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Ilustração de Maike Bispo (auto-retrato)

Pero, Pero, Grande Pero!

Dentre muitas coisas, Pero Vaz de Caminha foi um escrivão português, responsável por descrever as primeiras impressões desde a chegada ao Brasil, em 1500. Ele fez parte da frota de Pedro Álvares Cabral. Nasceu no Porto e faleceu aos 50 anos, em 1500, em Calicute, Índia.

Ele escreveu aquela carta muito famosa intitulada “Carta a el-Rei Dom Manoel sobre o achamento do Brasil”, onde ele descreve o que viu, suas impressões, os dias de tédio em alto mar e o porquê da caravela 5 ser mais divertida que a caravela 8 depois da meia noite.

Pelo que li na carta, ao chegar em terra, ele parecia bastante impressionado pela malta estar nua, tatuada, com piercings, e de haver tantas mulheres.

Imagino também que depois de tanto tempo a navegar com homens, mais do que terra à vista com palmeiras e sabiás – como diria o poeta maranhense Gonçalves Dias, na “Canção do Exílio” –, a imagem das mulheres foi o verdadeiro tesouro, principalmente por não usarem aquelas tantas etapas de tecido como usavam as mulheres em  Portugal. A conclusão ali era clara como a aguardente de medronho: as portuguesas eram muito mais burocráticas com relação às brasileiras, e a vida selvagem era muito melhor que a vida na pomposa corte.

Pero, eu sei, chegaste ali e fizeste seu trabalho. Eu percebo, prazo curto, noites mal dormidas e muita pressão. O rei D. Manuel I ansioso, sem entretenimento, sem mobile-game, sem Netflix, a querer descrições e a tentar perceber se aquele investimento económico tinha valido a pena. Se não tinha virado apenas um mochilão juvenil caro. Se era melhor ter gastado toda aquela gaita em algum cassino em Espanha, ali aos arredores de Madrid. 

Sei que na época haviam algo entre 1200 a 1500 gajos, em grande parte desagradáveis, em 13 caravelas mal cheirosas, a fazer as mesmas mil piadas enfadonhas por semanas e semanas a fio, sem wifi, sem mulher, sem porra nenhuma fora alguma esperança de dias melhores e com um mapa muito duvidoso, que tinha mais cara de uma piada da corte ou uma armadilha de outro navegador mal pago e vingativo. Treta, muita treta, mas nenhuma teta.

Eu, em seu lugar, ao chegar, teria me juntado aos indígenas, feito um pacto com os gajos da caravela 5, que é onde aconteciam as melhores festas, tacado fogo nas outras caravelas com os gajos mais chatos dentro, colocado a culpa nos espanhóis e, enquanto a guerra rolava, teria passado os últimos anos de reforma na praia, sem roupas, sem tretas, com mulheres (também sem roupas), chá de cogumelos, muito tempo ocioso, muito sol, a fumar erva com o pajé, caipirinha de frutas, músicas tribais. Teria sido uma infinita rave latino-americana naqueles loucos anos do século XV.

Eu sei meu amigo, tiveste pouco tempo para avaliar as questões, havia aquela lealdade à coroa, e tentaste fazer um trabalho o mais objetivo possível porque, né? “Trabalho é trabalho”, já dizia o personagem de um antigo seriado televisivo americano dos anos 90, “Anos Incríveis” (The Wonder Years).

Ao contrário de ti, eu cheguei aqui em terras lusas há 6 anos. Não pela costa, não pela borda como os antigos navegadores, mas pelo meio. Sim, no meio do país. Não por Lisboa, Porto, Funchal, Caiscais ou Portimão, mas pelo meio. Aterrissei no coração de Portugal, no Ribatejo, na encantadora Barquinha.

E depois de muitas histórias, grandes amizades, prazeres gastronômicos, cascatas de vinhos, festas populares de arromba, meu coração partido diversas vezes (e na sequência temperado com azeite, alhos e coentros e partilhado à mesa depois de uma saborosa sopa de peixe), sinto-me na obrigação de fazer uma descrição um pouco mais pessoal do que tu fizeste naqueles dias.

Pero, Pero, Grande Pero…

Aqui as mulheres não têm bigodes como dizem no Brasil, mas sim, são burocráticas, sabes? Podem usar menos camadas de tecidos que na sua época mas precisam de 500 cafés para oferecer-te um beijo na testa. Já os homens são mais bonitos do que imaginei mas também mais possessivos e com sua particular crença em um tipo de santa trindade: “Minha terra, minha vaca, minha mulher.”

Não existem árvores de bacalhau. Também os portugueses não levam as palavras tão ao pé da letra como costumamos fazer piadas em meu país. Às vezes acho que nós, brasileiros, temos um senso de interpretação mais abstrato, talvez equivocado, para não dizer alucinógeno.

E sim, fazer apostas e reclamar é um esporte em Portugal, porque nada vai dar certo e o resto já sabemos.

Pero, pá!

Depois de alguns copos, tu és meu amigo. Na verdade, tu és meu melhor amigo, e vou abrir-te o coração.

Às vezes acho que amo Portugal. Um amor que custou-me um olho, literalmente. O que faz-me enxergar as coisas por um ponto de vista muito ímpar, por assim dizer.

Tenho um afeto especial pelo Ribatejo, embora ensaie de ir para o Porto a viver de francesinhas e vinhos do Douro.

Também às vezes acho que não amo, que é apenas apego. Mas creio que aprendi a ser apegado, como os portugueses. Tenho muitas teorias sobre amor e apego mas deixaremos isso para outra carta.

Meu bom amigo Pero, queria falar mais, mas a conversa é demasiado longa e ainda teremos tempo para isso. Terei tempo e escreverei para ti com alguma regularidade. Quero escrever todas as minhas impressões e teorias sobre Portugal, as minhas vivências e reflexões.

Escreverei bastante sobre a terra onde vivo. Um lugar onde os homens são machos lusitanos mais valentes que toiros e as mulheres quando mal-humoradas dão mais coices que os cavalos.

Pero, fique bem e beba água, homem! Não pode viver de vinho, é sério.

Um grande abraço do seu amigo Paulistejano: meio paulistano, meio ribatejano.

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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