Numa prateleira improvisada no sótão da casa dos meus pais estão guardados todos os livros escolares, meus e do meu irmão, catecismos e publicações avulsas que em determinada altura da vida alguém achou importante guardar.
Também lá jazem, mergulhados naquela aura característica de penumbra de pó, jornais e revistas, páginas isoladas com tutoriais de rendas e crochet, folhas de seda com desenhos sumidos, outrora bordados em lençóis e outras peças de enxoval, cadernos de cantos dobrados, correspondência do tempo da adolescência, almanaques, pagelas, quilos e quilos de papel em equilíbrio precário numa tábua abaulada. Não é verdade que o saber não ocupa lugar.
Voltar àquele sótão é como resgatar um bocadinho da minha infância, e foi isso mesmo que senti quando ali encontrei os quatro livrinhos comprados na Nazaré há provavelmente mais de 30 anos.
Recordo a chamada de atenção do meu pai, repetida todos os anos. Compramos uma coisa para cada um, mas só uma. Podem escolher o que quiserem, e se quiserem podemos comprá-la já hoje, mas não há mais nada até ao fim das férias.
Eu, o meu irmão e dois primos acatávamos a indicação e tomávamos decisões. Era uma coisa, só uma, para cada um de nós. Os gelados não entravam nesta equação, claro, mas mesmo assim demorávamos minutos infinitos a olhar as tentadoras bancas de bugigangas estrategicamente posicionadas nas praças da marginal.
Certo ano trouxe para casa aquela coleção que guardei e reli vezes sem conta nos meses seguintes. Há muito que a julgava perdida e foi numa espécie de êxtase que folheei os livros e reli o meu nome, escrito por mim, no verso da capa de todos eles. O B muito bem feitinho, letras esmeradas, ligeiramente encolhidas à medida que os apelidos eram escritos e o espaço imaginário da primeira linha escasseava.
Reconheço neles os mesmos traços inscritos nos livros da primeira classe, que me recuso a deitar fora. Nunca mais precisei de os folhear, a não ser por nostalgia, mas saber onde estão aquece-me a alma.
Ao contrário dos meus, os livros do primeiro ano da minha filha foram entregues na escola dela no final do ano letivo. Embora os tivesse comprado e podendo, portanto, ficar com eles, achei por bem devolvê-los. Talvez em setembro aterrem noutra casa, na mochila de outra criança rumo do conhecimento.
Desde então que penso se fiz a coisa certa, e esta semana, com a inscrição no novo site dos manuais escolares para receber o famoso voucher, voltei a pensar no assunto. Confesso que continuo sem saber muito bem o que pensar acerca da medida que obriga à devolução dos livros escolares por parte das famílias, no caso destes terem sido cedidos pelo Estado.
Qual será efetivamente o retorno desta ação? Que poupança representa? Não se estará ao mesmo tempo a condicionar a relação das crianças com o livro? O que direi eu à minha filha se ela, algum dia, me perguntar pelos livros nos quais aprendeu a ler e a fazer contas?
Enquanto revolvo as dúvidas, e pelo sim pelo não, estou a guardar numa caixinha todos os bilhetes, listas de compras, recados e pequenas composições que apanho espalhadas no quarto dela e no resto da casa. E quando a caixa estiver cheia hei-de levá-la para o sótão dos meus pais, esse sítio mágico onde se guardam os tesouros mais preciosos da minha infância.
