Torrão de Alicante. Foto: DR


Na gíria usada outrora no vocabulário amoroso, os termos torrão/torrãozinho explodiam em estilhaços de paixões, bem ou mal sucedidas. O Dicionário do enciclopédico Dr. Johnson adverte: as pessoas têm grandes desilusões por se iludirem cegamente tendo os olhos abertos e convidativos.

Ora, o torrão doce espanhol de confeitaria, cuja essência são amêndoas cortadas, claras de ovo e açúcar branco, perfumado e colorido não engana nem raparigas de olhos fechados, muito menos senhoras permanentemente desconfiadas, por isso sempre dispostas a detectar as muitas variantes de torrões.

Cada região, cada cidade, vila ou povoado a sua receita, sendo comum os chauvinismos doces, seja por altura da época do seu grande consumo – o Natal –, seja quando os gulosos se lembram de deterem migalhas entre os dentes a fim de prolongarem o prazer presente mordiscando de modo a não estragarem os dentes tão caninos no passado

Armando Fernandes

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.