Orange Crush, a banda que voltou quase 20 anos depois para ir servindo umas 'laranjadas' à moda de Torres Novas. Foto: DR

Eram ainda jovens adolescentes quando surgiu a vontade de tocarem juntos. “Gostávamos de tocar as nossas músicas, gostávamos de compor música, e queríamos levar aquilo que nós fazíamos para um palco e eventualmente para um estúdio”, explica Luís Santos, responsável pelas guitarras no grupo.

Além de Luís Santos, a banda é composta por Adriano Sousa (bateria), Jorge Simões (baixo), e Filipa Rodrigues Frade (voz). Foto: DR

A história mais marcante para todos foi a do primeiro concerto que deram, na escola, um concerto que “nunca esquecemos até hoje”. Confessam que estavam cheios de vergonha, por ser na escola, onde toda a gente se conhecia. Para abrir as hostilidades, nada melhor que tocar uma música original: “Don’t make me cry”, muito gira, dizem entre sorrisos irónicos.

Depois de diversas composições, momentos partilhados e concertos aqui e ali, a banda acabou por colocar um ponto final na sua história (que na verdade se viria depois a revelar como um ponto e vírgula) por nenhuma razão em especial além da dos seus integrantes “deixarem de ser jovens” e das circunstâncias da vida se meterem pelo meio, como invariavelmente acontece.

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“Durámos sete anos, aquele número mágico, e depois deixou de fazer sentido continuarmos a fazer o que fizemos até então. Não que a nossa relação se tenha esgotado ou desgastado, mas se calhar a nossa relação com o mundo. Fizemos muita coisa e não tivemos feedback na altura”, confessa Luís Santos.

“Mas uma coisa é a banda e outra coisa são as pessoas e as amizades e isso são coisas completamente distintas”, relembra Filipa Frade, ao que Luís Santos complementa afirmando que “as coisas têm um tempo” mas que isso não quer dizer que esse tempo nunca mais volta. “Tanto que estamos aqui hoje”, diz.

O nome da banda – Orange Crush – esse encontraram-no numa das músicas de um dos álbuns de uma das bandas que gostavam, os R.E.M. Esta é de facto uma referência, embora seja difícil para o grupo falar em referências.

“É difícil porque as músicas que fizemos há uns anos atrás tinham umas influências e agora felizmente temos muitas mais. O que não quer dizer que tenham desaparecido as influências anteriores”, diz Filipa Frade, explicando que ainda ouve e gosta de músicas que ouvia na adolescência, mas que atualmente o seu ouvido é “muito mais exigente” e “muito mais ambicioso”.

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Adriano Sousa, o homem da bateria, explica que a banda sempre teve a particularidade de os seus integrantes serem muito diferentes “não só como pessoas mas também com os estilos musicais que nos identificava. E acho que continuamos assim, o que é bom”, refere.

Luís Santos aprofunda a questão: “Isso das influências é um lugar comum que não existe. As minhas influências não são conscientes, elas estão no subconsciente. Nós não vamos atrás do ‘ah eu quero tocar para fazer isto igual àquilo’. Embora haja muita gente que tente imitar os ídolos, nós nunca tivemos esse interesse. Queremos criar a nossa cena e numa música posso ter um monte de influências completamente díspares umas das outras, acho que isso nem se quer tem grande importância”.

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Quando questionados sobre o motivo deste reencontro musical, a resposta é dada em coro: “saudades”.

“Tentámos fazer uma aproximação a tentar perceber se dava para voltar a tocar umas músicas, em 2017. Eu e o Luís continuamos com projetos em paralelo. Falámos com a Filipa, pareceu-nos interessante, mas talvez por causa da distância não resultou [ela estava na Estónia nessa altura]. Depois a Filipa regressa a Portugal um ano ou dois depois, e depois por força de circunstância de um projeto do Luís juntámo-nos aqui e a Filipa veio cá ao ensaio, começa a tocar uma música de Orange Crush, a relembrar, eu estava na bateria, começámos a tocar, curiosamente “Trevas”, que eu já detestava, e aquilo de imediato soou de uma forma tão fantástica e pronto, acho que foi isso”, explica Adriano Sousa.

Luís Santos acrescenta que, além disso, havia algumas “questões inacabadas”, as quais passam por “algumas peças musicais que nós nunca gravámos e achamos que o mundo precisa delas”, diz.

E foi com a música “Trevas” que o grupo voltou a dar música passados tantos anos. Quem vir o videoclip e prestar atenção à letra da música pode pensar que esta foi feita a propósito da guerra vivida na Ucrânia, mas isso não passou de uma “coincidência brutal”, até porque a canção foi gravada em agosto de 2020.

“A questão é que nós resolvemos lançar a canção em março, e no final de fevereiro houve esta invasão. Nós andávamos a pensar como havíamos de fazer o videoclip do Trevas, e eu estava a ver notícias no jornal e comecei a ser invadido por muitas imagens da guerra, da destruição toda que estava a acontecer nas várias cidades ucranianas e tive ali uma espécie de epifania que foi virarmos esta canção, que era uma coisa pessoal e interna, para transformá-la numa coisa maior, porque a letra batia de forma bastante perfeita no que tem estado a acontecer”, explica Luís Santos.

“E a parte musical, a música em si, parecia que também ligava muito à situação. E então decidimos transformar este videoclip numa espécie de quase-relato da invasão à Ucrânia (…) aproveitámos uma coincidência para também opinarmos”.

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E é que embora tenha sido agora gravada, a música na verdade já era bem mais antiga: “a música foi feita em 1998 e não teve qualquer ligação com a guerra na Ucrânia. Foi uma coincidência realmente, a letra e a música estarem a coincidir com o que estava a acontecer, mas a música é bem mais antiga do que o acontecimento. A única coisa é que tem uma roupagem nova”, explica Filipa Frade, acrescentando que esta saiu assim do “mundo pessoal” para passar a ser “global”.

“A letra da Filipa ganhou uma dimensão completamente diferente quando nós associámos esta canção ao que se passa na Ucrânia”, diz Luís Santos, ladeado por Adriano Sousa, que refere que “isso teve também em nós um impacto brutal porque percebemos de facto realmente que as coisas podem mudar e ter esse impacto, não era esperado nem foi propositado, aconteceu naturalmente, de uma forma muito espontânea, o que é espetacular”.

Quanto a “assumir” de novo a banda, com marcação de concertos, Luís Santos é perentório: “Se tu queres ir ao circo e queres ver o palhaço, tens que pagar o bilhete”, diz, acrescentando que na realidade, caso pudessem e quisessem voltar aos palcos, só o poderiam fazer de uma forma “séria, honesta e profissional”.

“Mas também só o poderíamos fazer se o quiséssemos fazer. Talvez não seja o momento para o fazermos. Não equacionamos isso, mas não quer dizer que não o possamos vir a fazer no futuro. Tal como não fechámos portas no passado também não fechamos portas agora”, diz Adriano Sousa.

Para Filipa Frade, enquanto permanecer a amizade, a banda vai continuar a existir, “nem que seja nas nossas vidas na nossa história”, diz, pelo que Luís acrescenta que, na verdade, a banda está assumida e que “nem todas as bandas, nem todos os artistas, gostam de tocar ao vivo”, embora seja esse o seu caso.

Os elementos da banda vão assim complementando as respostas: “não há planos, estamos descontraidamente a viver o momento”, diz Filipa

Para o futuro, esse traz consigo uma nova música, a ser lançada em outubro. De resto, a banda vai vendo as laranjas que a vida lhe dá e vai fazendo umas laranjadas.

(DISPONÍVEL A PARTIR DE OUTUBRO)

Licenciado em Ciências da Comunicação e mestre em Jornalismo. Natural de Praia do Ribatejo, Vila Nova da Barquinha, mas com raízes e ligações beirãs, adora a escrita e o jornalismo.

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