Voluntárias com a psicóloga do Grupo de Apoio de Abrantes da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Créditos: mediotejo.net

Paula Villaverde, 55 anos, e Julita Silvestre, 66, são voluntárias do movimento ‘Vencer e Viver’, da Liga Portuguesa Contra o Cancro, e dão apoio emocional e um testemunho de esperança às mulheres com cancro da mama que recorrem ao Grupo de Apoio de Abrantes da Liga.

Em Abrantes apoiam utentes da Golegã, de Torres Novas ou de Tomar, “nos serviços que as utentes não têm” naqueles concelhos. E ainda de Sardoal, de Ferreira do Zêzere, de Constância e de Mação. Na verdade, dizem, apoiam doentes oncológicos, “sem fronteiras”, como esclarece Matilde Sacavém, uma das 25 voluntárias da Liga Portuguesa Contra o Cancro no Grupo de Abrantes, que pertence ao Núcleo Regional do Sul. Independentemente da localização geográfica, nestes grupos da Liga contam-se histórias de superação e estabelecem-se laços de entreajuda.

Estas voluntárias oferecem, além do seu tempo, a experiência e os conselhos de quem também já teve cancro de mama. Essa é uma condição para ser voluntária no ‘Vencer e Viver’. De bata branca, sorriso no rosto e placa identificadora ao peito, Paula e Julita tranquilizam as doentes, reforçando a ideia de que o voluntariado é um instrumento crucial na humanização da oncologia.

Almofada em forma de coração costurada pelas utentes do Grupo de Apoio de Abrantes da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Créditos: mediotejo.net

Apoiam doentes, familiares e amigos desde o momento em que é diagnosticado um cancro da mama. Não fazem voluntariado hospitalar, fomentam antes um contacto pessoal entre quem vive uma situação de vulnerabilidade e uma voluntária, que passou por uma situação semelhante. Aliado ao suporte emocional está o apoio prático, disponibilizando próteses mamárias, soutiens, próteses capilares ou turbantes.

“As próteses têm muita procura, porque são vendidas ao preço de custo ou oferecidas, consoante a situação económica comprovada da pessoa”, explica Paula Villaverde.

À voluntária foi-lhe diagnosticado cancro de mama há 15 anos, num exame de rotina. “ O médico ginecologista encontrou qualquer coisa na mamografia e mandou-me fazer uma ecografia mamária”, conta. O cancro não era palpável. “Não dei importância e andei com os resultados na carteira sem me preocupar até que, num fim de semana, os mostrei à minha cunhada, que é médica. Mandou-me estar na segunda-feira no hospital, porque não era uma brincadeira…”

O médico queria que fizesse uma mastectomia. Mas, depois de ouvir uma segunda opinião, Paula optou por não o fazer. “Confiei num outro médico e ainda bem”, recorda. Os tratamentos seguiram-se com 30 sessões de radioterapia.

Paula Villaverde amamentou três filhos mas essa prática, no seu caso, não diminuiu o risco de desenvolver cancro. Quando recebeu a notícia, a sua maior preocupação foram os seus filhos, até porque já haviam perdido o pai. “Não lhes falei em cancro, palavra ainda muito conotada com a morte. Disse que estava doente e que ia fazer tratamentos. Ter uma atitude positiva é fundamental”, diz. “É metade da cura; a outra meia cura é o diagnóstico precoce”, garante.

Voluntárias e psicóloga do Grupo de Apoio de Abrantes da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Créditos: mediotejo.net

O diagnóstico de Julita Silvestre chegou há 16 anos, em exames de preparação para outra cirurgia. Um mioma seguido pelo seu ginecologista, que naquele ano tinha aumentado de tamanho, levou o médico a marcar-lhe mais exames. “Apareceu uma imagem diferente, fiz biopsia e foi confirmado: cancro. Não estava nada à espera de ter cancro da mama, porque amamentei bastante e uma das informações transmitidas é que a amamentação é preventiva. Estava convicta que tinha tratado de mim nesse aspeto”, refere Julita.

“Foi um choque! Tive muito medo, um medo que não tinha sentido até então. Mas pensando nas minhas filhas, em primeiro lugar, não baixei os braços e fiz tudo para me tratar.”

Considera-se uma pessoa de sorte. “Nunca apalparia” aquele nódulo, explica, porque o cancro foi detetado numa fase muito inicial e “era do tamanho de um grão de açúcar”. Além da cirurgia, também Julita fez radioterapia, em 33 sessões, seguida de terapia hormonal.

Pouco tempo depois, nasceu em Abrantes o movimento ‘Um dia pela Vida’ e diz ter sentido a necessidade de estar presente, de apoiar e integrar a Liga.

TESTEMUNHO
Graça Costa: “Tive de aprender a tratar a dor por tu”

“De vez em quando a vida esbofeteia-nos e a verdade é que nunca estamos preparados para o atordoamento que a pancada nos provoca. Tenho gravado na memória como se fosse hoje o dia em que soube que tinha cancro de mama. Lembro-me de tudo até ao mais ínfimo pormenor. Da descarga de adrenalina, de ficar sem força nas pernas e das palavras estava a ouvir não me fazerem o menor sentido.
Lembro-me de ter chegado a casa e ter estado ao espelho durante muito tempo, primeiro calada, depois lavada em lágrimas, e depois numa conversa íntima com o bicho que o meu corpo albergava sem me ter pedido autorização.
Insultei-o de todas as formas que conhecia. Perguntei-lhe quem é que pensava que era, para aparecer assim sem pré aviso, para me virar a vida de pernas para o ar.
Sabia que precisava ser forte, por mim e pelos meus, mas não sabia muito bem como fazê-lo. Nunca tinha precisado de ser forte assim, e não tinha como pedir ajuda a alguém, porque sabia que a resposta e a ação tinham que partir de dentro de mim.”

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Ao Grupo de Apoio de Abrantes, com sede na rua Luís de Camões, nº 44, no centro histórico da cidade, chegam muitos pedidos de ajuda, talvez porque foi passando a palavra, ao longo dos anos, do apoio direto que prestam aos doentes. O voluntariado é “uma forma de dar testemunho de forma positiva e as pessoas percebem que o cancro da mama pode ser vencido”, diz Paula.

A este movimento de entreajuda junta-se ainda o grupo “Movapelar”, que apoia os doentes laringectomizados, e o “Mapo”, movimento de apoio à pessoa ostomizada. O “Vencer e Viver” acompanha e apoia atualmente 230 pessoas em Abrantes.

Instalações do Grupo de Apoio de Abrantes da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Créditos: mediotejo.net

Este domingo é Dia Nacional da Prevenção do Cancro da Mama, marcando o fim do “Outubro Rosa”, um movimento que nasceu nos EUA, na década de 90 do século passado, com o objetivo de inspirar a mudança e mobilizar a sociedade para a luta contra o cancro da mama. Desde então, por todo o mundo, a cor rosa é utilizada para homenagear as mulheres com cancro da mama, sensibilizar para a prevenção e diagnóstico precoce e apoiar a investigação nesta área.

Aliás, a investigação e formação na área da oncologia é um dos quatro pilares da Liga Portuguesa Contra o Cancro seguindo o pensamento “melhores ferramentas para melhor cuidado”. Os outros três passam pelo apoio ao doente, prevenção primária e prevenção secundária.

Caminhada da Liga Portuguesa Contra o Cancro em Abrantes. Créditos. Grupo de Apoio de Abrantes

Nas instalações, numa das salas, ainda restam caixotes com as camisolas do Outubro Rosa que sobraram da caminhada que realizaram a 22 de outubro. “A própria t-shirt é prevenção, é um motivo para falar do assunto”, nota Paula. A caminhada foi uma das iniciativas que promoveram este ano, tal como a distribuição de laços cor-de-rosa nas escolas. O mês de novembro será azul, com atividades para os homens, refere Matilde.

‘Um dia pela Vida’, em 2010, “foi a semente disto tudo, em que movimentámos a sociedade em geral, e foi quando aceitei o desafio”, recorda. “Foi muito empolgante. Além disso, hoje em dia não haverá quem não tenha alguém a quem o cancro tocou… Quando nos perguntaram o que fazia mais falta em Abrantes, dissemos que eram as consultas de psico-oncologia”, refere a voluntária.

Instalações do Grupo de Apoio de Abrantes da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Créditos: mediotejo.net

O Grupo de Apoio de Abrantes começou o seu trabalho numa garagem de dimensões mínimas e hoje agradece à Câmara Municipal as instalações com escritório, salas de consulta, copa e uma sala onde voluntárias e utentes convivem, conversam, criam suporte social e fazem trabalhos em tricô ou croché para depois vender na Feira Anual de Natal, ou em outras atividades da Liga, e ainda os corações de pano, uma estratégia de comunicação em forma de almofada para colocar debaixo do braço, que deixam no Hospital de Tomar – onde decorrem as cirurgias –, com os contactos do Grupo de Apoio e os serviços existentes em Abrantes.

Serviço de cabeleireiro oferecido às utentes do Grupo de Apoio de Abrantes da Liga. Créditos: Grupo de Apoio de Abrantes

“No mês rosa uma cabeleireira de Abrantes oferece a cinco senhoras indicadas por nós um serviço de cabelo, massagem, maquilhagem e unhas. E, durante o ano, oferece os mesmos serviços a uma senhora, por mês”, informa Paula.

Mesmo durante a pandemia, o Grupo manteve “sempre a funcionar o apoio social”, garante Matilde. “Encerrámos durante pouco tempo, por ordens superiores, naquele período mais critico, mas para as próteses apoiámos sempre, através de marcação”. As consultas de psico-oncologia também não foram canceladas, tendo a psicóloga recorrido às consultas online para dar apoio aos utentes.

As consultas de psico-oncologia destinam-se a doentes e familiares em qualquer fase da doença e não apenas na fase de diagnóstico ou de tratamentos, esclarece Cláudia Almeida, a psicóloga “a tempo inteiro” no Grupo de Apoio de Abrantes e que “não tem mãos a medir”, uma vez que atualmente as voluntárias já não precisam de motivar as pessoas para as consultas. “A pandemia veio pôr na ordem do dia a importância da saúde mental, também para a recuperação e para saber lidar com a doença”.

E essa é a função assumida por Cláudia. “Apoiamos na adaptação à doença, a lidar com as consequências emocionais e comportamentais e também com as limitações que o próprio tratamento e a doença provocam. As incertezas quanto ao futuro face às alterações na rotina diária dos doentes e dos familiares que muitas vezes veem a sua vida afetada pela doença dos seus entes queridos. É o mais difícil até de gerir e lidar porque têm aquele sentimento de incapacidade para o apoiar da melhor forma”, revela.

Instalações do Grupo de Apoio de Abrantes da Liga Portuguesa Contra o Cancro. Créditos: mediotejo.net

Outras questões apontadas passam pela “imagem corporal, sexualidade” e, em termos de prevenção, “de alteração de comportamentos que as pessoas devem mudar após a doença, de forma a prevenir uma recidiva”.

Minimizar o sofrimento do doente na fase terminal também é um trabalho assumido por Cláudia, que durante as consultas procura proporcionar algum conforto psicológico e apoiar familiares.

“A sensação que a pessoa tem quando está em fim de vida, que vai perdendo coisas, capacidades, a possibilidade de estar com pessoas porque perdeu a mobilidade, independência, autonomia… perdeu suporte social, familiar, porque entretanto não consegue lidar com a doença… há muitas vertentes”, enumera. Por isso, diz, temos de “ter empatia com o sofrimento”.

“É muito difícil aceitar que vamos morrer, apesar de ser algo tão natural. É-nos difícil aceitar que ninguém fica para sempre e que vamos ter de nos despedir um dia.”

O trabalho da Liga Portuguesa contra o Cancro passa pelo apoio ao doente oncológico e aqueles que o acompanham, quer no seio familiar quer no meio social, na promoção da saúde, na prevenção do cancro e no estímulo à formação e investigação em oncologia. Na área da prevenção, desde 2017 que as voluntárias do Grupo de Apoio de Abrantes percorrem as escolas, em campanhas de literacia em saúde, falando sobre os vários tipos de cancro, com alunos dos três ciclos de escolaridade.

Os serviços prestados gratuitamente pelo Grupo de Apoio de Abrantes são: consultas de piso-oncologia, apoio emocional, apoio social, fisioterapia (drenagem linfática), apoio jurídico, atividades lúdicas e convívio, reiki, maquilhagem e cabeleireiro. Funciona de segunda a sexta-feira, das 19h00 às 13h00 e das 14h00 às 18h00.

Trabalhos em tricô realizados pelas utentes da Liga Portuguesa Contra o Cancro em Abrantes. Créditos: mediotejo.net

E porque a grande dificuldade em diminuir a prevalência dos fatores de risco para o cancro da mama justificam uma prevenção secundária, isto é, que sejam concretizados procedimentos e atitudes de um diagnóstico o mais precoce possível das lesões malignas, a Liga desenvolve o Programa de Rastreio de Cancro da Mama (em colaboração com os Cuidados de Saúde Primários). Utiliza sobretudo Unidades Móveis que se deslocam de dois em dois anos a cada concelho e Unidades Fixas. São enviadas cartas-convites às mulheres em idade rastreável (50-69 anos) – a legislação alterou, alterando a idade que até 2017 era dos 45 aos 70 anos – inscritas nos Centros de Saúde, para realizar uma mamografia (exame gratuito).

“Ainda há cerca 30% das mulheres que não vão ao rastreio na Unidade Móvel. No concelho de Abrantes a taxa de participação ronda os 72%”, indica Matilde.

No dia da nossa visita ao Grupo de Apoio, Cláudia deu alta a uma senhora que teve cancro de mama há 20 anos. Manifestamente agradecida, Fernanda (nome fictício) disse ter aceitado “tudo muito bem”, apesar da mastectomia. “Quando tomo banho não é muito agradável olhar. As primeiras vezes foi um choque, mas habituei-me a pensar que é apenas uma questão de estética”.

A mulher afirmou ter no Grupo “uma das grandes ajudas” para a sua vida. “Tinha passado mais um mau bocado senão tivesse vindo aqui”, confessou.

Palavras animadoras para os voluntários. “A expressão da pessoa que sai é diferente de quando entra – até a postura física –, e isso em nós tem um impacto muito grande”, afirma Julita.

Para Matilde, “há situações complicadas, momentos duros… não somos profissionais de saúde, mas gera-se aqui um bom movimento de entreajuda. Somos uma casa aberta a todos e o que aqui se passa, aqui fica. Tentamos fazer um bom acolhimento a toda a gente”.

As camisolas do Outubro Rosa. Créditos: mediotejo.net

Além do rastreio de cancro de mama, o Grupo de Abrantes também promove o diagnóstico precoce do cancro da pele, desde 2017, e diagnóstico de lesões da cavidade oral, que arrancou este ano.

E porque os donativos representam a principal e quase única fonte de receita da Liga para a prossecução das suas finalidades, o peditório nacional decorre, este ano, de 28 de outubro a 1 de novembro.

“Durante a covid-19 o peditório foi complicado porque os voluntários pontuais eram pessoas mais velhas e tinham medo. Hoje em dia há muita gente nova a querer ajudar, a sensibilizar a sociedade para a ajuda ao outro. São 50 adolescentes, alunos do secundário, que oferecem o seu tempo para fazer o peditório. Enche-me de orgulho”, diz Matilde Santarém. “Aquele cliché que se recebe muito mais do que se dá é mesmo verdade.”

Cancro da mama com maior incidência em Alcanena

No Médio Tejo, na taxa de mortalidade padronizada por tumores malignos, no género feminino, o tumor que causou maior mortalidade foi o cancro da mama, com 15,1 por 100.000 habitantes, segundo os dados disponíveis no último “Diagnóstico da Situação de Saúde” na área de abrangência do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) do Médio Tejo, publicado em 2019.

O ACES Médio Tejo abrange onze concelhos: Abrantes, Alcanena, Constância, Entroncamento, Ferreira do Zêzere, Mação, Ourém, Sardoal, Tomar, Torres Novas e Vila Nova da Barquinha.

Nas utentes diagnosticadas com “neoplasia da mama feminina”, a proporção de mortes foi de 0,90%. Nesta proporção, o intervalo foi pequeno, com o valor mínimo a ter lugar no concelho de Ourém (0,78%) e o valor máximo no concelho de Alcanena (1,13%), segundos os dados relativos a 2017/2018. O jornal mediotejo.net solicitou ao ACES dados mais recentes, mas sem sucesso até ao momento desta publicação.

Por seu lado, o Centro Hospitalar do Médio Tejo (CHMT) informa que nos primeiros oito meses de 2022 foram seguidas 385 mulheres com cancro da mama. Destas, 305 foram tratadas em regime de ambulatório no Hospital de Dia do CHMT, 73 em regime de internamento (sujeitas a cirurgia ou por episódio médico que justificou o seu internamento) e 7 foram sujeitas a cirurgia de ambulatório (sem necessidade de internamento).

O cancro da mama é o tipo de cancro mais comum entre as mulheres (não considerando o cancro da pele), e corresponde à segunda causa de morte na mulher, sendo portanto um relevante problema de saúde pública e uma das doenças com maior impacto na sociedade, não só por ser muito frequente, e associado a uma condição de grande gravidade, mas também porque agride um órgão cheio de simbolismo, na maternidade e na feminilidade.

Na Europa existe um diagnóstico de cancro da mama a cada dois minutos e uma morte por cancro da mama a cada seis minutos.

Segundo a Liga Portuguesa Contra o Cancro, anualmente são detetados cerca de 7.000 novos casos de cancro da mama e 1.800 mulheres morrem com esta doença em Portugal.

O estudo “Católica H360º – Uma Visão Integrada do Cancro da Mama em Portugal”, apresentado na passada quarta-feira em Lisboa, desenvolvido pelo Instituto de Ciências da Saúde (ICS), revelou que, no nosso país, a taxa de cura ronda os 75 por cento. A prevenção e diagnóstico precoce revelam-se, por isso, fundamentais para o aumento da sobrevivência e manutenção da qualidade de vida da mulher.

Apesar de ser o tipo de cancro com maior número de casos na mulher – cerca de 1 em cada 100 cancros da mama desenvolvem-se no homem – a participação das doentes no rastreio ao cancro da mama ronda os 32%, tendo em conta a amostra das mulheres inquiridas para a referida investigação, em sete hospitais públicos e privados de norte a sul do país: Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto, IPO de Coimbra, Centro Hospitalar Universitário de Lisboa Norte, Centro Hospitalar Trás-os-Montes e Alto Douro (Unidade de Vila Real), Hospital do Espírito Santo, Évora, Centro Hospitalar Universitário do Algarve, Faro e o Hospital da Luz, em Lisboa.

Perante estes dados, os investigadores pedem a melhoria do acesso e adesão ao rastreio e a criação de uma via verde prioritária para exames no caso das doentes de cancro, segundo a agência Lusa.

No primeiro ano de pandemia (2020), perto de 450 mil rastreios ao cancros da mama (mas também do útero e do colo e reto) ficaram por realizar, bem como 29 milhões de exames complementares de diagnóstico e terapêutica, revela um outro estudo, “O impacto da pandemia covid-19 na prestação dos cuidados de saúde em Portugal”, promovido pelo Movimento Saúde em Dia, realizado pela consultora MOAI com dados do Portal da Transparência do Serviço Nacional de Saúde, recolhidos entre 25 de junho e 5 de julho de 2021.

Além das recomendações na área da literacia e da melhoria das equipas multidisciplinares, os investigadores do ISC apresentam igualmente recomendações no âmbito do acesso aos cuidados de saúde, sugerindo melhorar a adesão ao rastreio do cancro da mama nas doentes que não têm médico de família.

A investigação revela também que 91% das mulheres com cancro da mama recorrem a cirurgia e cerca de metade (48%) são sujeitas a mastectomia total [remoção completa da mama], um procedimento mais comum nas mulheres com menos de 60 anos.

Entre o diagnóstico e o início do tratamento passam, em média, cerca de dois meses (58 dias), podendo variar entre um mínimo de quatro dias e um máximo 180 dias.

Nas conclusões, o estudo propõe a integração regular entre especialidades médicas e não médicas (por exemplo nutricionistas, psicólogos, fisioterapeutas), considerados “fundamentais à gestão da doente com cancro da mama”.

Um dos pontos positivos revelados no estudo é a prática, cada vez mais comum entre as mulheres, de realizar o auto-exame. Sendo que “quase todas as doentes mantiveram avaliação por mamografia anual e avaliação clínica a cada 6/12 meses nos primeiros cinco anos após a cirurgia primária”, revela também a investigação.

Neste ponto, todas as mulheres a partir dos 20 anos, no caso de existir cancro na família, ou com mais de 40 anos, sem casos de cancro na família, devem realizar o auto-exame da mama como prática de prevenção do cancro. Tal prática ajuda a conhecer melhor o corpo, permitindo maior atenção a possíveis alterações que possam surgir na mama.

Para o auto-exame da mama são necessários três passos, que incluem fazer observação em frente ao espelho, palpar a mama de pé e repetir a palpação deitada. O auto-exame da mama pode ser feito uma vez por mês, entre o 3º e o 5º dia após a menstruação, altura do mês em que as mamas estão mais flácidas e indolores, ou fixando uma data, no caso das mulheres que já não têm menstruação.

Quanto às causas exatas do cancro da mama, não são conhecidas. No entanto, foram identificados alguns fatores de risco: a idade (80% de todos os tipos de cancro da mama ocorre em mulheres com mais de 50 anos); alterações em determinados genes, transmitidas pelos pais, estão na origem de cerca de 5% a 10% dos casos; o excesso de peso; o consumo de tabaco ou o consumo excessivo de álcool ; primeira menstruação em idade precoce (antes dos 12 anos) e menopausa tardia (após os 55 anos).

Importa igualmente saber que o cancro da mama pode causar alterações físicas visíveis, que devem ser observadas com atenção, designadamente qualquer alteração na mama ou no mamilo, quer no aspeto quer na palpação; qualquer nódulo ou espessamento na mama, perto da mama ou na zona da axila; sensibilidade no mamilo; alteração do tamanho ou forma da mama; retração do mamilo (mamilo virado para dentro da mama); pele da mama, aréola ou mamilo com aspeto escamoso, vermelho ou inchado; pode apresentar saliências ou reentrâncias, de modo a parecer “casca de laranja”; secreção ou perda de líquido pelo mamilo.

Direitos gerais do doente oncológico

É numerosa e avulsa a legislação que pretende dar uma resposta solidária ao doente oncológico, no momento em que mais precisa. Mas estes benefícios fiscais e laborais, entre outros, são muitas vezes desconhecidos. Para facilitar, a Liga Portuguesa Contra o Cancro criou o ‘Guia dos Direitos Gerais do Doente Oncológico’, uma ferramenta para esclarecimento dos doentes com cancro e também dos profissionais de saúde.

O doente oncológico tem direito, por exemplo, a Isenção das taxas moderadoras; Transporte; Benefícios fiscais; Benefícios no Crédito à Habitação; Benefícios no Crédito para Aquisição ou Construção de Habitação Própria; Benefícios ao nível do arrendamento; Isenção no imposto sobre veículos e imposto único de circulação (viatura no nome do doente); Benefícios nas contas poupança reforma; Comparticipação na medicação oncológica não fornecida pelo hospital; Comparticipação das despesas com próteses ou outros produtos de apoio; Medidas de estímulo ao emprego; Proteção especial na invalidez.

Para usufruir dos seus direitos, o doente oncológico precisa de ter um Atestado Médico de Incapacidade Multiusos. Trata-se do único documento que prova ser um doente oncológico, no qual constará a sua percentagem de incapacidade. O doente deve pedir ao médico assistente no hospital onde está a ser acompanhado um relatório clínico para esse fim. Posteriormente, deve entregar esse relatório no Centro de Saúde da sua área de residência, com um requerimento de pedido de avaliação da incapacidade, dirigido ao presidente da Junta Médica.

Paula Mourato

A sua formação é jurídica mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 a Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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