Ilustração de Maike Bispo (auto-retrato)

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Uma carta, dirigida a algum rei, sobre as primeiras impressões de Portugal.

Pero, Pero, Grande Pero!

Entre muitas coisas, Pero Vaz de Caminha foi um escrivão português, responsável por descrever as primeiras impressões desde a chegada ao Brasil, em 1500. Ele fez parte da frota de Pedro Álvares Cabral. Ele nasceu no Porto e faleceu aos 50 anos, em 1500, em Calicute, Índia.

Ele escreveu aquela carta muito famosa, intitulada “Carta a el-Rei Dom Manuel sobre o achamento do Brasil”, onde ele descreve pouco do que, talvez, ele realmente gostaria de ter escrito. Descreve a partir de um olhar burocrático, o passar dos dias, muitos relatórios e detalhes técnicos. Além disso, faz os primeiros rascunhos de piadas de português que mais tarde seriam usadas pelos brasileiros, e menciona sua insónia causada por um gajo chamado Ricardo, da caravela 4, que de vez em quando gritava “Terra à Vista!”, fazendo todos acordarem ansiosos. Ele fazia isso só para sacanear… gajo parvo, pá…

Nas cartas, Pero possivelmente omitiu ideias, sensações e palavras. Talvez ele não soubesse expressá-las devido ao facto de ser um português típico: lacónico, excessivamente prático e com pouca inclinação para mostrar emoções. Não queria perturbar os outros com seus problemas, ou talvez simplesmente não quisesse pensar a respeito, pois, como Pero já sabe, há questões que os portugueses evitam ou não consideram necessárias de falar. Afinal, se as coisas estão a andar, é porque “ele faz por isso” (uma frase típica portuguesa).

Talvez por ser um homem entre outros homens, ele não expressaria suas fragilidades e dúvidas, porque macho não tem dessas coisas. Isso é coisa de “coninhas”. E como funcionário da coroa, não era pago para escrever prosas e poesias, mas sim relatórios técnicos e objetivos. O rei queria saber a cor do mar, da terra, do céu e das peles, com o mínimo de tons possíveis. Detalhado, pero no mucho.

Uma pequena nota do léxico do português de Portugal: A expressão “coninhas” tem origem etimológica em cona + inha + s expressivo. Cona em português do Brasil quer dizer vagina ou buceta (sendo mais grosseiro). Refere-se ao órgão sexual feminino. Dizer isso para um homem em Portugal soa ofensivo, pois o coloca como um medroso, um homem afeminado, que tem uma cona em lugar do pau, ou, usando palavras do Brasil, seria um “viadinho”. Outros adjetivos nesse género seriam: cagarolas, fracalhão, medricas (adoro essa palavra, medricas).

Meu amigo Pero bem sabes que não sou escritor, e sim ilustrador e artista visual, o que não impede que eu escreva. Tenho certeza de que fazias desenhos de gatinhos nas bordas do papel para passar o tempo ou para pensar entre uma frase e outra, entre uma ideia e outra. Talvez não gatinhos, mas outros animais novos, como nas palavras do navegador português Valentin Fernandes ao descrever um marsupial: “Viram um novo animal, como que monstruoso, que tinha corpo e focinho de raposa, a garupa e os pés de trás de macaco e os da frente quase como de homem, as orelhas como de morcego…”

Francamente, aquela malta estava a encher o rabo de cogumelos ao chegar na América do Sul, isso sim. Mas as descrições eram excepcionais. Tentar descrever algo sem referências é um dos pontos altos do processo criativo, acho eu.

Mas pera lá, Pero… não estou a julgar tuas cartas. Fizeste um trabalho incrível, mas tenho curiosidade sobre o que não disseste ao rei. Não necessariamente a Dom Manuel. “Fuck the King!”, como já disse a Hound em Game of Thrones. Tenho um interesse especial pelas coisas que as pessoas, especialmente tu, meu amigo português, não dizem. Não me refiro apenas às tuas ações ou posses, mas a ti mesmo… percebes? Duvido que percebas!

Na verdade, os portugueses em geral falam muito, descrevem muito o mundo ao seu redor, contam muitas histórias, relatam muitas memórias, expõem muito conhecimento e seu orgulho sobre sua própria cultura, mas não falam de verdade sobre si. Não falam do que sentem, das coisas invisíveis, das emoções, dos incômodos mais profundos. Refiro-me ao português comum, aquele com quem dividimos o momento do café na esplanada, com as várias formas de pedir café: cheio, curto, em chávena fria, escaldada, duplo, garoto, pingado, abatanado ou sem princípio.

Uma nota sobre costumes em Portugal: um brasileiro, a pedir um café, sem princípio, em chávena fria, talvez seja o auge na integração, ao meu ver. É no princípio do café que vem a maior concentração de cafeína. Ao colocar a chávena debaixo da bica apenas depois do fluxo inicial de café, o barista garante que o café que irá servir será mais fraco do que um café tirado por inteiro. Não é incrível?! Eu jamais chegaria nessa conclusão. Para mim um café sem princípio era um café sem valor algum, desprovido de carinho, amor, atenção e respeito. Um café a ser evitado, ao menos pela manhã.

Voltando à nossa questão sobre “os portugueses das esplanadas que não falam sobre o que sentem”, a não ser em determinadas circunstâncias, como no confessionário da igreja ou depois de muitos copos. Pero, isso indigna-me. Tu e a tua frota de homens malcheirosos, em vez de levarem castelos para o Brasil, sabes?, castelos, armaduras, cavaleiros, espadas, dragões, magos, orcs, levaram igrejas. Muitas igrejas… e a estranha ideia de moralidade, expiação, confessionário, e aquele monte de palavras que perpetuam até hoje da boca do povo: Jesus, salvação, culpa, expiação, pecado, certo e errado. E talvez isso “desajude” a forma como vocês, portugueses, se expressam, sem querer revelar o que realmente querem ou precisam dizer, ou da forma que seria saudável.

Um bom exemplo dessa moralidade é a figura de António Vieira, aquele padre jesuíta do século XVII. O senhor Vieira pregava sobre a moral e os valores cristãos, embora também lutasse pela justiça social, defendendo os direitos dos povos indígenas no Brasil colonial (mas daquele jeito, né?). As suas ideias sobre moralidade e expiação ecoam até hoje na cultura portuguesa, influenciando a forma como falam, muitas vezes sem querer dizer o que realmente sentem ou precisam dizer.

Tenho um amigo português que diz que serei excomungado por dizer essas coisas. Ele diz isso e ri às gargalhadas. No fundo, ele também não acredita nessas ideias, mas mantém o hábito cultural de usar essas palavras de cunho religioso, entre um copo de tinto, uma leve cobiça pela mulher do próximo, luxúrias e chouriços.

Ainda farei um texto chamado: “Luxúrias e Chouriços! Um ensaio sobre o desejo secreto dos portugueses”. Tal como em “Crime e Castigo”, de Fyodor Dostoevsky.

Lembrando também que “secreto” é uma peça de carne de porco que se esconde no interior do toucinho gordo. Esses portugueses… até os sentimentos mais profundos se manifestam à mesa.

Pero, pá!

Depois de alguns copos, tu tornas-te o meu melhor amigo, e vou abrir-te o coração. Sei que os portugueses têm uma tendência para a depressão, muitas vezes porque não aprendem a partilhar o que está dentro dos seus corações rosados. Sim, são rosados, apesar da camada de nicotina acumulada pelo excesso de cigarro. Eles sujam o coração com químicos e as ruas com beatas, ou bitucas, como dizemos no Brasil.

Eu já falei, eu já falei: Vocês têm que ir para o divã com alguma regularidade. Portugal parece o Brasil dos anos 80 e 90, quando as pessoas tinham vergonha de dizer que iam ao psicólogo. Preferem tomar pílulas às escondidas dos amigos e parentes. Porque psiquiatra e antidepressivos é porreiro, mas conversar com um profissional para resolver os problemas, isso é um grande “trinta e um”.

Vocês preferem manter um ar de gajos valentes, com aquele sotaque charmoso, que as vezes parece russo aos ouvidos de um brasileiro, enquanto escondem as lágrimas nos olhos, como se fossem os últimos heróis românticos de um filme noir, tipo Humphrey Bogart em Casablanca. É uma cena digna de um enredo de Miguel Esteves Cardoso, nos seus dias mais ácidos.

Mas, meu caro Pero, todos precisamos de uma boa conversa de vez em quando. E não com o barman, que não é pago para ouvir nossos dramas enquanto enche o copo de tinto, ou com aquele amigo que sempre diz “pá, deixa-te disso!” e muda de assunto. Precisamos falar com alguém que não vá responder com um “é a vida” e um dar de ombros.

Às vezes, pode faltar sinceridade à mesa, mas nas letras das músicas, não. Como na canção do Rui Veloso, “Não Há Estrelas no Céu”:

Não há estrelas no céu a dourar o meu caminho
Por mais amigos que tenha, sinto-me sempre sozinho
De que vale ter a chave de casa para entrar?
Ter uma nota no bolso p’ra cigarros e bilhar?

….e continua sarjeta abaixo…

Oh pá, letra triste do caneco! Já disse que faltam letras para mexer o quadril. Uma vez, falei para um amigo músico aqui da região sobre essa estranha obsessão dos tugas por uma cena down. É como se todos fossem personagens saídos de um filme existencialista, melancólicos e à beira de um colapso nervoso. É por isso que nas danceterias os DJs colocam músicas brasileiras e africanas, para que a malta possa dançar e esquecer suas neuras.

Pero, gosto de ti, mas agora vou dormir. Fica bem e bebe água, homem. Não podes viver só de vinho, é sério. Talvez tenha sido um pouco denso hoje, mas só não termino com uma piada porque odeio piadas.

Um grande abraço do teu amigo Paulistejano, meio paulistano, meio ribatejano.

Nasce em algum lugar na caótica São Paulo em 28 de Agosto de 1979 e por lá vive e estuda artes visuais em diversas escolas e ateliês. Virginiano e pirata, depois de dar muitas voltas pelo design, produção, estúdios e arte-educação, encontra na ilustração um caminho, e no mercado publicitário faz uma trajetória profissional. Chega em Portugal em 2018, se encanta por tudo e por todos e em V.N.Barquinha encontra seu espaço. Pelo desenho e pela fotografia faz amigos, cria afetos e desenvolve diálogos. Gosta de viajar pelas terras, pelas emoções e pelas idéias. Se interessa pelas impressões, mais que pelas conclusões. E por isso também se aventura na escrita. Porque na tentativa de desenhar e fotografar, nada parece suficiente. Enquanto estiver por essas terras, quer falar e escrever sobre o que é ser um brasileiro em Portugal, o que são essas muitas sensações de ser um estrangeiro e mostrar que nenhum lugar é pequeno quando as ideias e buscas são grandes.

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