Começa hoje a 88ª Feira do Livro de Lisboa. Quase nove décadas de história, é obra. Uma data feita de milhares de obras, na verdade, qual festa que se renova a cada ano juntando escritores e leitores, editores independentes e grandes grupos editoriais, verdadeiros bestsellers e livros de menor expressão comercial.
Há quem passe um dia inteiro deambulando entre o jardim e as muitas barraquinhas, os que chegam já depois do jantar para as promoções da Hora H, aqueles que percorrem religiosamente todas as filas – coisa para estafar qualquer um – e os que, de lista na mão, sabem de antemão onde encontrar os títulos que procuram.
As grandes novidades editoriais lado a lado com as velhinhas edições dos alfarrabistas, escritores consagrados e autores mais ou menos anónimos, chancelas carregadas de história e outras sem grande notoriedade, apresentações de livros, sessões de autógrafos, workshops, palestras, concertos, o Parque Eduardo VII tem espaço para tudo e para todos.
São três semanas intensas, não apenas para quem trabalha com livros, ou tem na leitura um prazer supremo, mas também para quem aproveita estas três semanas para outros negócios. Os churros e as farturas são um clássico mas nos últimos anos multiplicaram-se as barraquinhas de street food: bifanas, pão com chouriço, hot dogs, wraps, opções vegan, quiosques de gelados, mini cafetarias com os famosos pastéis de natas e a célebre ginginha de Óbidos. E o relvado ali ao lado a convidar para um piquenique.
Os mais pequenos deliciam-se a abraçar as mascotes que saltam das páginas dos livros para a vida real, a colecionar balões, a emoldurar sorrisos junto dos seus heróis literários. Porque os livros, esses sim, continuam a ser o grande chamariz. Os leitores podem folheá-los, cheirá-los, ler as primeiras páginas, começar ali mesmo a leitura que se segue.
Também assim era há quase 40 anos quando estacionava no centro da minha aldeia a Biblioteca Itinerante da Fundação Calouste Gulbenkian. O Largo da Festa transformava-se numa espécie de centro do mundo com tantos mundos dentro. Todos podiam tocar, folhear e levar livros para casa gratuitamente. A emblemática carrinha cor-de-vinho voltaria daí a quinze dias para que pudéssemos trocar os livros lidos – mais do que uma vez, no meu caso – por novas histórias. As quartas-feiras eram por isso dias especiais em certas semanas.
Talvez tenha sido nessa altura, e por viver numa aldeia pequena, que nasceu em mim a paixão pelos livros. Mais tarde, o meu pai tornou-se sócio do Círculo de Leitores e os livros, escolhidos num catálogo, eram recebidos em casa. Todo um mundo novo, portanto. Hoje, eu e ele partilhamos algumas estantes, constantemente desarrumadas e para sempre incompletas, conversamos sobre os livros que já lemos, sobre os autores novos que descobrimos, sobre o mundo mágico que se esconde nas páginas de cada livro.
Não sei de onde vem o gosto do meu pai pela leitura. Tirando livros religiosos, creio que não se lia em casa dos meus avós nem dos meus bisavós, gente de parcos recursos que consideraria certamente um livro um luxo dispensável. Sei, todavia, que a paixão do meu pai pela literatura nasceu antes mesmo de eu ter nascido. E isso porque foi das páginas de um romance, que o meu pai lia na altura, que o meu nome foi escolhido. Está tudo nos livros.
