátima no horizonte, à descoberta de novos lugares. Não lhe peçam que fale, desenrasca-se melhor na escrita

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *