A Clara acaba de completar um mês de vida e já enche de alegria toda uma casa. Os nascimentos são sempre motivo de celebração, sobretudo quando se trata de uma aldeia pequena, mas esta é uma crónica sobre a desertificação, fica o aviso, para que nenhum leitor continue ao engano.
É a matemática que nos refreia o contentamento. 4-2 no marcador e ainda o ano vai a meio. Clementina, Natividade, Maria José, Florêncio: só este ano já morreram quatro pessoas na minha aldeia. Sei-lhes os nomes como sei o de todos os restantes habitantes. Não serão mais de 180, no total. Foi a percorrer todas as ruas e todas as casas, nas manhãs frias e douradas do Dia de Todos os Santos, que lhes fui sabendo os nomes e conhecendo a generosidade.
Há trinta anos, as crianças da minha aldeia formavam pequenos grupos para o peditório dos Bolinhos, tradição antiga que ainda hoje se cumpre. “Tia tia, bolinhos bolinhos, em louvor de todos os santinhos.”
Ainda a manhã ia a meio e já regressávamos a casa com os taleigos cheios de moedas, algumas romãs e nenhum rebuçado. Depois do almoço, metade das moedas no mealheiro, a outra metade no bolso, liberdade para escolher qualquer coisa na centenária Feira dos Santos em Mação.
De novo a ansiedade, a expectativa de chegar à vila, percurso maldito de curvas e contracurvas, sacos de plástico para acudir a alguma indisposição momentânea, meia dúzia de quilómetros em contagem decrescente até aos arredores do centro, carros, gente e vida por todo o lado. Parece magia aos olhos de uma criança.
Centenas de pessoas, vindas de todos os cantos do concelho, mais de 120 aldeias, famílias completas a aviar-se para os próximos meses, cumprimentos, dois dedos de conversa, compras feitas, o regresso a casa.
Passaram (apenas) trinta anos, os pais acompanham agora as crianças, que já pouco se juntam para cumprir a tradição. São os pais que lhes dizem quais as casas habitadas, lhes escondem metade das guloseimas que substituíram moedas e romãs, e são os pais – as crianças que outrora percorriam a correr toda a aldeia – que agora se demoram em cada alpendre tentando enganar alguma solidão e outras tristezas.
À tarde, como antigamente, pais e filhos passeiam igualmente pelas ruas de Mação. Há feirantes e animação, inventaram-se novas atrações, mudou-se o programa no cartaz mas há cada vez menos pessoas.
É difícil falar do futuro quando penso na minha aldeia. O que será dela e de todo este território, a meio caminho entre o litoral e Espanha? Como estará amanhã, em 2025, como bem pergunta Vasco Estrela?
Timoneiro, não se cansa de repetir o que tantos já sabem mas preferem ignorar. É urgente que alguém ouça estas vozes. Mação, Vila de Rei, Proença-a-Nova, Oleiros, Sardoal… Mais do que dinamizar a economia ou fixar população, o fundamental, parece-me, é que o país não desista do interior. Ainda vamos a tempo.
No passado fim de semana nasceu na minha aldeia mais uma bebé. Sê muito bem-vinda, Olívia.
