Ilustração de Maike Bispo

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Uma carta, dirigida a algum rei, sobre as primeiras impressões de Portugal.

Pero, Pero, Grande Pero!

Dentre muitas coisas, Pero Vaz de Caminha foi um escrivão português, responsável por descrever as primeiras impressões desde a chegada ao Brasil, em 1500. Ele fez parte da frota de Pedro Álvares Cabral, nascido no Porto, e morreu aos 50 anos, em Calicute, Índia.

Ele escreveu uma carta muito famosa, “Carta a el-Rei Dom Manuel sobre o achamento do Brasil”, onde descreve o que acreditava ser o “descobrimento das Índias”. Mas, no fim, o que ele achou não foi um território exótico com especiarias, mas sim índias, muitas mulheres, que pareciam ter saído de um Olimpo tropical. Tanto homens quanto mulheres, pareciam seres humanos melhorados, como estátuas gregas, todos com corpos impecavelmente definidos, morenos, cheirosos, com dentes mais brancos do que as velas das caravelas.

O lugar? Ah, um reino mágico onde criaturas de todo tipo coexistiam em harmonia. Uma terra de festa perpétua – sem vinho, mas felizes à sua maneira. Havia mais cor e brilho por lá do que na pintura “O Jardim das Delícias” de Hieronymus Bosch. Basicamente, era como descrever a Disney de Orlando, mas numa versão retro-colonial. 

Vocês, portugueses, já estavam muito à frente do seu tempo em termos de perceção, pá. Só faltou registar a ideia. Com um pouco mais de criatividade, até poderiam ter transformado a Península Ibérica em um grande parque temático. Talvez até aquela longa delonga do “Tratado das Tortilhas”, com Espanha, tivesse sido resolvida com menos drama e mais fantasia.

Sim, Pero… eu sei,  houve uma grande descoberta. Não foi apenas em termos de território (que outros já tinham mapeado, diga-se de passagem), mas o alcance de algo maior. Vocês portugueses, cansados e famintos, depois de 9 meses em alto-mar, a cheirarem mal e em meio a bets a bordo (apostas), chegaram aqui e ampliaram as fronteiras “à grande”. Discordamos da maneira, claro, mas admitimos: foi uma conquista. Mais que uma conquista de terras, foi uma superação, de ir além do que Portugal poderia ser. Uma ampliação do povo português.

Mas do decorrer do século XX, principalmente, nessa sua terra materna, onde sua querida mãe o alimentava com leite de bacalhau, a preocupação maior está mais em fechar fronteiras do que em ampliá-las. Sim, sim, eu sei. Vocês, grandes navegadores, a ir para lá e para cá, a levar e a trazer problemas, virulências, ideias, crenças, batatas, igrejas, roupas para cobrir nossas “vergonhas” e soluções civilizatórias, depois de tanto, tanto trabalho, e agora os novos portugueses lembram-se apenas de parte do objetivo, apenas da parte da conquista, a parte mais ególatra. Creio que quando ficamos velhos ficamos assim, a lembrar das partes que nos fazem parecer mais heróis que humanos. Ficamos sim, mais eficientes em esquecer o que não combina com a narrativa que inventamos, e da qual tentamos vender essa revisão para nossos netos, vizinhos e conhecidos da esplanada.

Recorda-te da tríade religiosa portuguesa “minha terra, minha vaca, minha mulher”? Atualmente existe também a versão “meu idioma, meu vinho, minha mulher”. Porque, claro, as mulheres continuam a ser “deles”. Mas não porque eles queiram apenas elas. O homem português, assim como o brasileiro, topa tudo, experimenta de tudo um pouco e assume o amor com quem lhe retribuir amor.

Já elas, são mais apegadas com o sabor da terra e são mais cautelosas. Quando se aventuram, é por pura curiosidade. Em grande parte, o sonho é que seus filhos sejam mais daqui, que falem “pá” antes de “papá”, que mantenham a tradição, sem brasileirices, e nem espanholadas. Franceses a depender do caso, italiano também não. Talvez suíços, ingleses ou canadenses (canadianos)… mas isso só se mantiverem o idioma deles. Se tentarem falar português, perde a química.

Uma senhora lisboeta uma vez tentou me explicar que não importa a nacionalidade, e sim a seriedade da pessoa. Ela disse: “Aprendi desde cedo que ‘muito riso, pouco ciso’.” E ali percebi que estávamos em mundos diferentes. No Brasil, alegria e leveza são parte essencial da vida, mas aqui em nossa terrinha (porque tu sabes que ela agora é minha, também), parece que algumas piadas precisam ser agendadas com uma certa antecedência, como nas Finanças ou na Segurança Social. Fazer o quê? Cada um com seu karma.

Ainda assim, amo as portuguesas. Preciso repetir isso a cada duas críticas seguidas, porque eles têm sentimentos e sei que se ofendem, e ficam furiosos, por vezes a babar. Mas percebam, os brasileiros também ficam raivosos e babam em seus momentos de fúria a cada par de críticas, mas não pedimos para ninguém voltar para lugar nenhum. A ver, não posso falar por todos porque sabes daquela teoria: “Todas as pessoas que conhecemos, não são todas as pessoas.”

Agora, curiosidades sobre o nosso idioma: Um dia, uma amiga convidou-me para ver uma peça no Teatro Virgínia, em Torres Novas, intitulada “Prestes a Acontecer”, escrita por Antonio Prestes, no séc. XVI. Curiosamente, a peça não fez uma adaptação para um português mais moderno ou mais acessível e manteve o mesmo português da época.

Visto hoje, o português de António Prestes parece do gajo que fez faculdade em latim e nunca mais superou a questão. Ele junta dramalhões de condomínio, no melhor do teatro vicentino (de Gil Vicente, aquele do “Auto da Barca do Inferno“), cuja a fonética flerta com o russo, pois parece ter mais consoantes do que vogais. A peça era gira mas beirava o impossível em acompanhar o texto (mesmo para os portugueses que fingiam perceber). É o tipo de português que alguns portugueses sonham em retomar para voltar às origens. Nesse contexto comprar um pão na padaria seria algo como: “Ó sapientíssima mestra das fornadas, cujo ofício exala o aroma celestial que nutre pobres e fidalgos, rogo-vos que me entregueis um pão de forma, redondo e alvo, tal qual a lua cheia em noite de festa, para que sacie meu ventre, que mais vazio se encontra que as virtudes de muitos deste reino!”

Assim como a peça de Prestes, que remete a uma tradição, o “português americano” (do Brasil) se molda continuamente às influências que recebe. O nosso idioma, meu e seu, é vivo, cheio de nuances, com sede de sotaques, ansioso por novos idiomas e dialetos e pela combinação de palavras para criar outras. A antropofagia, que incialmente era um ato de canibalismo praticado por algumas tribos, foi reinterpretado nos anos 1920 no Brasil pelo Movimento Antropofágico, liderado por Oswald de Andrade, que sugeriu a “devoração” criativa da cultura europeia pelos brasileiros, gerando algo novo e autêntico, sem subordinação colonial. Esse é o futuro do nosso idioma, que tem uma natureza fluida como os rios… como os rios de Portugal, pá!

Um português uma vez fez piada de que nós, brasileiros, temos verbo para tudo – tudo vira um verbo. Achei engraçado, e ele tinha razão. Nós falamos mesmo “Googlear”, “Maratonar”, “Printar”, “Stalkear”, “Photoshopar”, “Curtir”. É isso, somos mais inventivos, sem noção. Em Portugal, o idioma tende a conservar-se mais (mas bem menos do que vocês imaginam ou assumem), como as conservas de picles, nos potinhos. Mas sabemos que a partir daí vocês fazem também ótimos pratos, como o pica-pau, que eu adoro. É basicamente cubinhos de carne marinado num molho tão gostoso que o pão vira esponja de múltiplos sabores. É o tipo de petisco perfeito de bar, a base de alho, azeite, mostarda, picles, vinho branco e, às vezes, um toque de piri-piri (molho picante) para dar mais sabor. Comemos de palito, fingindo sermos uns gourmets.

Apesar de algumas desavenças, ajudaremos os portugueses a ir para o futuro. Um futuro onde neva no deserto, faz calor no Polo Norte e as previsões do tempo são feitas por polvos profetas, as últimas entidades inteligentes que restaram. Um futuro onde a malta só sairá de casa para caçar rolo de papel higiénico, que virou a nova moeda de troca. Mesmo assim, estaremos juntos, de mãos dadas, como uma só nação, prontos para superar com bom humor, até um ataque zumbi.

Pero, pá!

Depois de alguns copos, tu tornas-te o meu melhor amigo, e vou abrir-te o coração.
Pá, Man, Mano, Cara, Truta, Véi… tu percebes e sabes.

Após atravessar um oceano mágico, cheio de criaturas fantásticas, chegarem à Disney Latino-Americana, versão retro-colonial, com pessoas felizes, saudáveis e peladas, o que vocês fazem primeiro? Derrubaram uma árvore para erguer uma cruz, como se uma madeira fosse mais importante que outra, apenas pelo formato. Essa cena, inclusive, foi imortalizada por Vitor Meirelles na pintura ‘A Primeira Missa’.

E cá estamos, 500 anos depois, com histórias meio mal contadas. Aprendemos o vosso idioma, mas claro, com algumas adaptações ao longo do tempo. E ainda assim, por vezes, alguns portugueses insistem que não falamos português, mas sim ‘brasileiro’. Tás a ver?! Todo o trabalho que tiveste para nos ‘educar’, para nos ensinar que uma cruz valia mais do que uma árvore, e tudo mais. Levamos isso ao pé da letra e hoje queimamos nossas florestas inteiras, só para dar lugar a vacas e fábricas. Fomos bons alunos, tu tens de admitir.

E mesmo assim, mesmo assim, alguns insistem em dizer que falamos uma língua que nem existe. Até a Netflix não reconhece “brasileiro” como idioma! Pode? Se formos por essa lógica, teríamos 35 línguas só nas Américas: colombiano na Colômbia, mexicano no México, e por aí vai! Não achas que é complicar demais? Idioma não é propriedade de ninguém, Pero. 

O português, esse idioma que tanto nos une e me permite escrever essas cartas (que tu entendes perfeitamente, não se faça de parvo), não é uma herança material como a quinta da avó. Não pode ser delimitado em um território. Ele é a base dos nossos pensamentos e a forma como expressamos os nossos sentimentos. Minha mãe gastou muito dinheiro com meus livros escolares, desde que eu era um miúdo. Como vou explicar para ela que não falo português, mas sim ‘brasileiro’? Minha mãe é uma senhora de 83 anos, não me venha incomodar essa senhora com essas teorias, Pero. Além disso, português era das minhas matérias prediletas. O título estava ali, em caixa alta –PORTUGUÊS – nas capas de todos os livros didáticos, até meu último ano escolar. E continua, até hoje e até sempre, como título em todos os livros didáticos. Isso não vai mudar.

É um orgulho todo nosso, ele ser um dos 10 idiomas mais falados do planeta, e adivinha porquê? Porque os portugueses foram muito espertinhos em delimitar um território gigantesco com tantas diferenças e envolto de espanholadas. Unir esse território não pelos pastéis de nata, nem pelos bigodes, nem pelo Fado, e tão pouco pela melancolia, mas sim pelo idioma, foi um golpe de mestre.

Agora tu não vais deixar esse lendário ‘idioma brasileiro’ virar um dos 10 idiomas mais falados do mundo, enquanto  o nosso querido português torna-se um dialeto falado por um país ali na pontinha do continente europeu. Ou vais? Eu não vou permitir. Continuaremos famosos juntos. Estou contigo nessa, até o fim. Não deixarei o Brasil fazer pouco caso de Portugal. País tão fofo esse, pá! Falam essas coisas sem pé nem cabeça, mas são fofos demais. Não estou aqui apenas pela comida… quer dizer…

Esses “jovens de agora”, do século XX e XXI, ingratos, todos eles, Pero! Não respeitam os mais velhos do século XV, as conquistas, o legado que deixaste. Mas não te preocupes, que eu os ajudarei, mesmo que eles não queiram. Não se ajuda quem pede, se ajuda quem precisa! E nesse caso nosso português merece essa ajuda. Nosso idioma é internacional e não binacional, como o inglês e o espanhol, que começou num dado país de mesmo nome, e é falado por diversas pessoas em diferentes países, com todas as variantes que algo vivo permite, tipo vírus, sabes? A base continua a ser azeite, alho e coentros. O restante dos ingredientes, fica pela criatividade de cada cultura. Como comida japonesa no Brasil, em que colocam cream cheese ou banana no sushi… pode?

Enquanto tentam enterrar o nosso ‘idioma em movimento’, junto com a coroa, as cruzes, as torres, o picles e outras conservas, faremos emergir algo maior, mais expansivo e inclusivo. Uma mistura que transcende fronteiras. Parafraseando Amália Rodrigues, “nossa casa será portuguesa e brasileira, com certeza!”

E esse idioma vai atravessar a galáxia e manter o mesmo nome. Imagine só, em algum planeta distante como Kepler-452b, onde seres intergalácticos poderiam aprender a dizer ‘oxente’ com o sotaque carregado de um nordestino ou de um alentejano. Para além das estrelas, “é tudo nosso!”, como já se cantava no hip hop do Brasil.

Pero, gosto de ti, mas agora vou dormir. Fica bem e beba água, homem. Não podes viver só de vinho, é sério.

Um grande abraço do teu amigo Paulistejano, meio paulistano, meio ribatejano.

Nasce em algum lugar na caótica São Paulo em 28 de Agosto de 1979 e por lá vive e estuda artes visuais em diversas escolas e ateliês. Virginiano e pirata, depois de dar muitas voltas pelo design, produção, estúdios e arte-educação, encontra na ilustração um caminho, e no mercado publicitário faz uma trajetória profissional. Chega em Portugal em 2018, se encanta por tudo e por todos e em V.N.Barquinha encontra seu espaço. Pelo desenho e pela fotografia faz amigos, cria afetos e desenvolve diálogos. Gosta de viajar pelas terras, pelas emoções e pelas idéias. Se interessa pelas impressões, mais que pelas conclusões. E por isso também se aventura na escrita. Porque na tentativa de desenhar e fotografar, nada parece suficiente. Enquanto estiver por essas terras, quer falar e escrever sobre o que é ser um brasileiro em Portugal, o que são essas muitas sensações de ser um estrangeiro e mostrar que nenhum lugar é pequeno quando as ideias e buscas são grandes.

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2 Comments

  1. Adorei o texto, eu que estudei em latim!
    Parabéns, Maike Bispo, que não conheço, mas que me deixaste rendida e desperta para outras publicações.
    A criatividade é uma qualidade superior, sem dúvida!
    Acresce, ainda, o facto de escolheres o Ribatejo (meu berço) para viveres!

    1. Hey Graça! Que bom que gostaste. Estou a achar super divertido fazer as cartas.
      Mas quero que em algum momento, o Senhor Pero, me responda =)
      Eu ja fiz algumas aulas de latin, quando tinha vinte e poucos anos. Adorei! Foi uma pena não ter levado adiante.

      Um beijo grande!

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