Central termoeléctrica "As Pontes", na Galiza, propriedade da Endesa. Créditos: José Antonio Cartelle

O primeiro “passo atrás” na decisão de encerrar definitivamente a maior central termoeléctrica espanhola foi dado precisamente há um ano, numa altura em que os preços da energia atingiam valores recorde no mercado ibérico – no início desse ano situavam-se nos 32 euros por MegaWatt/hora, tendo subido em outubro para os 281 euros. Em março deste ano, o MWh atingiu o valor histórico de 542,78 euros.

A central “As Pontes”, na Galiza, construída entre 1972 e 1976, tinha cessado atividade em julho e iniciado o processo de desmantelamento de duas das suas quatro torres, com uma capacidade de produção de 350 MW cada uma, quando a Endesa recebeu um pedido “urgente” do governo espanhol para reativar parcialmente a produção a carvão. A medida, considerada “transitória e excepcional”, visava “garantir as necessidades da rede elétrica nacional”, colocando apenas por alguns meses em suspenso os planos de transição energética em curso.

A central voltou a encerrar na primavera deste ano, mas o seu destino ficou num limbo com o início, nessa mesma altura, da invasão russa na Ucrânia. Depois de vários meses parada, a central de “As Pontes” recebeu em setembro uma licença especial de produção (que poderá vigorar até 2028), para as duas torres que estão em condições de funcionar, com uma potência combinada de 700 MW. A ministra Teresa Ribera apresentou duas justificações para a decisão de reactivar “As Pontes”: a situação de instabilidade nos mercados devido à continuidade da guerra na Ucrânia e a grande procura de energia por parte de França… e de Portugal, que agravou a sua dependência do mercado espanhol, tendo este ano importado o valor mais elevado desde 1990.

A Endesa voltou a comprar matéria-prima e em outubro começaram a chegar ao porto de Ferrol, na Galiza, vários barcos carregados com 160 mil toneladas de carvão comprados na Indonésia, transportados depois por um exército de camiões pelas estradas da região, até aos depósitos da central.

A empresa espanhola – que detinha 44% da central termoeléctrica do Pego, em Abrantes, e venceu o concurso público para a conversão da produção a carvão para energias renováveis, após o encerramento determinado pelo governo em novembro do ano passado –, informa em comunicado que colocou novamente 60 técnicos dos seus quadros nesta unidade. A imprensa galega adianta que várias empresas subcontratadas estão a recrutar trabalhadores até junho de 2023.

E em Portugal?

Além de Espanha, também a Alemanha já reabriu centrais desativadas e a Áustria decidiu em junho voltar à produção a carvão, que tinha abandonado totalmente há dois anos. Portugal é, assim, um dos três países sem centrais a carvão no espaço europeu, a par da Bélgica e da Suécia.

Logo após o início da guerra na Ucrânia, a Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG) e a Rede Elétrica Nacional (REN) fizeram estudos prévios para a eventualidade de ser necessário reabrir as centrais do Pego e de Sines, para responder a uma “situação de emergência” no mercado de abastecimento do sistema elétrico nacional.

A Termoelétrica do Pego, a última central a carvão a operar no país, tinha encerrado há menos de seis meses e, segundo noticiou nessa altura o Expresso, o consórcio gestor informou a DGEG e a REN que não tinha sido iniciada qualquer operação de desmantelamento, pelo que a central poderia voltar a funcionar e colocar ao serviço do sistema elétrico os seus 628 megawatts de potência, se o governo assim o decidisse.

Até ao momento não houve qualquer pedido nesse sentido e os trabalhos de desmantelamento estão a avançar na calendarização prevista.  O governo português não prevê voltar atrás na decisão, como tem reafirmado o ministro do Ambiente e Ação Climática, Duarte Cordeiro.

O agravar da situação de seca extrema em todo o país condicionou também a produção hidroelétrica e de energias renováveis, tendo por isso o governo apostado no reforço das centrais elétricas a gás – como a unidade da Tejo Energia que se mantém em funcionamento no Pego –, e que são menos poluentes que o carvão.

Esta semana, em entrevista à Agência Lusa, Duarte Cordeiro recordou que a decisão de encerrar as centrais a carvão significou para o país uma redução de 21% das emissões poluentes na produção de eletricidade. A propósito da 27.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP27), que junta representantes de quase 200 países a partir de 7 de novembro em Sharm el-Sheikh, no Egito, e na qual vai participar, o ministro defendeu que “é preciso manter a ambição do Acordo de Paris” sobre redução de emissões de gases com efeito de estufa e é urgente acelerar políticas – e não dar passos atrás. A União Europeia “tem de dar o exemplo”, diz, e “puxar outros países” para assumirem compromissos firmes na luta contra o aquecimento global.

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Patrícia Fonseca

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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3 Comentários

  1. Enquanto não faltar água e luz em Lisboa tudo vai bem, o pior ainda está por vir. Nunca se pode entender as decisões políticas mas o facto é que são todos sem exceção uns teimosos e que pensam que as decisões que tomam são as mais benéficas, não para o País mas sim para os do custome. Realmente Portugal anda a contra ciclo, ora queremos ter a qualidade de vida actual e sem prejuízo neste caso do Planeta, isso seria o melhor de 2 mundos. Ainda não é possível ter a capacidade, há que esperar para um desenvolvimento da Produção versus demanda sem prejuízos ambiental e de qualidade de vida. Há soluções a serem desenvolvidas mas vão demorar, não se pode ter um sistema que demorou 50 anos a desenvolver e depois desenvolver outro em 5 anos. Pura utopia!. Mas vamos aguardar pode ser que ainda este Inverno falte Luz em Lisboa.

  2. Quando Portugal contribui com 0,4% de carbonização em relação à Europa percentagem sem expressão e olhando ao que estamos a passar com a inflação , é triste ver os medíocres do governo condicionarem a qualidade de vida do povo (econômica e social), insistirem em decisões estupidamente lesivas, representamos a figura do D Quixote na Europa .

  3. Quando a preocupação no ranking verde se sobrepoe à seguranca de a abastecimento. A opcao deve ser sempre a seguranca.

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