“Rezaram e fizeram promessas por eles. Escreveram-lhes centenas de aerogramas, adiando o amor, às vezes sem volta. Tornaram-se madrinhas de guerra de homens que nem sequer conheciam. Foram com eles para o território desconhecido de África, que amaram ou odiaram, ou resignaram-se a esperar por eles, com filhos nos braços. Voaram para os resgatar do mato, onde chegaram mesmo a morrer por eles, e organizaram-se, com maior ou menor cunho ideológico, para lhes aliviar a saudade, enquanto apoiavam as suas famílias. Arriscaram por eles, protegendo-lhes a retaguarda, contestando a guerra, desertando sem saberem quando voltariam ao seu país, mergulhando na clandestinidade e aderindo à luta armada, sujeitas às sevícias da polícia política e perdendo a juventude nas masmorras da prisão. Trataram deles quando voltaram, mutilados e traumatizados, e habituaram-se a amar homens diferentes daqueles com quem haviam casado. Cada uma à sua maneira, as protagonistas deste livro foram pioneiras, desbravando caminhos outrora vedados às mulheres. Mães, irmãs, filhas, amantes, companheiras, amigas, muitas mulheres viveram a guerra colonial como se também elas tivessem sido mobilizadas. Depois da guerra, também para elas nada foi como dantes.”
Jornalista há 25 anos, Sofia Branco tem-se dedicado a investigar sobretudo questões de direitos humanos e direitos das mulheres, bem como a história do 25 de Abril e da guerra colonial. Jornalista do Público entre 1999 e 2009, teve vários artigos premiados nessa década, nomeadamente uma série de reportagens sobre a mutilação genital feminina em Portugal, uma realidade até então praticamente desconhecida no nosso país. Esse trabalho foi distinguido, entre outros prémios, com a Medalha de Ouro da Assembleia da República.
Sofia Branco é atualmente jornalista da Agência Lusa, presidente da Associação Literacia Para os Media e Jornalismo, professora convidada no ISCTE e formadora regular no Cenjor. Foi presidente do Sindicato dos Jornalistas entre 2015 e 2022. Com um mestrado em Direitos Humanos, está neste momento a terminar o doutoramento em Sociologia, com uma tese sobre as mulheres dos Capitães de Abril. Um trabalho que, como explicou em entrevista ao nosso jornal, decidiu iniciar na sequência da publicação de “As Mulheres e a Guerra Colonial” (Ed. Esfera dos Livros, 2015), que apresenta este domingo, dia 9 de março, pelas 16h00, no cineteatro de Constância, após a re-inauguração da exposição “Adeus, até ao meu regresso! – Memórias da Guerra Colonial de Ex-combatentes do Concelho de Constância”.
Este livro reune as histórias de 49 mulheres que viveram o período da Guerra Colonial de forma muito diferente, mas igualmente transformadora. Qual foi o ponto de partida para este trabalho?
No início, a ideia foi olhar para a Guerra Colonial de forma diferente, e mais abrangente, e não do ponto de vista clássico, através dos testemunhos de combatentes. Apesar de haver muita literatura sobre o assunto, não havia esta perspectiva das mulheres, de como é que elas viveram a guerra.
Escreves que muitas mulheres viveram a guerra como se também tivessem sido mobilizadas, e que, depois, também para elas nada foi como dantes. Referes-te aos casos em que namoraram ou casaram com homens que voltaram como se fossem outras pessoas, por exemplo, ou também a outro tipo de situações?
A todas. Independentemente de os terem acompanhado ou não (porque algumas viveram nas ex-colónias), foi como ir à guerra na mesma. Fica claro que foram sempre vítimas colaterais. Aliás, há mesmo o conceito de “stress pós-traumático a vítimas secundárias”, que se aplica às famílias – às mulheres e aos filhos, por exemplo. Mas não são só as mulheres que namoraram ou casaram com combatentes, são também as mães, as madrinhas de guerra que se corresponderam com muitos homens que nem sequer conheciam, as mulheres que contestaram a guerra e lutaram pelo seu fim na clandestinidade … a guerra colonial marcou toda uma geração – e não apenas os homens.
Dez anos depois da 1ª edição deste livro, faria sentido um 2º volume, ou uma edição revista e aumentada? Há ainda muitas histórias por contar, por investigar?
Estou a trabalhar na possibilidade de publicar uma nova edição, aumentada, porque entretanto passaram 10 anos, tive acesso a novos dados e também estou agora em condições de contar uma história que não foi possível incluir nessa 1ª edição. Por isso publiquei 49 histórias e não 50… este ano faria particularmente sentido, uma vez que marca os 50 anos da descolonização.

