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De vez em quando a vida esbofeteia-nos e a verdade é que nunca estamos preparados para o atordoamento que a pancada nos provoca. Tenho gravado na memória como se fosse hoje o dia em que soube que tinha cancro de mama. Lembro-me de tudo até ao mais ínfimo pormenor. Da descarga de adrenalina, de ficar sem força nas pernas e das palavras estava a ouvir não me fazerem o menor sentido.

Lembro-me de ter chegado a casa e ter estado ao espelho durante muito tempo, primeiro calada, depois lavada em lágrimas, e depois numa conversa íntima com o bicho que o meu corpo albergava sem me ter pedido autorização.

Insultei-o de todas as formas que conhecia. Perguntei-lhe quem é que pensava que era, para aparecer assim sem pré aviso, para me virar a vida de pernas para o ar.

Sabia que precisava ser forte, por mim e pelos meus, mas não sabia muito bem como fazê-lo. Nunca tinha precisado de ser forte assim, e não tinha como pedir ajuda a alguém, porque sabia que a resposta e a ação tinham que partir de dentro de mim.

É muito difícil definir a sensação de solidão que nos assola nessas alturas. Podemos ter todo o apoio das pessoas que amamos e que nos amam e eu tive e tenho, do meu marido, dos meus filhos e de algumas pessoas amigas mas, mesmo assim, estamos profundamente sozinhos, porque o processo é profundamente solitário e nos apanha sempre em momentos de grande vulnerabilidade, física, psicológica ou ambas.

Quando estamos assim frágeis, parece que até a pele geme baixinho e tudo dentro de nós sussurra em dor, magoado, incompreendido, de certa forma marginal.

Tive que aprender a tratar essa dor por tu. Tive que aprender a não a deixar cavalgar a onda, porque se deixasse, com toda a certeza me sufocaria.

Com o tempo e o decorrer do processo, percebi que me tornei numa pessoa mais forte porque não me resignei, porque recusei inevitabilidades, e porque acreditei que tinha uma palavra a dizer a esta doença que ameaçava quebrar-me.

“Ser forte é continuar a voar alto, depois de te arrancarem as asas”, li algures. Fez-me muito sentido e transformei-a num incentivo extra para enfrentar as contrariedade com que a vida me presenteara.

Não vou falar nem dos tratamentos nem das cirurgias, porque cada processo é individual e cada pessoa passa por situações diferentes e tratamentos diferentes. É confiar na medicina, preparar-nos para o pior e esperar pelo melhor.

O que considero mesmo importante partilhar convosco é a aprendizagem e o autoconhecimento que este processo me proporcionou , a reinvenção de mim que ocorreu.

Nunca fui capaz de dizer, como a Irina, “Cancer I love you”, mas passei por uma metamorfose imensa, redefini totalmente as minhas prioridades e concretizei alguns sonhos que tinha vindo a adiar. 

Aprendi a gratidão imensa por cada novo dia, por uma atenção cirúrgica aos pormenores que me cercavam, por uma triagem fina do que merecia ou não a minha atenção. Diria mesmo que o cancro me tornou melhor pessoa, porque mais atenta, porque mais sensível, porque mais humana, porque mais desapegada das trivialidades, dos modismos e dos diz que disse.

Tornei-me também muito mais consciente de mim, de quem sou, do que me faz bem, de quem me faz bem e vive versa. A consciência da efemeridade da vida e o viver cada dia como se fosse o último, passou a fazer tanto sentido, que se tornou máxima de vida. 

Eu, que passei tanto tempo da minha vida a sofrer por antecipação (tão tola !), tornei-me numa pessoa mais otimista, com uma fé sólida e uma alegria quase constante.

O porquê é, na verdade, bastante simples: aprendi a aceitar, aprendi a acreditar em mim e, neste caso, também na medicina. Aaprendi a lutar, aprendi a não deixar de sorrir e aprendi ser grata pela vida. 

Não sei se me irei curar, porque ainda estou no processo e poderei um dia ser vencida, mas de uma coisa tenho a certeza: nunca deixarei de dar luta e que nunca me resignarei.

Não sou ninguém para dar conselhos mas, ainda assim atrevo-me a partilhar algumas coisas que considero muito importantes:

Por favor, não ignorem sintomas. 
Façam os rastreios. 
Consultem o médico à mínima suspeita. 
Não se isolem. 
Façam uma boa alimentação. 
Façam exercício físico. 
Meditem. 
Passeiem. 
Desfrutem das pequenas coisas. 
Orem (seja a que Deus for). 
Amem muito. 
Amem-se muito.

Hoje o cancro de mama já não traz, necessariamente, agarrado a si uma sentença de morte, mas nós temos que fazer a nossa parte e ajudar a medicina a fazer o seu, mantendo-nos positivas e de esperança em riste.

Graça Costa

Vive em Tomar, tem 59 anos. Mulher, mãe, socióloga, escritora, apaixonada pela vida.

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