No S. João a sardinha pinga no pão: o ditado é antigo e certeiro. Deduzo que tenha sido inventado por um português, provavelmente de barriga cheia, embora em vários outros países do Mediterrâneo também se comam sardinhas e o pão seja razoável. O que não quer dizer grande coisa, na verdade.
Para mim, as sardinhas são ótimas no prato, acompanhadas de batata cozida ou pimentos assados, mas são deliciosamente superiores sobre uma fatia de pão de mistura, devidamente ensopada com a célebre gordura da dita. Tudo para devorar à mão, claro – e sempre. Se alguém quiser explicar-me as vantagens de usar faca e garfo eu escuto, mas desconfio que vai ser difícil fazer-me mudar de ideias.
Ainda assim, aceito de boa vontade todas as sugestões para fazer desaparecer o cheiro que fica nas mãos. Já experimentei várias técnicas, todas sem sucesso, à exceção do vinho tinto. Mesmo que não seja grande coisa, continuo a achar um desperdício despejá-lo sobre os dedos. Sai mais barato esfregá-las com limão, como fazem na minha aldeia.
Tempos houve em que a sardinha era o único peixe que lá chegava, muito provavelmente porque era fácil de conservar (em sal) e assim viajava do mar até ao Interior, de burro ou de carroça, para ser vendido porta a porta pelo saudoso sardinheiro de Mouriscas.
Tempos houve em que a sardinha era o único peixe que chegava, muito provavelmente porque era fácil de conservar (em sal) e assim viajava do mar até ao interior, de burro ou de carroça, para ser vendido porta a porta pelo saudoso sardinheiro de Mouriscas.
Peixe do Tejo havia muito e todo o ano, trazido pelo famoso Bailarico, que aparecia quando calhava para vender o que o rio lhe dava, fazendo-se anunciar pela aldeia acima apregoando peixe fresco e barato.
Geralmente vinha acompanhado, mas certo dia chegou só, manco como sempre, e desta vez também amputado por dentro. Deixara a barraca junto ao rio para vir abrigar-se num palheiro esconso, onde viveu largos meses, sempre sozinho, apenas cansaço e solidão sobre a enxerga de palha. A sua vida dava um livro. Não sei se com final feliz.
Pescadores já podem voltar a capturar sardinhas, leio no Observador. Até ao final de julho, a frota portuguesa poderá recolher 7.181 toneladas de sardinha, que corresponde a 66,5% das 10.799 toneladas que serão repartidas entre Portugal e Espanha, percebo ao ler a notícia. Ó bendita novidade.
Podemos começar a preparar o assador, portanto, e os estrangeiros que descansem, não vão faltar sardines nas festas populares de Lisboa. Muita sardinha ali se devora por estes dias. E ainda bem porque, ao que sei, só (nos) faz bem. À saúde e à economia portuguesa, pois.
Até agosto, é tomar-lhe o gosto.
