Reunião de Câmara de VN Barquinha, 9 de fevereiro de 2022. Imagem: mediotejo.net

A Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha deliberou por unanimidade na última sessão do executivo camarário não aceitar a transferência de competências para a autarquia nas áreas da Ação Social e Saúde para 2022. O presidente de Câmara admite que, com os acordos propostos, o município fica prejudicado financeiramente, uma vez que os valores de referência tidos em conta remontam a 2018 e não correspondem à realidade atual. A proposta de não-aceitação segue agora para decisão final da Assembleia Municipal.

“A lei obriga a que a Câmara aceite. A lei não obriga a que o presidente assine”, assumiu Fernando Freire, presidente do Município da Barquinha, na apresentação da proposta de não-aceitação da transferência de competências para 2022 no âmbito da ação social e da saúde. Aos jornalistas, o autarca acrescenta ainda que “enquanto não me demonstrarem que aquilo que eu recebo chega para pagar as minhas dívidas para com a saúde, eu não posso aceitar um acordo deste tipo”.

Em causa está “um conjunto de situações bastante indefinidas e por esclarecer” que impedem, justifica o autarca, “uma adequada, racional e equilibrada transferência de competências”, nomeadamente na área da saúde, diploma cujas autarquias terão de efetivar a sua aceitação até ao 31 de março de 2022, período findo o qual as transferências serão concretizadas para os Municípios que ainda não aceitaram, a 1 de abril de 2022.

Entre as situações por esclarecer na saúde, estão questões como: a gestão de serviços de apoio logístico (custos dos serviços de limpeza, apoio de vigilância e segurança, fornecimento de energia, viaturas a transferir e respetivos encargos, encargos com deslocações de profissionais para prestação de cuidados de saúde, seguros de edifícios, etc); gestão de recursos humanos inseridos na carreira de assistente operacional e sua avaliação (cômputo salarial com referência a 2018 quando houve alterações significativas, por exemplo no salário mínimo); a transferência da gestão dos edifícios onde funcionam os centros de saúde e polos de saúde; o modo de gestão; a questão da monitorização; e ainda os “prazos limitativos para abertura de concursos e adjudicação por parte dos municípios”.

Em suma, Fernando Freire refere que a não previsão de critérios para avaliação e supressão de necessidade dos recursos técnicos e humano, o desconhecimento dos eventuais acertos ou devolução dos valores apurados pela comissão de acompanhamento, a não definição dos rácios para recursos humanos, “hoje claramente inferiores para satisfazer as necessidades essenciais ao funcionamento adequado dos serviços”, bem como o envio de mapas por parte da tutela que não estão atualizados, imprevisibilidades às quais se junta a “não aprovação do Orçamento Geral do Estado antes de 01-04-2022, entendo que não existem as condições para a assinatura dos contratos e a aceitação das competências nas áreas da Saúde e Ação Social”.

ÁUDIO | Fernando Freire aos jornalistas sobre não-aceitação das competências

Admitindo que esta questão irá ser abordada ao nível da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo – havendo outros autarcas que também já assumiram a “pressão” para aceitar as transferência de competências sem os envelopes financeiros necessários, negando assinar os acordos propostos pelo Governo, como foi o caso do presidente da Câmara de Mação – Fernando Freire defende que não existem “as condições objetivas para a gente assumir estas competências até porque objetivamente ficamos prejudicados em termos financeiros”.

“Faz todo o sentido que não aceite estas competências. Ou seja, aceitar aceito por obrigação legal mas não deixo de reivindicar com toda a legitimidade aquilo que é um direito que tenho em termos de envelope financeiro.(…) Por exemplo, ao nível das remunerações que foram calculadas no ano de 2018 quando estamos no ano de 2022 – estamos a falar de valores significativos. E o presidente da Câmara não está autorizado a fazer maus negócios”, disse o edil à comunicação social.

“Eu não quero receber nem um tostão a mais nem um euro a menos. Quero só saber que no ano de 2022 gastei 1000 euros e recebi 1000 euros. De certeza absoluta que com estes 1000 euros que recebi faço melhor gestão do que a administração central, de longe e de perto. Mas se gastei 1000 euros também tenho de receber 1000 euros”, assume.

Aos jornalistas, o presidente da Câmara Municipal de Vila Nova da Barquinha deu ainda o exemplo da Educação, área na qual a autarquia já assumiu a descentralização de competências, na qual as contas não estão a bater certo e que tal não pode vir a acontecer em todos os processos de transferências, sob pena de prejuízos significativos para a autarquia.

Aprovada por unanimidade a não-aceitação da transferência de competências na Saúde e Ação Social para 2022, em sede de executivo camarário a vereadora do PSD, Paula Gomes da Silva, mostrou-se do lado da maioria socialista, defendendo que, não obstante ser a favor deste processo, os municípios devem assumir as competências “com razoabilidade e que sejam uma mais-valia para o município e não o contrário, que não seja um peso para o Município em termos financeiros”.

“As coisas têm que ser apresentadas de uma maneira a que transferência dos valores seja aquela que é real, ou então, concordo consigo”, disse, dirigindo-se a Fernando Freire.

A proposta de não-aceitação destas competências segue agora para deliberação da Assembleia Municipal de Vila Nova da Barquinha.


Discover more from Médio Tejo

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Abrantina com uma costela maçaense, rumou a Lisboa para se formar em Jornalismo. Foi aí que descobriu a rádio e a magia de contar histórias ao ouvido. Acredita que com mais compreensão, abraços e chocolate o mundo seria um lugar mais feliz.

Deixe um comentário

Leave a Reply