Carlos Duarte Ferreira. Fotografia: mediotejo.net

Carlos Duarte Ferreira, o mais novo dos quatro netos do “velho” Eduardo, fundador da Metalúrgica Duarte Ferreira em Tramagal, Abrantes, morreu este sábado, 17 de junho, em Lisboa, no hospital onde se encontrava internado há alguns dias, na sequência de uma doença oncológica. Tinha 82 anos.

O velório decorre a partir das 18h30 de segunda-feira, dia 19, na Igreja do Campo Grande, em Lisboa, realizando-se uma missa às 22 horas. Na terça-feira volta a haver missa às 10h00, seguindo o seu corpo depois para o Tramagal, onde será sepultado no jazigo da família, durante a tarde. Ainda não são conhecidos mais detalhes sobre as cerimónias fúnebres no Tramagal, apenas que não deverá realizar-se missa mas que, antes de seguir para o cemitério da vila, haverá uma passagem simbólica pelo Mirante, monumento de homenagem ao seu avô – onde esteve pela última vez no passado 1º de Maio.

Cerimónias do 1º de Maio no Tramagal (2023). Foto: mediotejo.net

Carlos Duarte Ferreira era o filho mais novo de Manuel Cordeiro Duarte Ferreira e Maria Bastos Duarte Ferreira, e o único dos quatro irmãos que não nasceu no Tramagal, mas em Lisboa, em outubro de 1940. Com a sua morte, depois de Rosa e Rui já terem também falecido, sobrevive apenas a irmã mais velha, Maria Helena Duarte Ferreira, com 96 anos.

Casado com Leonor Duarte Ferreira, teve duas filhas, Teresa e Ana, e nove netos – a sua grande paixão, a par dos carros clássicos e de corrida.

Administrador da Metalúrgica Duarte Ferreira no pós-25 de Abril, depois da desintervenção do Estado, em 1980 conseguiu reativar a linha de montagem de camiões (criada em 1963 para construir os míticos Berliet-Tramagal). Primeiro, com a montagem de 700 Ebros, que o seu amigo Fernando Garrido precisava de entregar rapidamente ao Exército; Logo depois, negociou um contrato com a Univex (representante  em Portugal da Mitsubishi), para a montagem de camiões civis para o mercado nacional.

“Tomando conhecimento que o Exército ia lançar um novo concurso para camiões militares pesados, e tendo em conta a nossa experiência nesta matéria e as provas dadas, resolvemos conceber e apresentar novo camião”, explicou em entrevista para uma revista especial editada no 50º aniversário da construção da linha de montagem no Tramagal. “Entretanto, a Berliet tinha sido comprada pela Renault. Fiz os primeiros contactos com Paris, seguiram-se negociações intensas mas conseguimos firmar um acordo, com a garantia de exportação mundial do carro pela Renault Véhicules Industriels, integrado na sua gama de camiões militares.”

Inspirado no Renault TR M 9000 (também conhecido como Berliet GBD), seria um projeto de raiz e não uma mera evolução do Berliet GBA, que saiu do Tramagal para as três frentes dos últimos anos da guerra colonial. O novo modelo teria, desta vez, apenas o nome Tramagal. “Nem Berliet-Tramagal, nem Renault-Tramagal, foi um ponto contratual”, contou Carlos Duarte Ferreira.

Com o acordo assinado, o gabinete de estudos da MDF deitou mãos à obra e, em poucos meses, estava pronto para ser testado o novo camião, que ele recordava como “um belíssimo carro”. Foi testado nas mais árduas condições e “em todo o terreno era um espanto!”

O Jornal do Exército assinalava que a experiência da MDF em viaturas militares se traduziu num camião concebido “segundo a ótica do utilizador, neste caso as Forças Armadas Portuguesas, devidamente enquadradas na NATO”, e que o sucesso do Tramagal Turbo “constituiria um precioso meio de exportação”, que poderia ser explorado com vista à “resolução da crise económica” do País.

No mesmo sentido, o general Ramalho Eanes teceu rasgados elogios ao TT, que chegou a conduzir no Tramagal, na noite de 31 de dezembro de 1981. A passagem de ano do então Presidente da República foi passada na Fundição, junto dos trabalhadores do turno da noite.

O general Ramalho Eanes foi experimentar o novo camião no Tramagal, em 1981. Créditos: DR

Uma semana antes da visita presidencial, a administração da MDF recebeu a informação de que o Exército iria preferir outro modelo. A Presidência foi avisada mas, ainda assim, manteve o programa. “Naquela passagem de ano, o general Eanes disse-me que ia fazer um despacho para a Chefia das Forças Armadas, chamando a atenção para o assunto e a importância do nosso camião. E assim fez, eu li o despacho”, garantiu Carlos Duarte Ferreira.

Meses depois, o chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, Melo Egídio, acompanhado por oficiais responsáveis de vários departamentos militares, deslocou-se ao Tramagal, onde voltaram a chover elogios ao camião e à MDF: “Acredito perfeitamente nas possibilidades desta grande empresa e creio firmemente também que as Forças Armadas estão na disponibilidade de com ela colaborar no sentido de desenvolvermos este protótipo e o projetarmos para fora do país”.

O  camião escolhido, no entanto, acabou por ser o holandês DAF… e o Tramagal Turbo não foi além do protótipo que tanto tinha impressionado os militares.

“Houve outros interesses envolvidos… nunca soube o que realmente aconteceu”, lamentava Carlos Duarte Ferreira. Sem baixar os braços, ainda tentou dar nova vida ao projeto. “Resolvemos aproveitar o chassis do Tramagal-Turbo e fazer um carro pesado para os bombeiros, com enormes aptidões para todo o terreno, para combate aos fogos florestais”. Mas, apesar da visita ao Tramagal do então Ministro da Administração Interna, Ângelo Correia, que ali garantiu a compra de vários camiões, e apesar da intervenção do primeiro-ministro, Francisco Pinto Balsemão, nem um só camião foi vendido.

Sem encomendas, o projeto tornou-se inviável. Carlos Duarte Ferreira nunca conseguiu apaziguar essa mágoa. Até porque, acreditava, ganhando aquele concurso militar, “a história da MDF teria sido outra”.

Sou diretora do jornal mediotejo.net, diretora editorial da Médio Tejo Edições e da chancela de livros Perspectiva. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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