Inspiradas nas primeiras impressões de Pero Vaz de Caminha ao chegar ao Brasil, em 1500, as cartas que o ilustrador brasileiro Maike Bispo está a publicar mensalmente no mediotejo.net pretendem ter “uma abordagem despretensiosa, divertida e reflexiva sobre as experiências de um brasileiro que acabou de chegar” ao interior de Portugal e “partilhar algumas vivências e reflexões sobre a vida em terras lusas”. A viver atualmente em Vila Nova da Barquinha, Maike Bispo, 44 anos, junta às suas ilustrações a construção de uma linguagem sem espartilhos:
“Pretendo mesclar o português de Portugal com o português do Brasil propositadamente, sendo atencioso com a gramática mas não com as formalidades de cada lugar. Nem pretendo fazer adaptações, pois estamos falando do mesmo idioma e das mesmas bases. Como diria José Saramago: ‘Não há uma língua portuguesa, há línguas em português’.”
Sobre o Humor Lusitano
Uma carta, dirigida a algum rei, sobre as primeiras impressões de Portugal.
Entre muitas coisas, Pero Vaz de Caminha foi um escrivão português, responsável por descrever as primeiras impressões desde a chegada ao Brasil, em 1500. Ele fez parte da frota de Pedro Álvares Cabral, nascendo no Porto e falecendo aos 50 anos, em 1500, em Calicute, Índia. Ele escreveu aquela carta muito famosa, intitulada “Carta a el-Rei Dom Manoel sobre o achamento do Brasil”, onde descreve as lindas manhãs em alto mar, numa caravela onde os homens faziam corridas nus, além das tediosas e repetidas piadas sobre a coroa portuguesa e os possíveis nomes de um novo mundo como: Índias, Fixolinhas, Badalhoca-lândia, Ilha do Piropo, Quinta do Manel, Índio a Brás, e por aí vai.
Pero, Pero, Grande Pero!
Outro dia, numa tasca em Vila Nova da Barquinha, um amigo confidenciou-me, em um tom sério, que sentia saudades da infância. Eu, às vezes, penso nessas nostalgias da infância e quase nunca compreendo. Penso na dependência que tínhamos dos adultos, no medo do escuro, na fragilidade diante das situações, de ser forçado a comer verduras e a fazer lição de casa. Alguma saudade? Até tenho, mas não a ponto de querer re-viver isto ou aquilo. Acho que há ali uma memória editada de conforto e segurança que não me convém.
Os portugueses às vezes são bastante insistentes na ideia do “antes era melhor”, ou “antigamente a malta era mais feliz”. É uma negação constante do presente. Ao mesmo tempo lembrou-me do que disse o escritor português Miguel Esteves Cardoso: a memória encarrega-se de depurar as coisas, esquece e exagera onde convém, alimentando as recordações felizes à custa das tristes. Sabes… embora eu compreenda, me irrita um bocado essa idealização do passado.
Continuando a história: juntamente com alguns queijos e enchidos, pedimos nosso primeiro copo de tinto, ao modo tradicional ribatejano, quando nos perguntam: “Tinto ou branco?” E respondemos: “Cheio!”
A moça que nos atendeu era muito séria e sisuda. Comentei isso com meu amigo, pois tenho o hábito de falar das moças. O universo feminino me interessa muito. Uma amiga brasileira, um pouco mais mística, diz que sou eu a explorar meu lado feminino. Claro que eu nem comentei essa parte com aquele meu amigo português, pois os homens aqui, principalmente os ribatejanos, não acreditam que tenhamos duas polaridades. Somos apenas homens, machos, X, com grandes tomates, falamos e validamos nossas ideias apenas com homens. As opiniões femininas são apenas um zumbido chato em nosso ouvido. Ou isso ou és um “paneleiro”.
Uma nota do pequeno léxico do português de Portugal: a primeira vez que surge com o significado de homossexual é em 1938, na obra de Alfredo Ary dos Santos, “Como Nascem, Como Vivem, Como Morrem os Criminosos”. O que restou foi o termo “paneleiro”, sinônimo de homossexual, de forma conotativa.
Após eu comentar da seriedade da moça, meu amigo disse-me: Sabes, a vida adulta é assim, não cai bem arriscar sorrisos despropositados e brincadeiras inadequadas com estranhos. Pode cair mal. Tu podes ser mal interpretado, as pessoas podem se ofender e toda aquela narrativa em tom europeu: não olhe, não incomode, não diga mais do que necessário, não perturbe, formalidades, formalidades, formalidades, até morrermos de depressão e solidão.
Lembrei-me que alguns portugueses, depois de falar algo em tom de brincadeira, na sequência, se justificam com um: “Desculpe!” ou um “Estava a brincar”, sem nem ao menos dar espaço para interpretações. Depois de tanta convivência com os ingleses, a ironia deveria estar mais naturalizada. Eu, como um típico brasileiro, fico bege ao ouvir essas justificativas.
Uma nota do pequeno léxico do português do Brasil: “Fico Bege” é uma expressão popular brasileira usada para expressar surpresa, espanto ou indignação diante de algo inusitado, chocante ou inesperado.
Pero, Pero, Grande Pero…
Brincar é a base de tudo. Ter humor é a base das nossas fantasias e buscas. Criar é um ato de amor e de humor. Como disse uma amiga pedagoga uma vez: “Brincar é algo sério!”
Mas, por um estranho e mal redigido contrato social, por conta de gerações que passaram por muitos traumas e dificuldades, algumas culturas, dentre elas a portuguesa, associam brincar à infância. Associam humor à falta de compromisso e associam seriedade à responsabilidade. Mas acho que mais vale ser envolvido que ser sério, não achas? Com envolvimento construímos tudo, incluímos todos. Um mundo assim, sério, parece um fardo, ou um Fado. Sem humor, ficas fechado em tuas convicções, em tuas limitações. Não navegas, nem exploras o mar de ideias.
Pero, pá! Depois de alguns copos, tu és meu amigo. Na verdade, tu és meu melhor amigo, e vou abrir-te o coração.
Brincar com o outro é uma ciência e um exercício, porque para isso surtir efeito e criar o “mood certo” para as diferentes situações existe um jeitinho. Por exemplo, ato de flertar, ou de jogar um piropo, ou uma cantada ou xavecar, seguem duas situações:
1 – Vamos pensar em um bar ou um ambiente festivo no Brasil: Tu és um homem solteiro e queres arriscar puxar conversa com aquela moça ali. Aquela da saia prata rodada. Tu chegas, tentas algo (sem ser desagradável, por favor), não és correspondido, recebes um fora e pronto. Em uma outra noite, tu vês a mesma moça (mas já com outra saia). Ela aproxima-se, cumprimenta-te e faz uma piada da outra noite em que ela deu-te um fora; todos riem. Em uma outra situação, vocês se cruzam, trocam piadas, até conversam um pouco mais. Ela pode virar tua amiga, uma conhecida de situações em comum, apresentar-te outra amiga ou até virar teu grande amor. Resultado: As possibilidades continuam abertas e tu tentas outra, noutro momento, sem stress.
2 – A mesma situação em Portugal: Tu és um homem solteiro e bem, queres arriscar conversa com aquela moça ali. Aquela da saia listrada. Tu chegas, tentas algo (sem ser desagradável, por favor), não és correspondido, recebes um fora e pronto. Em outra noite ela nem olha na tua cara. Se cruzas com ela em outro ambiente, haverá sempre um clima constrangedor. Parece que tu ofendeste a família dela. E para não passar um ar de maníaco e perseguidor, tu passas a não olhá-la e a fingir que ela não existe, pois ela está a fazer o mesmo sem nenhum aparente esforço. Resultado: É um trauma. Tu vais pensar 500 vezes antes de arriscar outra situação dessas. Parece mais seguro ficar a conversar entre homens, pelo jeito.
Percebeste a diferença? O ponto aqui é o humor, a leveza, ou a “Insustentável Leveza” como disse Milan Kundera naquele livro. Claro que a situação pode ser inversa nos dois países, dependendo das pessoas, mas a piada fica melhor ilustrada assim, com esses clássicos dessa capa cultural.
Pois bem, voltamos à noite com meu outro amigo na tasca. Alguns copos depois, está tarde e a conversa foi boa, a companhia também e por fim, dispensamos o café e pedimos a conta para a moça séria e sisuda. Ela se aproxima, eu olho a continha e digo com espanto: “Quarenta e oito euros?! Olha, eu merecia ao menos um abraço, ou um sorriso, já que abdiquei do cafezinho.”
Ela olha desconfiada, e eu acrescento: “Ok! Ao menos um sorriso, que custa pá?! Deves ter dentes de ouro para escondê-los assim.” Ela sorri sem querer devido à minha grande lata, cara de pau ou atrevimento. Ela diz a contragosto: “Satisfeito?” E eu respondo: “Já que fizeste essa gentileza, aproveite e tire uma selfie connosco, mas a sorrir!”
Ela consente. Tiramos uma selfie os três. Eu olho e digo: “Muito melhor contigo! Salvaste a foto. Ele e eu somos péssimos.” Ela sorri novamente, de forma mais espontânea, e agradece. Nós pagamos. Eu desenho um sorriso em um guardanapo e entrego a ela. Digo que é minha gorjeta: Sorriso se paga com sorriso. Ela sorri cordialmente e nos deseja uma boa noite.
Ao sair, eu olho para meu amigo e digo: “Tás a ver? Sempre dá para brincar, sem intenções, sem extensões, apenas por puro esporte, apenas para darmos mais um tom ao dia de alguém.” Ele traga o seu 454º cigarro (porque esses portugueses fumam mais que locomotivas a vapor) e dá-me um sorriso. Volto para casa com dois sorrisos no bolso. Saldo positivo!
Veja bem, Pero, é evidente que os portugueses possuem um ótimo senso de humor, não há necessidade de se defender. Contudo, sei que se prolongarmos esta conversa, mesmo você, um português cosmopolita, de mente aberta, pessoa amável e culta, começará a se justificar, a explicar-se como se eu tivesse proferido uma ofensa e não simplesmente uma observação para reflexão.
E depois de alguns copos, talvez até mesmo tu sejas tomado pelo espírito conservador, um tanto quanto chauvinista, malévolo, patriótico, enraizado nas tradições, temperado com muito azeite, alho e coentros, e solte um clássico: “Se não está satisfeito connosco, é só verificar o horário do próximo voo para sua terra, pois sou assim, meu pai era assim, e até meu tataravô que serviu na esquadra era assim. ‘Tenha juízo, não me venha com tangas. Vocês todos são da mesma corja, pá. Uma cambada de ingratos’. Deveriam ser mais reconhecidos por tudo o que temos feito para vos ajudar a evoluir… e por aí vai”.
E eu vou pensar: Raios! Porque fui falar…estou feito ao bife. E agora pá…aguentar esse bêbado…
Confesso que uma das frases finais que estão entre aspas retirei do programa “Herman Enciclopédia”, que foi um programa de humor da televisão portuguesa ao final dos anos 90, da RTP. O canal foi-me apresentado por um lisboeta super fixolas que conheci esses dias em uma dessas noites ótimas da capital portuguesa, ou da capital do reino, como os mais orgulhosos costumam dizer.
Pero, já sabes que amo os portugueses, mas temos realmente de conversar sobre umas coisas, pois se não ouvires isso de mim, vais ouvir de quem? Dos ingleses? Por que temos de dar ouvido a eles? Não sejas parvo!… Olha, mas agora vou dormir, ou como dizem aqui, vou sardinhar um pouco.
Fique bem e beba água, homem. Não podes viver de vinho, é sério!
Um grande abraço do seu amigo Paulistejano: meio paulistano, meio ribatejano.
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