Foto: Facebook Siul Sotnas.

Nascido no dia Mundial da Música, Luís Santos já foi jornalista, entregador de pizzas, técnico de backline, produtor e promotor de concertos, operador de caixa de supermercados e “qualquer coisa numa oficina de comboios”, mas foi na música que sempre encontrou a sua “cena” e principal atividade, maioritariamente como técnico de backline em digressões de bandas.

Começou com os Além Mar e a isso seguiram-se trabalhos com bandas como os Dzr’t onde viveu pela primeira vez uma realidade que só tinha visto na televisão e lido em livros e revistas, e onde percebeu o que era isso de “andar na estrada”. Uma das tours mais divertidas e mais leves foi com os Virgem Suta mas as melhores histórias talvez as tenha vivido na digressão de “AC Para os Amigos”, álbum do rapper Boss AC.

De forma a conhecer um pouco melhor este músico bem como o seu trabalho, o mediotejo.net colocou algumas questões a Luís Santos, artista que se vê como “um gajo que gostava que o Ribatejo tivesse mais noção do potencial que a localização nos dá, e que olhasse mais para os criadores artísticos que daqui brotam como girassóis e que precisam de sol, igualmente”.

A música é a sua profissão?

Profissões, já tive algumas. Fui jornalista, fui entregador de pizzas, técnico de backline, produtor e promotor de concertos, operador de caixa num supermercado ou dois, fui qualquer coisa numa oficina de comboios, onde tinha por missão desmontar aquilo tudo, para serem renovados a fundo. Foi um festim de destruição, onde até me chegaram a fornecer uma espécie de maçarico, para queimar cenas que não saíssem. Correu sempre tudo bem, até eu e o Élio irmos a uma carruagem renovada, novinha em folha, onde uma lata de um ácido qualquer tombou acidentalmente no piso brilhante por estrear. Até escorria em catarata para os carris.

Mas, durante todas estas profissões, tive sempre a música presente. E tem sido a minha atividade principal há mais de 20 anos, principalmente sendo técnico de backline em digressões de bandas. Comecei nisto com os Além Mar e depois deles trabalhei para muita gente. Alguns foram inesquecíveis. Com os D’ZRT vivi pela primeira vez uma realidade que eu só tinha visto na televisão e lido em livros e revistas. Percebi então o que queria dizer “andar na estrada”. Era não ir a casa durante semanas a fio, estar todos os dias numa cidade diferente da anterior, ser uma segunda feira e parecer um sábado. E até nem saber onde estava, nem que dia era. Mas ao mesmo tempo, fazer uma família nova, que ainda hoje mantenho e que prezo muito. E uma das tours mais divertidas e mais leves foi com os Virgem Suta. Com o AC voltei a ter a sensação de “estrada”, em especial durante a digressão do disco AC para os Amigos. E também tenho que assumir que diversão nunca faltou na “tropa” do AC. Se calhar, até é onde tenho as melhores histórias e as maiores amizades. Olha: brinde à amizade! Sou pobre em ouro mas rico em amigos.

Foto: Facebook Siul Sotnas

Quando e como despertaste para a música?

Eu lembro de ser bastante pequeno e já ter na música um fascínio qualquer. Além do meu primeiro palco ter sido na sala dos meus pais, a tocar tábua de passar a ferro, tenho memória de haver um programa sobre música na RTP, aos sábados ao final da tarde, e ser desse programa que guardei algumas das minhas primeiras memórias sonoras, mas também visuais, de música. Só anos mais tarde – muitos, diga-se – decifrei essas memórias, ao ser apresentado à musica de Pink Floyd. Algo ali que me fazia lembrar de qualquer coisa do passado. Até que vi o vídeo do Another Brick in the Wall (parte 2). Fez-se luz e abri uma pequena caixa de pandora de memórias. Ao ver as crianças a caminhar para um triturador de carne, lembrei de onde conhecia aquela música. Nesse pacote de memórias também estava uma dos Scorpions… É o que é. Nem mandamos em quem amamos, nem em que memórias assentamos o nosso passado.

“Quem” é Siul Sotnas?

É um dos meus dois egos alternativos. O mais simpático, aliás. Eu, como sou um bocado tímido, quando decidi fazer um projecto a solo, achei que o mais seguro era manter o cabelo comprido e arranjar um nome que não me identificasse. Mas, acaba aí. Depois do nome, que é na realidade o meu verdadeiro, mas ao contrário, estou eu, o Luís… Ou o Lois. Depende do dia. No fundo, ambos são fatos espaciais que me protegem do mundo. Eu sou um gajo do Ribatejo, que abomina touradas, que não é vegetariano. Sou um gajo que gostava que o Ribatejo tivesse mais noção do potencial que a localização nos dá, e que olhasse mais para os criadores artísticos que daqui brotam como girassóis e que precisam de sol, igualmente. Sou um autor que escreve sobre tudo e sobre nada, com a mesma facilidade com que faz uma omelete. Eu sei lá quem sou…

Depois de mais de 20 anos dedicados à música, 2023 é um ano de novidades para Luís Santos. Foto: Facebook Siul Sotnas

O que pode adiantar sobre Rádio Canibal?

Posso dizer algumas coisas. Tem dez peças musicais, e provavelmente umas oito ou nove não existiam na data em que o disco era para ter saído, que era outubro de 2020.  O que aconteceu foi que resolvi experimentar as canções ao vivo e tive a uma crítica explícita: pouca gente – senão nenhuma – gostou delas. Eu acho que aquilo era muito negro e tudo muito low tempo. Ao mesmo tempo, tive uma avaria catastrófica no estúdio e perdi praticamente toda a música gravada. Foi duro, mas eu sou mais, e então decidi recomeçar de novo. Na realidade, só uma canção dessa primeira leva, resistiu. E foi porque já estava lançada em single. Voltando ao agora, é um disco pouco homogéneo, mas acho que é o melhor que já fiz. Tem um conceito de programa de rádio noturno, mas não é concetual. Eu gravei muitos dos instrumentos nele, mas também tenho uma coleção luxuosa de baixistas, um ou dois bateristas ‘altamentes’ e um monte de vozes espetaculares de amigos e amigas, e até do meu pai. E tenho um coprodutor, Jedi. Acho que estou na fronteira entre o que devo avançar e o que não devo.

O que as pessoas podem esperar ou o que vão descobrir neste novo disco?

Acho que canto melhor hoje. Podem descobrir isso, se for verdade. E podem descobrir umas letras engraçadas, outras mais profundas, que também pode ser engraçadas. Podem esperar um instrumental, o que, para quem não descobrir que estou a cantar um bocadinho melhor, é uma boa notícia. Será que podemos todos descobrir que se pode dançar ao som deste disco? Isso era muita tonto…

Foto: Facebook Siul Sotnas

Alguma mensagem que queiras partilhar com este disco?

Não necessariamente. Eu acho, assim, sem ponderar muito, que o principal para mim é partilhar os milhentos cacos desta obra num todo, e ter quem a aprecie. Depois, as mensagens… Eu acho que um dos poderes da música é que tu interpretas livremente a mensagem que possa estar contida num texto. Logo, eu posso estar a falar de alhos e tu pensares em bugalhos. Cada uma das músicas neste disco são pequenas histórias estanques. Exceto duas. E elas transmitem apenas energia, que recebes e transformas de acordo com as tuas sensações.

Quando sai então o disco e como as pessoas podem obtê-lo?

Sai em breve, mas não me posso comprometer com datas ainda, porque estamos na fase de misturar e masterizar as canções e estamos no Natal, o que alarga os prazos de fabricação e entrega da edição física. E eu decidi que a versão digital só é lançada depois de todos os afortunados que pré-reservaram o disco, tenham recebido a sua edição física em casa. E como até tive ‘investidores’ espanhóis, vá, uma… Tenho que dar uns cinco dias entre uma e outra. Ah, e ainda tenho que pensar num vídeo, para um single. Mas, sim, a versão digital vai estar em algumas plataformas de streaming e download, enquanto que a digi-digi pode ser comprada por mail e enviada para casa, com aquele pacotinho almofadado dos correios. Pode demorar, mas em princípio, há de chegar. 

Foto: Facebook Siul Sotnas

Principais referências musicais?

É a pergunta mais difícil. Eu não busco nas referências uma sonoridade, pelo menos, de forma consciente. A minha música acontece sem que eu imponha regras ou ideias pré-concebidas. Quando começo a compor algo, não sei o que virá dali. Não decido os acordes, a progressão melódica ou harmónica, ou a estrutura. Isso vai acontecendo. E, por isso tenho músicas sem refrões, ou que começam no refrão, ou que são instrumentais, ou que levam quatro teclados, ou nenhum. Ou que têm uma estrutura complexa ou uma só sequência de acordes. Para eu ter uma ideia das reais referências, teria que comparar as minhas canções às dos artistas que gosto de ouvir. Sei que em termos de guitarra sou muito influenciado por gente como o Gilmour, o Slash, o Juan Vadívia, ou o Peter Buck, e até o Carlos Mateus de Lima. Mas são todos tão diferentes… E não resulta necessariamente em ter música parecida à deles. E para lá disto, eu gosto muito de, além da música, ouvir a produção e a mistura dos discos. E muito de uma canção está na abordagem feita durante estes três processos da conceção da obra.

O que é, para ti, a música?

É a minha cena. Desde pequeno que utilizo muito do meu tempo a ouvir música e a viajar nela. Não é que seja um refúgio, é mais ‘o meu lugar’. Eu podia ter uma vida desafogada se tivesse ficado no jornalismo. Nessa área, cheguei exatamente à redação onde queria sentar-me. E depois demiti-me para voltar a sentir o cheiro do equipamento de som e luz nos palcos. Portanto, a música é isto, para mim.

Géneros de música preferidos?

Eu sou do rock. Portanto, para além desse, gosto de bué géneros. Não tenho vergonha nenhuma em dizer que curto pop, hip hop, morna, música da América Latina, novo fado, folk, cenas psicadélicas e outras coisas. Só compartimento géneros para decidir o que não gosto de ouvir. E mesmo assim, sou incongruente, porque não gosto de metal, mas tenho sempre um lugar no coração para os Moonspell, e sendo guitarrista não sou fã dos virtuosos das escalas. Mas adoro a Cirus e a Eilish e ando apaixonado por uma canção do Harry Styles.

Foto: Facebook Siul Sotnas

Como é ser músico em Portugal?

Ser músico em Portugal é difícil. Há a ideia generalizada de que isto não é um emprego a sério. Mas isso nem é o mais grave. O próprio Estado nunca levou a sério as profissões desta indústria. Basta ver as condições sob as quais vivemos em termos de Autoridade Tributária. Chegámos a ter que pagar mensalmente à Segurança Social 125 euros, independentemente do quanto ganhávamos nesse mês. Janeiro, por exemplo, nunca foi um mês famoso… Porém, é também na própria indústria que encontramos muito parasitismo e jogo de bastidor. E depois há a parte em que também somos cidadãos e temos uma opinião. E se essa opinião choca com maiorias absolutas, estamos lixados durante, pelo menos, oito anos. Epá, e em cima disto tudo, quando és atingido por uma pandemia mundial e ficas proibido de fazer concertos, as coisas agravam-se. Nos nossos casos não há teletrabalho, nem subsídios de desemprego. Perdemos contratos, perdemos colegas, perdemos equipas, perdemos artistas, perdemos técnicos. Apesar destas agruras todas, alguém poderá perguntar porque continuamos. A resposta é simples: gosto de fazer isto. As experiências que tive ao longo de 25 anos nesta vida, são muito gratificantes. Como músico o mais longe que toquei de Riachos foi em Espanha e o maior número de público talvez tenham sido três mil pessoas, em Santarém. Mas como técnico de instrumentos, desde os meus inícios com os Além Mar, à loucura dos D’ZRT, ou aos 15 anos a trabalhar com o AC, aprendi muito, vivi muito, conheci muito e passei por tudo. Das coisas mais ínfames às mais notáveis. De audiências de 100 pessoas a 80 mil numa praia em Cabo Verde, ou num Rock in Rio. É difícil viver na música em Portugal? É, mas sabe bem.

Como vês o estado da música em Portugal? E a nível global?

Vou dizer isto, mas tenho uma ressalva no fim: em Portugal está melhor que nunca. Há um antes e um depois do ano 2000. Até então, tínhamos, na generalidade, uma indústria manipulada hierarquicamente ao contrário. As editoras decidiam quem era elegível a artista, com base em jogos de bastidores que pouco teriam a ver com a música. Isso implicou na oferta que satisfizesse o público. Tens aí muito boa gente que hoje poderia ter ótimos discos e carreiras excecionais, se não lhes tivessem cortado as asas. Imagina termos uma dúzia de bandas de culto, como os Ornatos, o Palma. O novo milénio trouxe o estúdio de música para o teu quarto e a internet fez o resto. As editoras foram descartadas. O público estava acessível, sem intermediário. Por essa razão, está melhor que nunca. Não está perfeito? Não, mas nunca esteve melhor, embora ainda haja gente que considere que pedir um concerto de borla, porque nos promove, é sensato. E a ressalva é que a pandemia destruiu muito do trabalho feito nos últimos 20 anos nesta indústria. Mas, como diz o outro: “We shall overcome”. Lá fora a coisa está pior do que estava há duas décadas. As vendas de discos e as digressões têm valores muito mais expressivos, por isso, as histórias dos dinheiros dos streamings são assuntos sérios para alguns. Quanto à qualidade, isso é uma tonteira. Nas artes não se mede. Ou gostas ou não gostas.

Luís Santos sempre gostou muito de desenhar, pelo que tratou do artwork da capa do disco, conforme este esboço. Foto: DR

Projetos para o futuro? Algumas atuações marcadas?

Não tenho concertos agendados. É a vida… Passo mais tempo em casa e posso tratar do terceiro capítulo da trilogia de A Máquina, que é uma cena de poesia com guitarras, efeitos, batidas e sintetizadores marados, com a voz da Maria Jeromito. E também tenho uma canção de Orange Crush para sair daqui a uns tempos. E outra dos Almonda. E um pequeno documentário sobre azeite artesanal. Ocupado, até estou…

Outras paixões para além da música?

Gosto de desenhar, gosto de aviões e camiões. E escrever. Curto bué escrever. Não sei se escrevo bem, mas que curto, curto. Desenhar e estar sozinho era algo que eu fazia constantemente. Lembro de passar tardes de sábado a ouvir o American Top 40 e a desenhar as minhas cenas. E os camiões, autocarros, comboios e toda essa engenharia do transporte, têm a ver com a proximidade que tive em criança a essas máquinas. Com o meu pai a ser eletricista auto, os meus tios camionistas, e eu a viver a 150 metros da linha do comboio, acho que foram influências suficientes.

Rafael Ascensão

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo.

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