André Ventura, líder do Chega, em arruada na Sertã. Foto: Lusa

Aconteceram eleições!  Os partidos tradicionais minoritários de esquerda, quase desapareceram. O CDS desapareceu de todo e, o PAN, enformando uma ecologia de pormenores (algumas vezes macarrónicos) afundou-se profundamente.

Como tive oportunidade de afirmar recentemente, o eleitorado português é hoje uma cópia da sociedade em que vivemos, particularmente sensível a organismos políticos centrados em causas e lideranças populistas que as configurem. Programas, listas, heranças históricas ou ideologias são, nos nossos dias, em grande parte, aspetos irrelevantes.

Surpresa, só a dimensão da votação socialista que, beneficiando (entre outras coisas) de um voto útil que as sondagens catalisaram, acabou por alcançar a ambicionada maioria absoluta.

A votação do Chega era previsível. O que não a transforma em algo menos preocupante. Bem pelo contrário! Afinal, a autodenominada “Nova Direita” é feita de causas velhas. Bafientas até! De recorrentes xenofobias, recuperados marialvismos e, de uma forma geral, da discriminação e menorização do outro, seja ela étnica, cultural ou social.

E, ainda, de um populismo (feito de carisma e pantomina) que, à semelhança das lides tauromáquicas que defende (e transforma, em arte, a capacidade de tortura), transforma, igualmente, em arte, a capacidade de enganar os tolos e ingénuos.

Os socialistas bem podem comemorar, efusivamente, a maioria absoluta alcançada salientando a estabilidade cuja necessidade os tempos pandémicos, afinal, potenciam.

Tenho, contudo, dúvidas que tais eventuais vantagens (as maiorias, afinal, não acarretam só mais valias, bem longe disso) compensem a explosão eleitoral de novas direitas e a eleição de um grupo parlamentar de extrema-direita, tão inquietante em termos imediatos como especialmente preocupante em termos futuros. Algo que, de uma forma ou de outra, podemos agradecer a António Costa e aos seus conhecidos instintos políticos.

Afinal, das três forças que não chegaram a acordo nas negociações sobre o Orçamento e afins e provocaram, deste modo, as eleições (sabendo os perigos que as mesmas podiam originar) só o PS possuía, à partida, substanciais e, grupais, expectativas positivas. 

Investigador universitário na área da cultura tradicional, especialmente no que respeita à Antropologia do Simbólico e à problemática do Sagrado e suas representações festivas, tem-se debruçado especialmente sobre práticas tradicionais comunitárias culturais e cultuais, nomeadamente no que concerne à religiosidade popular e suas relações sincréticas com raízes ancestrais e influências mutacionais modernas. É Licenciado em Antropologia Social, Mestre em Sociologia da Educação e Doutorado em Antropologia Cultural pelo ISCSP da Universidade Técnica de Lisboa.

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