Foto: mediotejo.net

Para se conhecer melhor as populações de aves, as suas migrações, os seus hábitos e as suas características, recorre-se ao processo de anilhagem destes animais. E foi precisamente uma atividade de anilhagem que foi realizada na Reserva Natural do Paul de Boquilobo de forma a levar esta atividade até ao conhecimento da população.

A manhã do dia 5 de fevereiro mostrava-se fresca, mas quando chegámos até ao Centro Interpretativo do Paul de Boquilobo já algumas aves tinham sido capturadas através de redes verticais para que se pudesse proceder à sua anilhagem, contando para isso como o apoio técnico do ICNF (Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas) e a colaboração da associação torrejana 30Por1Linha.

As redes verticais de captura são sempre colocadas no mesmo sítio. Foto: mediotejo.net

A anilhagem de aves para fins científicos remonta a 1899, quando o dinamarquês Christian Mortensen começou a anilhar estorninhos de modo a perceber as suas migrações, sendo que hoje em dia os praticantes de anilhagem têm de ser credenciados. Neste procedimento as aves são assim capturadas através de redes verticais, são analisadas e são retirados os dados sobre a ave, sendo-lhe depois colocada uma anilha com um número e uma letra.

Enquanto a letra tem a ver com o tamanho da anilha, o número é único para cada anilha, de forma a que quando se apanhem aves que já foram previamente anilhadas – algo que acontece frequentemente na Reserva Natural do Paul de Boquilobo, uma vez que a anilhagem é feita regularmente – o número seja identificativo da ave. 

Pisco-de-peitoruivo, uma das aves anilhadas na atividade. Foto: mediotejo.net

Quem explica a importância deste processo é o funcionário do ICNF, Fernando Faria Pereira. Começando por esclarecer que a anilhagem começou como um método para se perceber as migrações das aves e que em cada país da Europa há um determinado centro responsável pela anilhagem de aves – sendo que em Portugal é o Centro de Estudos de Migração e Proteção de Aves que está sob a tutela do ICNF – o técnico esclarece que a anilhagem científica de aves é uma ferramenta extremamente importante para se compreender as populações de aves.

“Muito embora a anilhagem tivesse a ver principalmente com o estudo das migrações, hoje em dia a anilhagem permite tirar muitas outras conclusões bastante importantes para gerir as diversas populações de aves e efetivamente conseguir implementar medidas para a sua preservação”, explica Fernando Faria Pereira.

Os dados sobre as aves são registados e são depois inseridos numa plataforma europeia. Foto: mediotejo.net

Nesta atividade em concreto, naquilo que é a monitorização de aves invernantes, a cada 15 dias dentro de um determinado período do ano (no inverno), é realizada uma sessão de anilhagem, a qual tem início meia hora antes do nascer do sol e que se por cinco horas após o nascer do sol. Os locais de captura são sempre os mesmos, as redes, no mesmo número, são também sempre montadas no mesmo local.

Estas normas são tidas em conta e replicadas na Europa, numa ação consertada a nível europeu (os dados registados são colocados numa base de dados europeia), o que, sendo o método e o esforço de captura idêntico, permite comparar os resultados. Esta ação permite assim averiguar as variações das populações, quando se dão as migrações – se chegam mais tarde ou mais cedo – e como é que essas populações vão evoluindo ao longo do ano.

São analisados diversos dados biométricos das aves, com o sexo, a idade, o peso, a gordura, a musculatura ou o tamanho do bico e do tarso. Foto: mediotejo.net

“Por exemplo, há determinadas espécies de aves que quando comecei a anilhar apareciam e que agora não aparecem”, diz Fernando Faria Pereira, que acrescenta que além da dinâmica populacional, é também possível extrair informações “extremamente importantes” acerca das aves, como o seu estado sanitário ou dados biométricos como o sexo, a idade, o peso, a gordura, a musculatura ou o tamanho do bico e do tarso.

Estes dados permitem a comparação entre as populações do norte e as populações do sul, sendo que “todas estas ferramentas são extremamente importantes para estudar as aves e para, através do conhecimento adquirido, poder implementar medidas mais eficazes para a sua conservação”, refere.

Depois do processo de anilhagem as aves são devolvidas à natureza. Foto: mediotejo.net

Para além deste aspeto mais científico, que é a sua principal finalidade, a anilhagem pode ter igualmente uma função mais didática, à semelhança da atividade que foi assim desenvolvida na Reserva Natural do Paul de Boquilobo, em conjunto com a associação 30por1linha e o município de Torres Novas, a propósito do Dia Mundial das Zonas Húmidas.

Esta atividade aberta permitiu sensibilizar os participantes, repartidos entre miúdos e graúdos, para a conservação da natureza e para a o papel individual que cada um tem de desempenhar no que à conservação da natureza diz respeito.

“Não podemos ser só nós, que aqui trabalhamos, a conservar a natureza. Temos de ser todos nós, enquanto sociedade, a preservar ativamente o património natural que muito valoriza o nosso país”, conclui Fernando Faria Pereira. 

Notícia Relacionada:

Torres Novas | Paul do Boquilobo, onde um conjunto de passos equivale a uma nova espécie para descobrir (c/VIDEO)

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo.

Entre na conversa

1 Comment

  1. Essa anilhagem porque não é feita em vários pontos do País, sabendo que muitas aves procuram a deslocarem-se sempre para os mesmos lugares para nidificar. Isso acontece com as aves migratórias. Já as nativas normalmente mantêm-se na mesma área onde nascem ou vivem.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *