“O azeite é um produto muito fácil de falsificar”. O alerta foi deixado por Rita Carvalheiro, da ASAE – Autoridade de Segurança Alimentar e Económica, no Encontro Ibérico do Azeite, na sessão que decorre na sexta-feira, 21 de março, em Mouriscas (Abrantes).
O Encontro Ibérico do Azeite decorre até domingo, pretendendo mobilizar produtores e olivicultores para valorizar a importância histórica de produção do azeite no território e no desenvolvimento económico e social do País. O objetivo passa por aumentar a produção de azeite e responder aos desafios da atualidade.

Perante um auditório completo na Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Abrantes, Rita Carvalheiro deixou algumas preocupações, que se contam entre os desafios que o setor do azeite tem de enfrentar, particularmente com a denominação de origem e com as práticas fraudulentas no azeite.
Como é sabido, a missão da ASAE passa pela fiscalização e prevenção, ou seja do cumprimento da legislação reguladora do exercício das atividades económicas nos setores alimentar e não alimentar. No setor do azeite, fiscaliza a indústria, os embaladores, os distribuidores e a venda, incluindo o e-commerce, sendo uma realidade a comercialização de azeite adulterado nas redes sociais mas também nas feiras e mercados, referiu a responsável, ao falar das práticas fraudulentas.
Deu conta da ASAE encontrar no mercado mistura com azeite refinado, vendido como azeite virgem, mistura com óleo de bagaço, vendido como azeite virgem, mistura de azeite com outros óleos vegetais (óleo de soja, milho, girassol), azeite lampante misturado com refinados provenientes de outras fontes (soja, avelã, etc) e vendido como azeite e até mistura de óleos vegetais com corantes (clorofila e beta-carotenos) e vendido como azeite virgem.
Indicou algumas operações realizadas pela ASAE como a Operação Olive, na qual foram apreendidos 16.500 litros de óleo alimentar rotulado como azeite virgem, no valor de 82.500 euros. Ou ainda a Operação Clorofila, inspeção realizada pela Unidade Regional do Centro e na qual foram apreendidos 31.970 litros de óleo alimentar, com adição de um corante, rotulado como azeite virgem. Ou ainda a Operação Oleum, na qual óleo alimentar passava por azeite, tendo sido apreendidos 50 mil litros de óleo alimentar, no valor de 77 mil euros.
Em 2024, no setor do azeite, a ASAE instaurou 84 processos crime e 51 processos contra ordenacionais.

Apesar dos desafios, designadamente de concorrência com outros países, o setor do azeite está bem mas recomenda-se que a aposta passe pelo olival tradicional, de sequeiro, e não tanto pelo olival intensivo. Não só porque em Portugal são 65 as variedades de azeitona de origem nacional, indicou Nuno Rodrigues, do Instituto Politécnico de Bragança, explicando à plateia como tornar as variedades portuguesas economicamente rentáveis, mas essencialmente devido às alterações climáticas, como referiu Francisco Mondragão Rodrigues, do Instituto Politécnico de Portalegre.
Pelos estudos realizados no Alentejo, segundo o palestrante, “há condições para manter o olival”, isto porque o aumento das temperaturas, “não só das máximas mas também das médias” aliado a uma menor precipitação, ou seja, um clima em Portugal “cada vez mais quente e seco” vai “diminuir os recursos hídricos”.
Como tal, “os olivais intensivos, de regadio, vão sofrer muito mais” do que os olivais tradicionais, explica.
Afinal, a cultura mediterrânica está adaptada à falta de água e às temperaturas elevadas, daí o olival tradicional ser maioritariamente de sequeiro, sendo a planta, morfologicamente (folha e raiz), adaptada a anos de seca e temperaturas elevadas.

Francisco Rodrigues garante que a oliveira “está preparada para a secura e temperaturas elevadas. Está adaptada mas está afetada”, nota. Ou seja, apesar da adaptação à mudança do clima, como consequências foram apontadas a alteração do ciclo (início, duração, etc), pelo aumento das temperaturas; antecipação da floração, com problemas se for demasiado cedo, quando ainda pode haver frio; menos floração em anos ou locais sem inverno frio, por falta de horas de frio; diminuição das produções nos olivais de sequeiro, em todas as regiões; poderão existir maiores problemas de pragas (traça e mosca) e surgimento de novas doenças; sendo que o processo de maturação e de acumulação de azeite poderá ser afetado.
Para diminuir o impacto das alterações climáticas, a resposta passa por adotar várias soluções, em simultâneo, nomeadamente introduzir a rega quando possível, regas de apoio nos olivais de sequeiro, em momentos estratégicos do ciclo da oliveira; variedades adaptadas às condições ambientais da região; utilizar inovação e tecnologia para melhorar a eficiência da utilização dos fatores de produção; reduzir custos para compensar as quebras de rendimentos, por menores produções; adaptar/modificar as técnicas culturais (poda, manutenção do solo, etc); e monitorizar as pragas e doenças, para tratar só quando necessário e no momento oportuno.
Porém, a conclusão de Francisco Mondragão Rodrigues é que “vale a pena continuar a apostar no olival” uma vez que “o olival vai ser das culturas menos impactadas pelas alterações climáticas”.

Todavia, Nuno Rodrigues deu conta de um abandono do olival tradicional quer pela baixa produção quer pela dificuldade na colheita da azeitona. Em Portugal, como referido, contam-se 65 variedades nativas, como a galega, a madural, a verdeal transmontana ou a negrinha do freixo. Com esse abandono, nota, há uma perda de “riqueza genética e paisagística”.
Atualmente o olival em Portugal caracteriza-se por olival tradicional em 37,2%, olival intensivo 33,2% e olival de alta densidade 29,6%.
Para tornar o olival economicamente rentável é necessário, diz Nuno Rodrigues, valorizar o tradicional. Desde logo “conhecer as variedades que temos, caracterizá-las, avaliar o seu potencial, promover ações de divulgação, haver uma valorização cultural e turística e o desenvolvimento de produtos de valor acrescentado”, defendeu.
Daí o Instituto Politécnico de Bragança ter um projeto para tentar encontrar novas variedades, contando já com 500 prospeções, às quais fazem caracterização genética e perfil sensorial, no fundo na procura de “atributos diferentes”. Estuda também “a melhor embalagem para prevenir a degradação do azeite e manter as propriedades do azeite mais tempo”, explicou.
Por exemplo, em Vimioso e Bragança querem valorizar a oliveira santulhana tradicionalmente desprezada, o Douro quer azeite com Denominação de Origem Protegida, sendo que as novas estratégias de valorização, defende o especialista, passa por “educar a experiência do consumidor, destacar a origem e a tradição, inovar na comercialização, implementar melhorias no processo de qualidade e haver um posicionamento em mercados premium“.
Outra aposta passa pelos itinerários turísticos para valorizar o olival e também pela criação de um catálogo de oliveiras centenárias no Vale do Coa, tendo já sido desenvolvidos produtos inovadores a partir das oliveiras centenárias.




Este primeiro dia do Encontro Ibérico do Azeite contou ainda no simpósio com João Nuno Alcaravela da Associação de Agricultores de Abrantes, entidade que integra a organização do evento.
A sua apresentação prendeu-se essencialmente com os apoios aos agricultores, sendo certo que na produção integrada os níveis de apoio ao olival são superiores para a cultura em regadio do que para a cultura em sequeiro. O montante para o 1º escalão é de 246 euros por hectare para o regadio enquanto que para o sequeiro é de 172 euros. Se a agricultura for biológica, o apoio é de 600 euros por hectare para o regadio no primeiro escalão, enquanto que para o sequeiro o apoio é de 290 euros. Também Miguel Morujo da Confederação dos Agricultores de Portugal deu conta das ajudas anuais e de investimento ao setor.
Já Fernando Martínez Román do Instituto de La Grasa (Espanha) foi ao simpósio falar sobre as inovações tecnológicas na elaboração do azeite virgem, enquanto Paula Bico da Direção Geral da Alimentação e Veterinária abordou o controlo e contaminantes do azeite designadamente da avaliação do risco dos MOAH (hidrocarbonetos aromáticos de óleos minerais) e dos MOSH (hidrocarbonetos saturados de óleos minerais) nos alimentos, explicando que enquanto os primeiros podem atuar como substâncias cancerígenas genotóxicas, os segundos são suscetíveis de se acumular nos tecidos humanos e podem produzir efeitos adversos no fígado.
Paula Bico avançou que “brevemente vão ser fixados mais limites aos MOAH” com legislação a ser publicada em junho de 2025, segundo a qual o azeite terá um limite de dois miligramas por quilograma.
A manhã terminou com a apresentação de Ana Gonçalves da COLAB, um laboratório colaborativo para serviços de inovação orientado para dados.

O Simpósio do Azeite contou, na abertura, com a presença do presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos, da diretora da EPDRA, Marly Serras, e do vice-presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Centro, Vasco Estrela.
Referindo Abrantes como “plataforma logística” no Ribatejo que se encontra entre o Alentejo e as Beiras, Manuel Jorge Valamatos disse que o concelho “mantém viva a tradição da olivicultura através da apanha da azeitona, de múltiplos lagares de azeite e indústria associada”.
Já Marly Serras disse que “hoje mais do que nunca” a inovação e a sustentabilidade “são essenciais” no setor do azeite e lembrou que na quinta-feira, 20 de março, a EPDRA celebrou 35 anos de existência.
Vasco Estrela, por seu lado, notou ter o setor do azeite potencialidades mas também desafios e pediu à plateia que se “inquiete”, para cada um dos presentes não ter “problemas em dizer aquilo que vos vai na alma” no sentido de remover “os obstáculos” na olivicultura.
“Temos de cuidar do nosso território, daquilo que nos rodeia e temos de perceber hoje, num mundo completamente diferente, para que o território continue a criar riqueza como criou no passado”.
“O mercado do azeite está em crescendo, com o aumento da procura a levar à expansão das áreas de olival em Abrantes e no país, em detrimento de outras culturas, e o grande desafio é responder a uma oportunidade de desenvolvimento e afirmação do setor, aumentando a produção, mantendo padrões de qualidade elevados, sendo a partilha de experiências e de conhecimento fundamental para responder aos desafios da atualidade”, disse à Lusa João Nuno Alcaravela, da Associação de Agricultores de Abrantes, entidade que integra a organização do evento.
No âmbito do Encontro, onde participaram produtores de ambos os lados da fronteira, no simpósio técnico de sexta-feira foram apresentadas as novidades da fileira a vários níveis, como o tecnológico e o legislativo, visões estratégicas sobre a internacionalização do setor agroalimentar, ou ainda o futuro da fileira, com a nova Política Agrícola Comum (PAC).
No simpósio, que decorreu na Escola Profissional de Desenvolvimento Rural, em Mouriscas, foram ainda debatidas questões ligadas ao olival e ao azeite, como ajudas anuais e de investimento ao setor, como tornar as variedades portugueses economicamente rentáveis, alterações climáticas, controlo e contaminantes do azeite, e o papel da ASAE na fiscalização do mercado do azeite.
O certame, com várias actividades paralelas, incluiu ainda o denominado Fórum do Azeite, este sábado, no Mercado Municipal, estando centrado nas várias vertentes de utilização do azeite, desde a gastronomia, passando pela saúde, cosmética e turismo, sendo dirigido à comunidade escolar e público em geral.
No domingo, dia 23 de março, realizar-se-á uma caminhada em Mouriscas, dinamizada pelo projeto Apadrinha uma Oliveira e ACROM – Associação Cultural das Rotas de Mouriscas, com ponto de partida na milenar Oliveira do Mouchão e passagem por diversos olivais.
Em paralelo, estará a funcionar um espaço gastronómico com provas de receitas com azeite e, em simultâneo, nos restaurantes aderentes do concelho de Abrantes, decorre o denominado Festival Sabores do Tejo com Azeite.
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