O presidente da Junta de Freguesia de Tramagal, António José Carvalho (MIFT), defendeu na Assembleia Municipal de Abrantes que a comemoração dos 40 anos da elevação da localidade a vila deve marcar uma mudança na forma como o município olha para o Tramagal, considerando que existe uma “dívida histórica” resultante de décadas de subinvestimento público.
A intervenção política foi feita na última reunião da Assembleia Municipal de Abrantes, a poucos dias de se assinalarem, esta sexta-feira, dia 03 de julho, os 40 anos da aprovação, por unanimidade, pela Assembleia da República, da elevação do Tramagal à categoria de vila.
António José Carvalho recordou que a decisão constituiu um reconhecimento da importância da localidade e dos seus habitantes, lembrando que a resolução parlamentar homenageava “os seus laboriosos habitantes que nunca regatearam sacrifícios em prol da sua terra e do seu engrandecimento” e reconhecia a relevância do Tramagal no sistema urbano nacional.
O autarca enquadrou ainda esse momento histórico no contexto económico vivido então pela freguesia, afirmando que a elevação a vila ocorreu “num dos períodos mais difíceis” da sua história, marcado pela crise industrial e pelos problemas de salários em atraso que afetavam muitas famílias.
“Há 40 anos, a elevação a vila foi um sinal de esperança e um apelo à resiliência local”, afirmou.

Na sua intervenção, António José Carvalho considerou que, apesar das dificuldades, “a economia tramagalense recompôs-se”, destacando a capacidade de resistência da população.
“O laborioso povo tramagalense resistiu, recuperou e a vila aí está, viva, procurando a cada dia formas de engrandecimento e formas de melhorar a qualidade de vida da sua população”, referiu.
Contudo, o presidente da Junta sustentou que o mesmo não aconteceu ao nível do investimento municipal, criticando aquilo que classificou como uma atenção insuficiente por parte da Câmara de Abrantes ao longo das últimas quatro décadas.
“Nos últimos 40 anos, a atenção do município à vila tem sido mínima, temos que o dizer, insuficiente, e sentimos, a cada dia que passa, que se acumula uma dívida histórica resultante do subinvestimento público ao longo já de décadas”, afirmou.
Na sua perspetiva, “na prática, nos últimos 40 anos, tem falhado o reconhecimento da vila aprovado pela Assembleia da República”.
António José Carvalho terminou deixando um apelo para que a efeméride dos 40 anos represente um ponto de viragem na relação entre o município e a freguesia.
“Desejamos sinceramente que a comemoração dos 40 anos da Vila do Tramagal se faça alterando decisivamente o entendimento municipal do que somos e merecemos ser”, concluiu.
Mais à frente na sessão, em resposta a António José Carvalho, o presidente da Câmara Municipal de Abrantes, Manuel Jorge Valamatos, rejeitou a ideia de que o Tramagal esteja isolado ou tenha sido esquecido pelo município, apelando ao presidente da Junta para que tenha uma visão mais abrangente do concelho.

“Não viva demasiado isolado. Não viva sozinho e às vezes até parece angustiado”, afirmou, acrescentando que “o concelho é muito grande” e que, embora cada autarca deva defender o seu território, “temos de ter aqui uma visão global”. O presidente da Câmara sublinhou que o Tramagal “é uma vila tão importante no contexto do concelho e da própria região”.
Como exemplo desse compromisso, Manuel Jorge Valamatos referiu os esforços que têm vindo a ser desenvolvidos, em articulação com outros municípios, para concretizar a conclusão do IC9, um projeto “prometido há muitos anos”.
Sobre a recuperação do Caminho do Tejo, reconheceu a importância da intervenção, mas explicou que esta ainda não avançou por existirem outras prioridades e pela necessidade de assegurar financiamento.
“Os Caminhos do Tejo são muito importantes para o Tramagal, para o Rossio ao Sul do Tejo e para todo o concelho. Têm de ser arranjados. Não têm sido prioritários porque, infelizmente, temos tantas situações prioritárias e estamos também à espera de alguns apoios para responder a determinadas intervenções”, afirmou.
O autarca defendeu ainda que o município tem realizado investimento significativo na freguesia, apontando como exemplos o Museu Metalúrgico Duarte Ferreira, o Pavilhão Municipal, as piscinas, o mercado e, mais recentemente, o Centro de Interpretação da Ribeira de Alcolobre (CIRA).
“Tem havido muito investimento nesta freguesia. Todos gostaríamos de mais, naturalmente, e havemos de lá chegar”, disse.
Relativamente à requalificação do jardim junto ao Largo dos Combatentes, Manuel Jorge Valamatos explicou que a intervenção resulta de um projeto do Orçamento Participativo e garantiu que a empreitada deverá avançar em breve, após o período festivo.
Tramagal assinala 40 anos de elevação a Vila
Foi por iniciativa do Partido Social Democrata (PSD) que se procedeu a uma reorganização do estatuto de várias povoações, em todo o país. Corria o ano de 1986, Cavaco Silva era primeiro-ministro e Mário Soares haveria de ganhar as mais renhidas eleições Presidenciais da História nacional, numa emotiva segunda volta com Freitas do Amaral.
O projeto de lei 60/V propôs a elevação de Tramagal a Vila, tendo como primeiro subscritor o deputado Miguel Relvas, que então escreveu:
“Esperemos que esta justa promoção incentive os respectivos órgãos autárquicos de Freguesia, de Município e as forças vivas locais, para um maior desenvolvimento da nóvel vila a fim de proporcionar uma maior qualidade de vida aos seus habitantes.”
A lei nº 28/86 acabaria por ser publicada em Diário da República a 23 de Agosto, oficializando a elevação a vila, uma pretensão antiga dos tramagalenses.
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