Créditos: Arno Smit / Unsplash

Há dois anos que por aqui ando a escrevinhar sobre o azul do céu da minha aldeia, as saudades da minha infância e as pessoas simples e fascinantes do campo, e há dois anos que me prometo, a cada quinze dias, escrever sobre outras coisas. Não tem corrido bem, dirão os leitores mais atentos.

Fosse este espaço um blog com uma caixa de comentários e todas as semanas auscultaria quem me lê, não importa se muitos ou poucos, para saber se também eles viajam comigo até às suas infâncias de cada vez que escrevo sobre a minha, ou se a minha aldeia lhes faz lembrar a deles, qualquer que sejam as geografias, as cores e os cheiros das suas.

Por mais que tente, e prometa a mim própria fazer diferente no texto seguinte, é ali que regresso sempre, aos anos mais livres e felizes da minha existência, o lugar que já ganhou coordenadas da internet e aonde já ninguém chega perdido. A minha infância tem nome de aldeia.

Quando eu era pequena não gostava de viver numa aldeia perdida, onde todos os mais velhos desconfiavam dos forasteiros: o qué que vossemecê quer aqui?, e até dos mais pequenos, em calhando: e tu, és de quem?

Quando eu era pequena a minha aldeia tinha uma igreja, duas tabernas, uma escola e quatro fontes. Tinha apenas uma rua alcatroada e algumas azinhagas apertadas, ora carreiros de poeira no verão ora trilhos de lama no inverno, e duas ribeiras com peixes e cágados, uma delas com poços fundos e gordos, onde várias gerações engoliram pirulitos monumentais e, claro, aprenderam a nadar.

Quando eu era pequena a minha aldeia tinha duas lojas, um barbeiro, um carteiro, um ferrador, um pastor, vários agricultores, pedreiros e resineiros. Tinha casas pequenas onde cabiam famílias grandes e tinha, então como agora, um espírito de união como não vejo em mais lugar algum.

Quando eu era pequena a minha aldeia tinha também uma costureira famosa, mas cujo maior mérito era, pelo menos aos meus olhos, o de ser generosa. Lembro-me muitas vezes da sala onde ela trabalhava, do cheiro dos tecidos, dos moldes e das revistas da moda, e do deslumbramento que tudo aquilo exercia em mim. Quantas vezes lá terei eu passado com a minha melhor amiga para ir buscar mais uma sacada com as sobras de tecidos para ambos vestirmos, daí a nada, as poucas bonecas que ambas tínhamos.

Quando eu era pequena havia na minha aldeia vários casebres onde todas as crianças podiam brincar livremente até que algum adulto os fosse enxotar de lá para fora, ameaçando com castigos e sovas de cinto. Uma dessas ruínas tinha uma nespereira lá dentro, onde eu, a Sónia e o Tiago nos pendurávamos repetida e inconscientemente até esfolarmos joelhos e cotovelos.

Quando eu era pequena os mais velhos podiam não reconhecer os de fora, mas não precisavam de critérios científicos para saber que já era primavera, bastava-lhes olhar à volta e descobrirem delicados pontinhos brancos e rosa a despontarem nos galhos nus das amendoeiras. Estava derrotado o inverno.

Quando eu era pequena não podia adivinhar que é lá, na minha aldeia, que mora o céu mais azul e mais estrelado que há no mundo e muito menos que as amendoeiras em flor são prenúncio de um novo recomeço. Descobri-o hoje.

Voltaremos a ter primaveras felizes.

Berta Silva Lopes

Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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