Dentre muitas coisas, Pero Vaz de Caminha foi um escrivão português, responsável por escrever as primeiras impressões da chegada ao Brasil, em 1500. Ele fez parte da frota de Pedro Álvares Cabral, nascido no Porto, e morreu aos 50 anos, em Calicute, Índia.

Pero, Pero, Grande Pero!

Pero Perito, fiz essa imagem em 2020, acho. É uma visão do Rio Tejo, próximo da minha casa, próximo da Câmara. Aqui o rio é largo como o céu. Um é espelho do outro, e às vezes não sabemos se os peixes voam ou se as aves nadam. Se navegamos nas nuvens ou se voamos no rio.

Em Vila Nova da Barquinha há muitos gatos, muitos patos. No verão, há muitas moscas.

Então, eu sempre fiz piadas: Vila Nova dos Gatinhos, Vila Nova dos Patinhos, Vila Nova da Mosquinha. Cheguei até a chamar o lugar de Vila Nova do Maikinho! Acho que ficava bem.

Era o início da pandemia. Ainda não sabíamos do que se tratava.

O governo — todos os governos — pediam para ficarmos em casa. Tudo aconteceu muito rápido. Quando demos conta, comércios, escolas, empresas, tudo estava fechado, e evitávamos circular em espaços públicos.

Nessa época, fiz uma sequência de foto-montagens no Photoshop (antes da IA) baseadas na vila onde vivo.
No geral, eram imagens surreais e cómicas, sempre a evidenciar o slogan: Fiquem em casa!

Ninguém sabia o que se passava.
Parecia que tínhamos sido invadidos por alienígenas.
E as teorias conspiratórias circulavam quase tão rápido quanto o vírus.
Muita coisa mudou de lá para cá.
Aquele medo pandémico mudou e deu espaço para outros medos e outras teorias conspiratórias.

Os alienígenas mudaram de cara, e hoje se chamam imigrante ou estrangeiro.

Alien race” foi o termo usado pela máquina de propaganda do Partido Nazista na Alemanha para rotular os judeus — que acusavam de envenenar a cultura e ameaçar a economia e a segurança da “nação anfitriã”. Esta ideia foi estrategicamente infiltrada no inconsciente coletivo na década que precedeu o Holocausto.

Temos um rei na América, chamado Donald Trump. Recentemente aquele monarca criou um número de emergência para receber denúncias e aconselhar vítimas de atos de imigrantes ilegais, definidos como “criminal aliens”. Podia ser uma piada, como sempre faço nessas cartas, mas infelizmente, não é.

Estamos em 2025, e ainda estou em Portugal. O debate atual segue esse sentido: se um português comete um crime — seja roubar, violência doméstica (uma doença que tem criado força e que é bastante omitido), estupro dentro das famílias, homicídio por herança, qualquer coisa do mais comum ao mais absurdo — isso será evidentemente condenado (na maioria dos casos, em um tempo arrastado, ou que se perde em águas de bacalhau).

Mas se um estrangeiro faz o mesmo, ele será condenado por esses crimes, mas antes será condenado pelo fato de ser estrangeiro.

E não apenas ele será condenado — sua família será condenada — todos de sua terra também o serão. Ficarão todos desconfiados de qualquer pessoa que tenha aquela nacionalidade. Porque tal ação contamina uma nação inteira. E nossos filhos, a se relacionar com essa gente, a contaminar nosso idioma e nosso sangue… Deus nos livre). Portanto, é melhor avaliar bem se vale a pena aceitar esse tipo de gente aqui, porque são todos iguais.

Não do ponto de vista da Constituição, nem do ponto de vista cristão — mas do ponto de vista do preconceito, do julgamento e do medo.

É triste ouvir as coisas que tenho ouvido, em 2025 — nas mesas, nos cafés, nas esquinas.

Um mau português é mau.
Mas um mau estrangeiro é infinitamente pior.

Sabe Pero, sempre fui super bem tratado em Portugal. Tu sabes! Honestamente, desde que ancorei meu navio aqui, tenho privilégios. Tenho bons amigos que sempre dizem: O Maike já é mais português que brasileiro! Mais ribatejano que paulistano! É dos nossos! É prata da casa! Gosto de ouvir isso, pelo sentido que isso tem.

Mas, meu amigo… sou brasileiro, estrangeiro e imigrante.
Seja onde eu estiver, isso não muda.
Não sou um estrangeiro melhor, nem um brasileiro diferente. Sou como todos, nesse sentido. Falar que sou diferente de forma positiva, não é um elogio, é uma ofensa, as avessas.

Um conhecido, português, numa mesa de bar, falou que claro que não queremos novamente uma ditadura — mas que uma “meia-ditadura” seria boa idéia para termos algum controle da situação (já ouvi algo semelhante no Brasil também)
Meia ditadura, meio estupro, meia agressão, meia liberdade, meia falta de noção, meia vida. Não existe meio nessa história — é opressão com tapa nas costas e sorriso no rosto, em tom diplomático.

O medo está ali, a orbitar os portugueses, e se não atravessarmos esse oceano e nos movimentarmos para o outro lado, o medo nos alcança, e se torna nosso amigo de fé, nosso irmão, camarada — como dizia o rei (Roberto Carlos, não Elvis).

Amar a Deus é fácil. Amar a humanidade também. Até amar ‘as pessoas’ parece fácil — porque tudo isso é abstrato.
Amar o próximo é uma tarefa muito difícil, por ser real.

Isso parece apenas uma frase de biscoito da sorte cristão, mas nunca é uma prática — ou não costuma ser.
Inclusão Pero, sempre será a forma mais inteligente e sensata de manter a cultura, de ampliar a cultura, de usar a cultura como ponte de diálogo, como troca, como ponto de partida de um relacionamento — seja qual for.

Pero, pá!

Cultura nunca deve ser uma fronteira, nem uma forma de dividir e excluir.
Nem, tampouco, algo a ser preservado até ficar azedo e malcheiroso — até desaparecer.
O que substitui uma cultura é a falta de movimento — não o envolvimento.
O medo, Pero. O medo que os portugueses têm de perder sua identidade é o que faz com que essa identidade seja apenas, o próprio medo.

Pero, Pero, vocês foram tão longe, e tu escreveste tantas coisas lindas do Brasil, na época em que os portugueses eram os nossos Aliens mais bem tratados, alimentados e queridos — embora toscos, agressivos e criminosos.

Mas assim, com insistência, muitas discordâncias, muito sangue, ouro e suor, muitos séculos depois construímos uma relação, sem fronteiras fechadas.
Com tudo que houve de monstruoso e belo, até sermos o que somos: um pequeno Brasil em continente europeu, um grande Portugal em continente americano. Como o mesmíssimo idioma, e o mesmo hábito de colocar alho em tudo.

Sabes… conversa densa.
Nem combina com esse vinho.
E esse gatinho da imagem, que olha essas naves e não sabe se são casinhas flutuantes ou distribuidores de ração.

Pero, descobri minha brasilidade aqui em Portugal, e minhas camisas são bem mais floridas e coloridas de quando eu vivia no Brasil.

Ficarei por aqui, até o dia que isso continuar a fazer sentido, e depois, se houver esse depois, se precisar haver esse depois, se o depois convidar-me, pego minha nave, meu barco e esse gatinho, e vou explorar novos mundos.

Como todo bom “Alienígena-Pirata”, deixarei uma mensagem em algum dialeto em que os portugueses levarão alguns bons anos para decifrar, e levarei uma amostra desta terra. (No caso, o gatinho…talvez pastel de Belém, também)

A carta de hoje foi uma seca, eu sei. Mas necessário, pá… pois haverá eleições em breve e a malta parece estar com um discurso meio louco. Diálogos que não são diálogos, são alucinações. Mas bem, a vida segue alucinada, desde as grandes navegações, pelo visto.

Pero, gosto de ti, mas agora vou cozinhar. Farei ovos escalfados, pensando em ti.

Fica bem e beba água, homem. Não podes viver só de vinho, é sério.

Um grande abraço do teu amigo Paulistejano, meio paulistano, meio ribatejano.

Nasce em algum lugar na caótica São Paulo em 28 de Agosto de 1979 e por lá vive e estuda artes visuais em diversas escolas e ateliês. Virginiano e pirata, depois de dar muitas voltas pelo design, produção, estúdios e arte-educação, encontra na ilustração um caminho, e no mercado publicitário faz uma trajetória profissional. Chega em Portugal em 2018, se encanta por tudo e por todos e em V.N.Barquinha encontra seu espaço. Pelo desenho e pela fotografia faz amigos, cria afetos e desenvolve diálogos. Gosta de viajar pelas terras, pelas emoções e pelas idéias. Se interessa pelas impressões, mais que pelas conclusões. E por isso também se aventura na escrita. Porque na tentativa de desenhar e fotografar, nada parece suficiente. Enquanto estiver por essas terras, quer falar e escrever sobre o que é ser um brasileiro em Portugal, o que são essas muitas sensações de ser um estrangeiro e mostrar que nenhum lugar é pequeno quando as ideias e buscas são grandes.

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1 Comment

  1. Parabéns Maike, suas palavras são muito atuais e serve de reflexão a todos os imigrantes e também aos portugueses.

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