Para apreciar as qualidades sápidas dos torresmos todas as horas são propícias, importa que os degustadores não padeçam de interditos religiosos ou fundamentalistas de cunho nutricional porque para lá da mastigação ao torto e ao direito, existem períodos nos quais ganham (ganhavam) preponderância na época das matanças dos marronchos engordados à mão comendo grãos de milho, de centeio e grão-de-bico, muitas castanhas, bolotas e frutas de várias qualidades a concederem virtuosos sabores às carnes porcinas, sendo (às vezes são) os torresmos fautores de substanciosos gozos palatais a perdurarem na nossa memória.
Obviamente, nesta época estou a escrever sobre aqueles pedaços de carne de porco cozidos na própria gordura, os quais comemos quentes ou frios, a suscitarem-nos dúvidas acerca da especialidade que mais prazer palatal nos concede, pois ora quentes, ora frios, a sós na categoria de elemento primacial de uma refeição ligeira ou de maior representação alimentar, os torresmos causam grande satisfação prandial dada a sapidez da carne.
Os torresmos sempre desempenharam a importante tarefa de desenvencilharem as donas de casa de aflições quando apareciam inesperadas visitas e/ou se na despensa só como gordura os deliciosos bocados de carne conservados em gordura nos potes ou caçarolas que os retinham em boas condições meses a fio.
Na época em que estive nos Açores, os torresmos alegravam as refeições quando o mar estava agitado a impedir renovação de abastecimentos, tendo constituído para mim gostosa novidade os «torresmos» de bonito, um tunídeo gordo, pesado, amigo de receber a gordura que conserva a sua singularidade gustativa.
Torresmo de ganso, pato e peru, retirados das asas e das coxas dessas aves, tratados culinariamente e conservados da mesma maneira que os de porco são motivo de gáudio gastronómico em vários países da Europa porque a sós fazem as delícias dos gourmets comendo-os acompanhados por vinhos de borbulha de cordão fino, enquanto alegram e enriquecem pratos à base dos cogumelos, tubérculos assados, espargos cozidos no vapor ou grelhados e fritos em manteiga.
Dispenso-me de ensinar a missa ao vigário (cozinheiras e cozinheiros) na confecção de torresmos, cada cabeça sua preparação, no tocante aos de redenho ou do rissol, advogo a sua consumação até ao último furgalho apaparicados por boas e finas fatias de centeio e broa, sem esquecer um tinto capitoso capaz de nos reconciliar com as negritudes da pandemia. Os abstémios podem abster-se porque estão habituados, os compelidos a tal por razões de saúde têm neste registo a espinhosa tarefa de saberem resistir à tentação.
PS. 1. Abundam os peritos arqueólogos da descoberta de luxuriantes torresmos. Ainda bem!
2. Aos timoneiros do Médio Tejo e todos quantos dedicam atenção às minhas crónicas endereço votos de Boas Festas e Ano Novo conforme desejam.
