Estação ferroviária do Entroncamento. Créditos: Calapez Arquitectos

Electrificar toda a rede nacional, ligar as 10 principais cidades do país com serviços de Alta Velocidade (TGV), assegurar serviços com “elevada qualidade” a 28 centros urbanos de relevância regional, reforçar as ligações a Espanha e atingir os 40% de quota modal no transporte de mercadorias são, em traços gerais, as prioridades do Plano Ferroviário Nacional, apresentado pelo governo na quinta-feira, 17 de novembro.

O presidente da Câmara Municipal do Entroncamento, Jorge Faria, esteve no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, em Lisboa, para conhecer em primeira mão as linhas orientadoras deste documento estratégico, representando também a Comunidade Intermunicipal do Médio Tejo (CIMT). “É um documento essencial e estrutural para o futuro do país”, diz Jorge Faria ao mediotejo.net.

“Não é um conjunto de intenções de investimento – é antes a apresentação de um desenho da estrutura ferroviária do país, suportado nalguns critérios, como a ligação das principais cidades e todas as capitais de distrito através da ferrovia, e também critérios de tempo para a deslocação entre esses principais pontos”, explica.

ÁUDIO | Jorge Faria, Presidente da Câmara Municipal do Entroncamento

Relativamente à nossa região, não está prevista uma ligação que a CIMT propôs, adianta Jorge Faria, e que diz respeito a uma ligação do Entroncamento ao litoral (à costa da zona Oeste), via Leiria, passando por Fátima, que hoje apenas é servida por duas estações a mais de 20 km da cidade (Vale de Ovos/Chão de Maçãs e Caxarias). “Vou propor aos meus colegas [autarcas na CIMT] que se insista nesta proposta”, avança ao mediotejo.net.

“Além de criar uma ligação eficiente a Fátima e um acesso ao litoral, permitiria fazer uma ligação do Entroncamento à futura linha do TGV”, se este seguir o traçado proposto neste momento pelo governo, e que não passa pela cidade ferroviária, nem pelo distrito de Santarém, mas sim por Leiria.

No mês passado foi formalmente constituída a equipa que acompanhará os estudos para a concessão desta linha num modelo de parceria público privada (PPP), estimando-se que no primeiro semestre de 2023 sejam lançados os primeiros concursos para a contração de empreitadas.

Jorge Faria reage com um “ainda bem” e uma ponta de ironia quando lhe perguntamos pelo traçado do TGV Lisboa-Porto sem passagem pelo Entroncamento. Entende que “o canal ferroviário da linha do Norte está completamente esgotado e não poderia comportar um novo comboio”. Por isso o governo decidiu construir uma nova linha, em via dupla, adequada para Alta Velocidade e, mesmo que essa linha se fizesse em paralelo com a linha do Norte, passando na zona do Entroncamento, não iria ter paragem na estação.”

Prevê-se que este TGV faça o trajeto em 1h19, sem paragens entre Porto Campanhã e Lisboa-Oriente, e em 1h45 num serviço com 4 paragens (Leiria, Coimbra, Aveiro e Gaia).

A retirada de alguns passageiros da Linha do Norte para o TGV terá “uma grande vantagem” para a região, entende Jorge Faria. “Permitirá libertar este canal ferroviário para termos mais comboios, com mais qualidade, que liguem a nossa região a Lisboa, Coimbra e Porto, entre muitos outros destinos, em menos tempo e com mais comodidade”, considera.

A duplicação das linhas de acesso a Lisboa, a partir da Azambuja, já prevista no Plano Nacional de Investimentos, será também determinante para a melhoria do serviço da Linha do Norte. “Sem este investimento, a transferência que tanto se pretende dos carros para a ferrovia, não se poderá fazer”, explica, porque não há forma de aumentar o número de comboios em circulação.

Estação ferroviária do Entroncamento. Créditos: A Terceira Dimensão

O reforço da qualidade do serviço dos comboios suburbanos, como entre Tomar e Lisboa, é, em seu entender, imperativo. O trajeto chega a demorar duas horas, com poucas carruagens e passageiros em pé, quando poderia fazer-se em metade do tempo, com mais conforto, permitindo que mais pessoas pudessem trabalhar em Lisboa mas optar por viver em Tomar, como noutras cidades do Médio Tejo, com outra qualidade de vida.

“Hoje já é uma realidade, há muito mais pessoas a residir no Entroncamento, ou tendo o Entroncamento como uma porta de entrada na região do Médio Tejo, desde que entrou em vigor o PART – Programa de Apoio à Redução Tarifária, em 2019”, frisa Jorge Faria. Essa redução significativa no preço dos passes, quando o preço da habitação na zona de Lisboa continua a aumentar, levou muitos portugueses a procurarem alternativas mais afastadas da capital.

“Numa primeira fase, muitas dessas pessoas começaram por deslocar-se diariamente para Lisboa, mas ao longo do tempo foram encontrando empregos compatíveis na região”, explica o autarca do Entroncamento. “Provavelmente, aqueles que são quadros mais diferenciados, continuarão a ir para a capital, e por isso é importante reforçar a qualidade destas ligações, com comboios inter-urbanos que permitam estar em 40 minutos no centro de Lisboa.”

Com a pandemia de covid-19 ganhou também força o movimento dos chamados “nómadas digitais” e o modelo de trabalho das empresas continua a adaptar-se, normalizando-se um sistema híbrido, em que não é considerada necessária a presença diária dos funcionários, que podem estar um, dois ou três dias por semana em teletrabalho. “Neste momento já é o modelo da Alemanha: três dias em casa e dois no escritório”, lembra Jorge Faria.

O TGV passar pelo Entroncamento é, por isso, em seu entender, “uma falsa questão”. Além disso, a alternativa de Alta Velocidade noutra linha, que não a do Norte, permitirá também o crescimento da circulação de comboios de mercadorias. “Neste Plano Ferroviário Nacional está prevista uma nova linha a partir de Sines, com o Entroncamento a manter um papel importante, pela sua centralidade”, na distribuição logística, confirma Jorge Faria.

Contudo, se o futuro Aeroporto vier a situar-se em Santarém, acredita que o traçado agora proposto para o TGV poderá ter de sofrer alterações. “Se assim for – e como eu acho que deve ser, porque é o único local que poderá ser verdadeiramente o Aeroporto Internacional de Portugal, com acesso a Lisboa em 37 minutos – terá de fazer-se uma estação de TGV nesse aeroporto, e assim completava-se aqui uma malha de transportes muito eficiente”, considera.

Área de localização do projeto para o Aeroporto de Santarém. Créditos: mediotejo.net

Um plano até 2050

O Plano apresentado pelo ministro das Infra-Estruturas ainda não é final, podendo ser alterado durante o processo de consulta pública, que agora se inicia, e depois durante a discussão que terá lugar na Assembleia da República, antecedendo a necessária aprovação no Parlamento. O primeiro-ministro, que esteve na cerimónia ao lado do ministro Pedro Nuno Santos, reforçou essa necessidade de contributos adicionais, pois a estratégia final que for aprovada “transcende muitas das legislaturas de muitos dos que são hoje os decisores políticos”.

O PEN tem como horizonte mais lato o ano de 2050, data limite definida pela União Europeia para ser atingida a neutralidade carbónica. “Os transportes são um dos maiores contribuintes para os gases com efeito de estufa, por isso é preciso apostar na mobilidade coletiva e, dentro dessa mobilidade coletiva, ainda não há nenhum meio de transporte que bata a ferrovia. Não é por acaso que temos toda a Europa a investir na ferrovia”, referiu Pedro Nuno Santos.

Portugal está muito atrasado nesta corrida, fruto do desinvestimento na ferrovia ao longo das últimas décadas, sobretudo a partir dos anos 1990, quando a maioria dos fundos europeus para acessibilidades foram canalizados para a construção de auto-estradas.

Segundo o ministro, o PFN espelha o trabalho que já está a ser feito no quadro do Ferrovia 2020 e plasma também o que está a ser previsto para o Plano Nacional de Investimentos 2030, que são a linha de Alta Velocidade, para ligar Lisboa ao Porto e Porto a Vigo, em Espanha, a eletrificação da totalidade da rede, e a “resolução de bloqueios nas duas áreas metropolitanas”.

O PFN tem como principais objetivos “passar de 4,6% para 20% de quota modal no transporte de passageiros”, “passar de 13% para 40% de quota modal no transporte de mercadorias”, “assegurar ligação com elevada qualidade de serviço aos 28 centros urbanos de relevância regional, que incluem todas as capitais de distrito, potenciando o seu desenvolvimento”. Prevê uma nova linha Aveiro-Viseu-Guarda-Vilar Formoso, o que permitirá ter as 10 maiores cidades do país com serviços de Alta Velocidade. Além da inclusão de Viseu, atualmente sem serviço de comboio “, esta linha tornará possível a “ligação de Lisboa e Porto a Madrid em cerca de 3 horas”, diz o governo. Outros serviços de alta velocidade entre Lisboa e Madrid serão implementados, um deles através da nova linha Évora-Elvas, já em curso.

Patrícia Fonseca

Sou diretora do jornal mediotejo.net e da revista Ponto, e diretora editorial da Médio Tejo Edições / Origami Livros. Sou jornalista profissional desde 1995 e tenho a felicidade de ter corrido mundo a fazer o que mais gosto, testemunhando momentos cruciais da história mundial. Fui grande-repórter da revista Visão e algumas da reportagens que escrevi foram premiadas a nível nacional e internacional. Mas a maior recompensa desta profissão será sempre a promessa contida em cada texto: a possibilidade de questionar, inquietar, surpreender, emocionar e, quem sabe, fazer a diferença. Cresci no Tramagal, terra onde aprendi as primeiras letras e os valores da fraternidade e da liberdade. Mantenho-me apaixonada pelo processo de descoberta, investigação e escrita de uma boa história. Gosto de plantar árvores e flores, sou mãe a dobrar e escrevi quatro livros.

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