Maria Helena Duarte Ferreira no Museu MDF, em Tramagal.

Maria Helena Duarte Ferreira morreu este domingo, 16 de julho, na sua casa, em Lisboa. Tinha 96 anos. O seu corpo vai estar na segunda-feira na Igreja de Santa Joana Princesa, onde será rezada uma missa às 21h00. Na terça-feira de manhã seguirá viagem para o Tramagal, onde haverá uma missa ao meio-dia, realizando-se em seguida o cortejo fúnebre a pé, até ao cemitério da vila, onde será sepultada no jazigo da família.

Maria Helena Duarte Ferreira era a última sobrevivente dos descendentes de Manuel Duarte Ferreira, filho do industrial do séc. XIX Eduardo Duarte Ferreira, que viria a revolucionar a indústria metalúrgica no nosso país. Foi o seu pai que administrou a Metalúrgica Duarte Ferreira entre o final dos anos 1920 e o início dos anos 1960, um período marcante no desenvolvimento e internacionalização da fábrica situada em Tramagal, no concelho de Abrantes.

Tal como a irmã mais velha, Maria Rosa, e o irmão mais novo, Rui, Maria Helena nasceu no Tramagal e cresceu numa casa em frente à fábrica. Ao fim de semana, o pai fazia “vista grossa” e deixava-os criar ali um gigante parque de diversões, a conduzir as vagonetes que os trabalhadores usavam para transportar o material entre as secções.

O irmão Carlos Duarte Ferreira (1940-2023), 12 anos mais novo, alegrou outras memórias da sua vida, mais tarde, sobretudo depois do casamento de ambos. Morreu há precisamente um mês, e foi o último dos Duarte Ferreira na administração da MDF, já no pós-25 de Abril, sucedendo ao irmão Rui Duarte Ferreira (1930-2017), o engenheiro que liderou a transição da MDF nos anos 1960 e firmou uma parceria com a Berliet, iniciando a construção dos milhares de camiões militares que fizeram história na Guerra Colonial.

Maria Helena Duarte Ferreira, junto ao Porche onde viajava com o seu marido, Octávio, nos anos 80 / DR

Filha de Manuel Cordeiro Duarte Ferreira e de Maria de Magalhães Basto, Maria Helena casou com o seu primo direito, Octávio Duarte Ferreira, e juntos tiveram sete filhos: Eduardo, Pedro, Paulo, Maria, Miguel, Francisco e Clara. Lamentavelmente, morreu no dia de aniversário do seu filho Paulo.

Seguindo o exemplo da sua mãe, Maria Basto, apoiou inúmeras iniciativas culturais e sociais no Tramagal, e oferecia bolsas de estudo aos melhores alunos da antiga escola secundária local, que tem o nome do seu marido. Até 2021, o posto da Repsol (antiga Shell, inaugurada nos anos 60) permanecia registado por “Maria Helena Duarte Ferreira & Filhos Lda”. Durante mais de 50 anos, a família não retirou dali qualquer lucro – os proveitos eram entregues à Freguesia de Tramagal.

Manteve assim vivo o legado do seu avô que, desde o início do século passado, quis sempre que a par do crescimento da fábrica fossem melhorando as condições de vida dos trabalhadores (criou, por exemplo, a primeira Caixa de Previdência do país, em 1923).

Maria Helena tinha 19 anos quando Eduardo Duarte Ferreira morreu e, por isso, era uma das familiares que melhor o recordava até aos nossos dias, e quem mais contribuiu para a biografia “Nas Asas de uma Borboleta” (Patrícia Fonseca, Ed. Página Seguinte, 2006). Recordava-o como pouco falador, mas “com um fino sentido de humor e palavras sempre oportunas”. Como “um homem simples, invariavelmente vestido de preto, com a corrente que lhe prendia o relógio atravessando o colete, e chapéu de chuva na mão”.

A poesia era uma das suas grandes paixões, e sobre o avô Eduardo escreveu:

Um ferreiro vivendo do seu braço
Rasgou na terra que o vira nascer
Com o seu arado um profundo traço…
E a nossa Borboleta fez nascer.

Dá-lhe alma e corpo, fá-la sonho e aço
E, como criador dum novo ser,
Ao projectá-la no tempo e no espaço
Nela o encontra quem o quiser ver.

Numa nota pessoal, permitam-me que recorde as muitas tardes que passámos juntas na sua casa, no bairro da Estrela, onde me recebeu sempre com um chá digno de princesas. Com uma memória prodigiosa, o seu apoio foi fundamental na recolha de informação para escrever a biografia do seu avô. Na minha secretária permanecerá pousada a borboleta de lápis-lazuli que me ofereceu, na minha memória ficará sempre o seu olhar terno e exemplo de generosidade.

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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