Aconteceram eleições! Os partidos tradicionais minoritários de esquerda, quase desapareceram. O CDS desapareceu de todo e, o PAN, enformando uma ecologia de pormenores (algumas vezes macarrónicos) afundou-se profundamente.
Como tive oportunidade de afirmar recentemente, o eleitorado português é hoje uma cópia da sociedade em que vivemos, particularmente sensível a organismos políticos centrados em causas e lideranças populistas que as configurem. Programas, listas, heranças históricas ou ideologias são, nos nossos dias, em grande parte, aspetos irrelevantes.
Surpresa, só a dimensão da votação socialista que, beneficiando (entre outras coisas) de um voto útil que as sondagens catalisaram, acabou por alcançar a ambicionada maioria absoluta.
A votação do Chega era previsível. O que não a transforma em algo menos preocupante. Bem pelo contrário! Afinal, a autodenominada “Nova Direita” é feita de causas velhas. Bafientas até! De recorrentes xenofobias, recuperados marialvismos e, de uma forma geral, da discriminação e menorização do outro, seja ela étnica, cultural ou social.
E, ainda, de um populismo (feito de carisma e pantomina) que, à semelhança das lides tauromáquicas que defende (e transforma, em arte, a capacidade de tortura), transforma, igualmente, em arte, a capacidade de enganar os tolos e ingénuos.
Os socialistas bem podem comemorar, efusivamente, a maioria absoluta alcançada salientando a estabilidade cuja necessidade os tempos pandémicos, afinal, potenciam.
Tenho, contudo, dúvidas que tais eventuais vantagens (as maiorias, afinal, não acarretam só mais valias, bem longe disso) compensem a explosão eleitoral de novas direitas e a eleição de um grupo parlamentar de extrema-direita, tão inquietante em termos imediatos como especialmente preocupante em termos futuros. Algo que, de uma forma ou de outra, podemos agradecer a António Costa e aos seus conhecidos instintos políticos.
Afinal, das três forças que não chegaram a acordo nas negociações sobre o Orçamento e afins e provocaram, deste modo, as eleições (sabendo os perigos que as mesmas podiam originar) só o PS possuía, à partida, substanciais e, grupais, expectativas positivas.
