Take-away. Foto: DR

A expressão ganhou foros de cidadania a partir do apogeu da pandemia, no momento em que as pessoas, mesmo dos meios mais pequenos, se viram obrigadas a encomendar comida fora de casa, para além das já habituais pizzas, hambúrgueres e os denominados cachorros quentes.

Ao longo dos milénios, o Homem teve de congeminar modos de guardar e transportar produtos capazes de garantirem o seu sustento especialmente a partir da grande revolução tecnológica que aduzo ser a invenção do fogo e sua domesticação.

Cada terra com seu uso, diz o rifão, por isso, os alimentos recolhidos pelos humanos não diferiam muito das práticas de outras espécies, pensemos nos castores, nas lontras, nas laboriosas formigas, na rigorosa geometria das abelhas, nas fortalezas de inúmeras aves, nos seus bem concebidos ninhos.

As guerras, com o seu terrível cortejo de devastações, levou os camponeses a conceberem refúgios de reservas, utilizando estratagemas de vasta a e vária ordem a fim de os esconderem da rapacidade dos predadores.

Os amantes de velharias, ainda encontram instrumentos de transporte de comeres dos militares no decurso das manobras e exercícios e, nunca é demais recordar a guerra colonial, as latas contendo carne revelavam-se cortantes de dedos ao serem abertas, enquanto as bisnagas contendo uma «cousa» chamada marmelada esguichavam ao menor afago.

A indústria dos alimentos é das mais criativas do Planeta, o sistema pega/paga/leva triunfou e irá aperfeiçoar-se de dia para dia, o envelhecimento das populações, o aumento dos cuidados paliativos, a galopante mobilidade das pessoas, a «revolução» dietética a expandir-se no delicado nicho das crianças, os desaires nas colheitas, a fome de milhões e milhões em contraste com a desmesurada opulência de sibaritas, todo este leque de realidades é sustentáculo dos recentes modelos das múltiplas alimentações existentes, desde as frugais, para não escrever miseráveis dos sem-abrigo às fechadas dos prisioneiros, presos, vagabundos e dos seguidores do modo de vida pela estrada fora do famoso Jean Kerouac. Lembram-se?

Armando Fernandes

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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