Movimento Defender Árgea e Aldeias Vizinhas. Foto: DR

Mas chega sempre uma hora na História em que aquele que ousa dizer que dois e dois são quatro é punido com a morte. O professor sabe-o bem. E a questão não é saber qual é a recompensa ou o castigo que espera este raciocínio. A questão é saber se dois e dois são ou não quatro.
– A. Camus in “A Peste

A 21 de maio de 2026, a informação sobre uma Unidade de Produção de Biometano (UPB) projetada para Árgea começou a circular na aldeia. Um post da União de Freguesias de Olaia e Paço, no Facebook, tornou pública a posição desfavorável quanto à localização. Foi assim, sem aviso prévio, sem editais afixados, que a população foi surpreendida pelo que se estava a preparar à porta das suas casas. Tal como as más notícias, chegou tarde, sem aviso e sem rosto.

A 25 de maio nasceu o Movimento Defender Árgea e Aldeias Vizinhas, um coletivo sem sede e sem filiação política. Com ele, a petição online “Defender Árgea (Torres Novas) – Não à Unidade de Biometano da Gasdaterra junto à aldeia”. Dois dias depois, o Movimento criou a sua página de Facebook Defender Árgea e Aldeias Vizinhas, que passaria a centralizar todas as informações e as notícias da mobilização.

Com a mesma clareza da posição de “não ser contra as energias renováveis”, o Movimento esteve sempre contra a localização proposta para a UPB. É que entre aceitar a transição energética e aceitar processar cerca de cem mil toneladas de resíduos por ano, a duzentos metros das janelas da aldeia, vai um mundo. Era o mundo onde o Movimento se preparava para entrar.

O que se seguiu não foi uma explosão de indignação coletiva esgotada em desabafos. Foi outra coisa mais difícil e exigente: a decisão de perceber. Na consulta pública que decorria, silenciosamente, já há uma semana, constavam 26 documentos que totalizavam mais de 1300 páginas. Foi preciso ler tudo. Ler e compreender, dia após dia, os aspetos técnicos, os impactes ambientais, as implicações na qualidade do ar e da água, os riscos para o aquífero, a forma de medição da propagação do ruído e das vibrações, as consequências do trânsito constante de veículos pesados, a desvalorização das habitações, os riscos para a saúde pública; até a proximidade da UPB à conduta de água potável de Castelo de Bode, que abastece milhões de pessoas.

Juntaram-se anónimos ilustres que partilharam e abraçaram a tarefa. Pessoas da aldeia e de fora dela, filhos e netos que regressaram ao que era seu porque para além de todo o trabalho imediato, as consequências de uma instalação da UPB, naquele local, estariam lá por trinta anos.

Muitos pensavam que Árgea era uma aldeia de velhos. Gente demasiado exaurida pelo tempo e sem conseguir dar corpo a uma vontade comum. Enganaram-se.

A 8 de Junho, cerca de 150 pessoas encheram a sala da SIRMA em Árgea numa reunião da Comissão de Utentes do Médio Tejo com a população. Daí nasceu um segundo abaixo-assinado contra a localização. Dias depois, surgia a Comissão de Moradores de Árgea. Três estruturas distintas com gente diversa e a mesma recusa indivisa: ali, não!

A 9 de junho, o Presidente da Câmara Municipal de Torres Novas (CMTN) e o Presidente da União de Freguesia de Olaia e Paço deslocaram-se à SIRMA para se reunir com a população e ouvi-la. O alinhamento com a posição das pessoas ficou bem expresso nas palavras do Presidente da CMTN, que declarou: “O Concelho de Torres Novas não tem aptidão para receber uma unidade deste tipo.”

Durante o trabalho de esclarecimento, foram chegando, um a um, apoios que ninguém esperava tão cedo nem de forma tão clara. Enquanto se lia e se explicava, foi-se percebendo que uma inquietação nascida à porta de poucas casas começava a ser reconhecida longe delas.

A QUERCUS juntou-se à contestação a 25 de Junho apontando falhas metodológicas concretas no Estudo de Impacte Ambiental dos promotores. Seguiram-se a ZERO, 30POR1Linha, o BASTA e o SOS Observatório Ambiental do Rio Tejo. Cada uma com a sua leitura e/ou contribuição técnica ou de divulgação. Todos com o mesmo alerta. Árgea e as aldeias vizinhas estavam no mesmo lugar, mas já não falavam sozinhas. 

A 30 de junho, as Assembleias Municipais de Torres Novas e do Entroncamento aprovaram, por unanimidade, moções de oposição à localização da UPB. Pela primeira vez, diferenças partidárias ficaram para trás. Todas as forças representadas disseram não àquela localização.

E a 13 de julho, oito Presidentes de Câmaras da Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo juntaram a sua assinatura ao abaixo assinado da Comissão de Utentes. A 15 de julho, o relatório de Consulta Pública confirmava o que sempre se sentiu fora das abstrações técnicas na redação inofensiva do projeto: das 429 participações recebidas, 414 eram contra a UPB em Árgea.

Quando 414 vozes, quatro associações ambientalistas, oito presidentes de Câmara e duas assembleias municipais atravessam diferenças políticas para dizer praticamente a mesma coisa, talvez já não estejamos apenas perante uma coleção de protestos. Estamos perante uma comunidade a dizer onde começa a sua casa.

A luta de Árgea também se fez ouvir semana após semana. Vários moradores deram entrevistas à SIC e ao programa Portugal em Rede da RTP. A aldeia chegou à televisão nacional. Outros falaram nas rádios locais: Rádio Torres Novas FM, Rádio Cidade de Tomar, Rádio Clube Aribatejo, Rádio Cidade do Entroncamento. 

Outros ainda escreveram artigos de opinião em jornais da região, esclarecendo que há uma diferença essencial entre apresentar um projeto com uma etiqueta de milhões e responder às perguntas fundamentais que esse projeto levanta, algumas aparentemente incómodas, porque, encerrada a consulta pública, continuam ainda hoje sem resposta.

A 20 de julho, no Público, o jornalista de investigação José António Cerejo, na reportagem “Torres Novas fecha as portas ao biometano em Árgea” e “Uma aldeia que não se verga” , alertava para aprovações ilegais e em contra-relógio realizadas pelo anterior executivo camarário e relatava a resistência popular contra um projeto que até ali fora mantido no segredo dos gabinetes.

Foi também  a 20 de julho que, no terreno, cerca de 200 pessoas vindas de Árgea, das aldeias vizinhas e da cidade do Entroncamento encheram o largo da Igreja numa vigília noturna. Dois dias depois a Câmara Municipal declarou à CCDR-LVT que o projeto “não tem sequer enquadramento no Plano Diretor Municipal” em vigor.

A 29 de julho, cidadãos questionaram a CCDR-LVT sobre o prazo previsto para a Declaração de Impacte Ambiental. A resposta, até hoje, não chegou.

Nas últimas semanas a luta não abrandou. A 2 de agosto, a Câmara Municipal do Entroncamento enviou formalmente à APA a moção aprovada em junho. A 6 de agosto, a União das Freguesias de Torres Novas (São Pedro), Lapas e Ribeira Branca enviou à APA e à CCDR-LVT um requerimento para que a sua posição institucional de solidariedade com a população de Árgea fosse junta ao processo e ponderada antes da emissão da Declaração de Impacte Ambiental. Nesse mesmo dia, a petição do Movimento chegou à Assembleia da República, onde foi registada com o n.º 210/XVII/1 e remetida à Comissão de Ambiente e Energia. Nos dias seguintes, mais moradores deram a cara em artigos de opinião no jornal Abarca, no Torrejano, no Riachense, e no Mediotejo.net. E a imprensa local e regional esteve onde sempre esteve: próxima, atenta e a dar voz a uma participação pública esclarecida e organizada.

A 18 e 19 de agosto, a Comissão de Utentes voltou a reunir-se com as populações do Entroncamento e Torres Novas. 

100 dias depois, as pessoas de Árgea e das aldeias vizinhas já conhecem o relatório resumo da Agência Portuguesa do Ambiente. E perceberam que ele não reflete o que disseram. Muitas das questões técnicas, dos erros grosseiros, das omissões e das falhas apontadas nas participações não constam desse relatório.

O que eram documentos técnicos de linguagem densa, o que foi ignorado ou literalmente deixado em branco, é agora matéria conhecida e é a partir desse conhecimento que a população exigiu, por escrito, que as omissões fossem integradas nos documentos que a Comissão de Avaliação terá que analisar antes de emitir a Declaração de Impacte Ambiental.

Porque 100 dias depois nada é o mesmo. 100 dias depois, já não é o receio dos que foram vistos como “simples” que aproxima. Nem basta dizer que é Verde e que está alinhadocom planos estratégicos ou repetir que “é bom” porque já existe e se houver queixas logo se vê.

Agora há conhecimento. E é esse o sentido do progresso: o conhecimento construído por todos. E agora de todos. E talvez seja isso, acima de tudo, o que mudou nestes 100 dias.

Aquilo que parecia ser o receio de alguns tornou-se o caso de todos. Não há um heroísmo especial em ler um projeto, confrontar documentos, apontar o que falta e exigir que os factos sejam tratados como factos. Como em Camus, há momentos em que a tarefa mais simples se torna também a mais necessária: demonstrar que dois e dois são quatro, quando há quem queira que o resultado seja outro.

Fundadora do movimento cívico "Defender Árgea e Aldeias Vizinhas"

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