Semana Santa de Sardoal 2025. Visita aos tapetes de flores nas capelas e igrejas da vila. Créditos: mediotejo.net

A Semana Santa de Sardoal é atualmente Património Cultural Imaterial Nacional, mas a tradição dos tapetes de flores nas igrejas e capelas de Sardoal, durante a Páscoa, já existia com grande esplendor no século XIX. O facto de a Páscoa ser para os católicos a festa mais importante, porque celebra a “Salvação”, essa verdade não escapa nem aos sardoalenses nem a quem os visita na fé, na partilha, e na curiosidade de conhecer as tradições locais.

Enfeitar o interior das Igrejas e Capelas com tapetes de flores é uma das mais emblemáticas cerimónias da Semana Santa e regressou uma vez mais para surpreender até aqueles que visitam esta arte anualmente.

Há uma teoria sugestiva sobre a criação dos tapetes de flores, que atualmente são instalações de arte que saem da mente criativa e das mãos habilidosas dos populares inspirados pelo tema da Semana Santa, contendo símbolos eucarísticos, como a cruz, as velas, o sol, o pão, ou a figura de Cristo. Conta-se que, em 1303, aquando de uma vista da Rainha Santa Isabel a Sardoal, na pobreza e sem tapetes persas para receber condignamente a rainha consorte de Portugal, fizeram-se tapetes de flores.

Especulação ou lenda, facto é que a tradição dos tapetes feitos à base de pétalas de flores e verduras naturais perdurou ao longo dos tempos, mantendo-se não só em Sardoal como se estendeu, desde há 11 anos a outros templos, sendo atualmente 12 capelas e igrejas do concelho fora da vila, para apreciação de todos a partir de Quinta-feira Santa.

Semana Santa de Sardoal 2025. Visita aos tapetes de flores nas capelas e igrejas da vila. Créditos: mediotejo.net

A visita começou pela Igreja da Matriz, uma visita guiada por João Soares, técnico de Conservação e Restauro da Câmara Municipal de Sardoal. O templo é o elemento patrimonial mais importante do concelho. Foi construída nos finais do século XIV ou século XV. Possui elementos de várias épocas, Gótico, Renascimento, Barroco até ao Neoclássico. Do século XVI os elementos mais importantes são seguramente as tábuas do Mestre do Sardoal. O altar-mor em talha dourada, do período Barroco Joanino, e os painéis de azulejos de Gabriel del Barco são outros elementos a destacar.

Nesta quinta-feira, 17 de abril, na visita à Igreja Matriz, o presidente da Câmara Municipal voltou a referir a urgência da preservação daquele património dos finais do século XIV, com as necessárias obras de recuperação a poderem ser agora uma realidade através dos Instrumentos Territoriais Integrados. O templo apresenta graves problemas de conservação, não só do edifício como do património integrado e móvel. O primeiro concurso para a realização da empreitada ficou deserto e em breve será lançado um segundo concurso. Miguel Borges manifesta-se otimista e acredita que as obras ainda se iniciem em 2025.

Numa primeira fase “é garantir os vãos, as infiltrações, o telhado, os isolamentos. Travar a possibilidade de um património riquíssimo continuar em degradação. Claro, que depois há outros pormenores nos quais é preciso intervir. O altar mor também vai ser intervencionado, depois algumas pinturas que é preciso restaurar mas isso, passo a passo”, disse Miguel Borges.

A Igreja Matriz da Paróquia de São Tiago e São Mateus que possui três naves, rosácea e do lado esquerdo, a Capela lateral dedicada ao Sagrado Coração de Jesus onde estão as Tábuas do Mestre Sardoal, deixadas por Vicente Gil e Manuel Vicente, é uma das mais importantes heranças culturais e artísticas do concelho.

A importância da oficina do Mestre do Sardoal para a História da Arte Portuguesa centra-se na transição do estilo gótico para o renascentista, designados por “Primitivos Portugueses”.

Semana Santa de Sardoal 2025. Visita aos tapetes de flores nas capelas e igrejas da vila. Créditos: mediotejo.net

Nessa igreja, com cortinas e passadeiras em tom carmim, um retábulo para onde é transladado o “Santíssimo” após a cerimónia do lava pés – já se pode observar as toalhas em repouso nas cadeiras enfileiradas – , não se instalou um tapete de flores. A tradição passa pela ornamentação do altar com mais de 30 vasos de trigo germinado no escuro, adquirindo por isso uma tonalidade amarela esverdeada. Esse trabalho de fazer nascer o trigo – o símbolo eucarístico do renascimento – está nas mãos de José Martins há cerca de 50 anos. Ali será adorada a hóstia consagrada. Todos os anos a decoração é a mesma, simbolizando a ressurreição depois da primeira Eucaristia; a consagração do pão.

Do lado direito, retábulo da Nossa Senhora da Conceição e outras esculturas cenográficas na tentativa de aproximação do real. A estátua, tal como uma outra representando a Senhora das Dores, veste-se de cabelo verdadeiro para dar sentido de realidade a quem a observa, à semelhança do que se fez em Sevilha, na vizinha Espanha. São imagens que guardam grande carga emocional.

Semana Santa de Sardoal 2025. Visita aos tapetes de flores nas capelas e igrejas da vila. Créditos: mediotejo.net

Estando nas proximidades da Igreja Matriz, seguiu-se a Igreja da Misericórdia, marco da arquitetura da Renascença na região, uma Igreja do século XVI, conforme inscrição epigráfica numa das pilastras do pórtico (1551), com decoração típica da renascentismo, cujo ícone é uma Nossa Senhora que carrega um manto num simbolismo de proteção de todos os povos. No entanto, remonta à década de 1370, quando o rei D. Fernando I e a rainha D. Leonor aqui se refugiaram da peste que grassava em Lisboa, mandando erigir uma pequena Ermida.

Os ornamentos renascentistas nos pórticos e numa janela atestam a feitura quinhentista deste equipamento, para além dos testemunhos documentais que revelam uma segunda remodelação no início da segunda metade da centúria de quinhentos. Realce ainda para a confirmação da Misericórdia de Sardoal pelo Papa Inocêncio IV (1554), com o título de Confraria de Santa Maria do Hospital. Curiosamente esta igreja não segue as normas de orientação clássicas, sendo a sua capela-mor orientada para poente.

No corredor em repouso, aguardando até à noite a Procissão do Senhor da Misericórdia (ou Fogaréus), painéis representando Cenas da Paixão de Cristo, pertença da Misericórdia. Mais à frente a primeira instalação que vimos, o tapete de flores cujo desenho transporta o visitante para o Sagrado Coração de Jesus, com a cruz ao alto.

Os materiais que o compõem são de origem natural. Flores silvestres e carrasca de pinheiro. Estão também presentes seis cores distintas com diferentes significados: roxo (paixão de Cristo), castanho (terra, renascimento e ressurreição); verde (esperança, cura e caridade); branco (luz divina, paz e redenção); amarelo (luz divina) e vermelho (cor litúrgica que simboliza o sangue de Jesus Cristo derramado na cruz, o martírio e o amor divino).

Semana Santa de Sardoal 2025. Visita aos tapetes de flores nas capelas e igrejas da vila. Créditos: mediotejo.net

Na Capela do Espírito Santo a instalação de arte floral desenhando três cruzes num espaço central, havendo à entrada um aglomerado de flores e arbustos para ser pisado pelos visitantes. É aromático, exala fragrâncias de rosas, de alfazema, de rosmaninho, de alecrim, de bucho e camélia.

O objetivo é dotar o ambiente de aromas que “inebriem o Senhor”. Entre o tapete e esse corredor florido pétalas de flores em tons rosa com uma salva de prata recolhe dádivas em dinheiro que os mais caridosos queiram deixar. A representação da Capela é Pentecostes em celebração da descida do Espírito Santo. Vê-se uma pomba debaixo da barba do ‘Pai’, insinuando o sopro de Deus.

Aguardava-nos seguidamente a Capela de Nossa Senhora do Carmo, na Casa Grande, habitação do bispo do Brasil e primaz da rainha Dom Gaspar Barata Moura Mendonça. A Capela, após as obras de restauro e instalação do Centro de Interpretação da Semana Santa, volta a receber os enormes tapetes florais. O Centro de Interpretação, instalado atrás do altar, tem por objetivo combater a sazonalidade turística e que a Semana Santa possa ali ser recriada e visitada durante os 365 dias do ano. O tapete floral acompanha o estilo rococó em tons de roxo, amarelo e branco, com uma enorme pomba ao centro.

A Capela de Santa Catarina, tal como a Capela de Sant’Ana, foram em tempos capelas particulares de famílias que as doaram à paróquia de Sardoal. Na de Santa Catarina – construída no século XVIII, sendo a capela privada do solar da família Serrão da Motta, apresenta uma construção simples, com arco de volta perfeita rematado por volutas e, sobre estas, uma cruz ladeada por duas setas. De uma só nave, a capela-mor está decorada com um retábulo de estuque com nichos para as imagens expostas. A imagem de Santa Catarina encontra-se ao centro com o Anjo da Guarda à esquerda e Santo Isidro à direita – pode contemplar-se um tapete de flores elaborado pelo GETAS – Grupo Experimental de Teatro Amador de Sardoal, alusivo à cruz de Cristo e à rainha Santa Isabel.

Na Capela de Sant’Ana impera a “palavra”, com um surpreendente desenho de Cristo carregando a Cruz, um tapete que se eleva do chão, utilizando pétalas de flor roxas, rosa, amarelas, brancas, carrasca de pinheiro e cortiça.

Na Capela do Senhor dos Remédios, encontra-se o tapete elaborado por Laura David, aluna vencedora da edição 2025 do Projeto Capela. E ao lado na igreja conventual de Santa Maria da Caridade, no mosteiro, um tapete da autoria da Santa Casa da Misericórdia em tons de verde, roxo, amarelo e branco.

Semana Santa de Sardoal 2025. Visita aos tapetes de flores nas capelas e igrejas da vila. Créditos: mediotejo.net

A Capela do Senhor dos Remédios foi mandada edificar por Frei Joaquim de Vale de Prazeres no século XVIII e, a 16 de agosto de 1743, foi ali colocada a imagem do Senhor dos Remédios, como consta num documento histórico. O templo está revestido a azulejo, com cenas referentes à Paixão de Cristo. A imagem do Senhor dos Remédios encontra-se no trono do pequeno retábulo em talha dourada.

A Igreja de Santa Maria da Caridade datada de 1571, foi construída pelos monges franciscanos da Província da Soledade. Em 1676 é ampliada e reedificada por decisão de D. Gaspar Barata de Mendonça, primeiro Arcebispo da Baía de Primaz do Brasil.

O desenho do tapete floral presta homenagem à Igreja de Santa Maria da Caridade inspirando-se nos elementos vegetalistas do seu púlpito do século XVIII, nomeadamente as folhas de acanto. Motivo este recorrente na decoração barroca, estas folhas simbolizam beleza, pureza e triunfo. Ao longo da história da arquitetura, foram utilizados como ornamento, evocando a natureza e a resistência. Estes motivos destacam-se pela extrema delicadeza e beleza do seu recorte, com um movimento pronunciado, característico do século XVIII. Para a sua criação, foram utilizadas flores naturais como alecrim, buxo, pampilhos, moita e glicínias.

Semana Santa de Sardoal 2025. Visita aos tapetes de flores nas capelas e igrejas da vila. Créditos: mediotejo.net

A nível arquitetónico, a igreja apresenta uma só nave com altar-mor e duas capelas laterais. Na capela-mor destaca-se a pintura do brasão do Arcebispo da Baía, com as armas de algumas mais nobres famílias locais: os Mendonça, os Vasconcelos, os Mouras e os Baratas. Os restos mortais de D. Gaspar Barata de Mendonça repousam aí, num mausoléu assente sobre três leões, debaixo do brasão familiar.

O retábulo do altar-mor é de talha dourada do século XVII, onde encontramos a imagem primitiva de Nossa Senhora da Caridade, em pedra, dó século XIV. No altar colateral, do lado da Epístola, podemos observar três pinturas sobre tábua de Santa Clara, Santa Isabel e a Aparição da Virgem a São Francisco (século XVII). O altar colateral do Evangelho é dedicado a Nossa Senhora da Esperança.

Por baixo deste encontramos um raro oratório de arte de inspiração japonesa ‘Namban’ doado, a 7 de setembro de 1670, por Dona Jerónima de Parada, viúva de Gaspar de Sousa Lacerda, que se encontra sepultada junto ao altar.

É então, uma igreja com dois retábulos, relicário, maneirista com transição para o barroco, vindo de Nagazaki, Japão, obra dos jesuítas, o oratório de arte ‘Namban’, arte produzida pelos nativos japoneses de Nagazaki para a Europa. Sendo que existem 25 em todo o mundo e apenas dois com aquele tamanho, explicou João Soares.

Trata-se de uma pintura a óleo sobre cobre com a figura da Virgem. Toda a decoração prende-se com temas nipónicos como a laranjeira e o pessegueiro que representam a pureza e a família.

A sacristia do convento, onde se guardam os paramentos e as alfaias litúrgicas, é de 1720, em talha gorda com pinturas de óleo sobre tábua onde também está presente o gosto nipónico com desenhos de folhas de pessegueiro e pagodes.

Um amituário para guardar o amitos, uma espécie de golas que fazem parte dos paramentos, e uma credência (mesa) do século XVIII em mármore português. A peça mais rara da sacristia é uma caldeirinha de água benta em bronze. Os freixos plantados à volta do convento vieram na nau de Vasco da Gama de Nagazaki há 500 anos.

Semana Santa de Sardoal 2025. Visita aos tapetes de flores nas capelas e igrejas da vila. Créditos: mediotejo.net

Mais em baixo, no Centro Cultural Gil Vicente, está o tapete desenhado por Matilde Reis, 2º classificado do concurso ‘Projeto Capela’ 2025, construído por mais de três dezenas de crianças e jovens, participantes nesta oficina, na qual vivenciaram e experienciaram de perto a tarefa de elaborar um dos tradicionais tapetes de flores, que pela Páscoa adornam as Capelas e Igrejas do Concelho de Sardoal.

Nesta Semana Santa de Sardoal, que será a última de Miguel Borges enquanto presidente da Câmara de Sardoal, o autarca, perante a pergunta de como se sentia neste final de mandato, confessou-se bem. “Sinto-me bem, sinto-me confortável, com alguma emoção. Não porque para o ano já não sou presidente de Câmara, sabia que havia a limitação de mandatos, e mesmo assim os sardoalenses tiveram a generosidade de me deixar estar 12 anos, a opção poderia ser outra”, nota.

“Da nossa parte houve um grande empenho e uma grande dedicação, muito trabalho. Se isso se refletiu naquilo que os sardoalenses esperavam de nós? Julgo que sim. Se fizemos tudo? Não. Há muita coisa para fazer. A Semana Santa do próximo ano terá outro cunho, certamente, pelo menos a parte da programação não religiosa. Pessoas novas com outra forma de pensar, outra forma de ver as coisas, e é bom”, considerou.

Semana Santa de Sardoal 2025. Visita aos tapetes de flores nas capelas e igrejas da vila. Créditos: mediotejo.net

Para 2026, Miguel Borges disponibilizou-se como sardoalense “muito participativo, disponível para colaborar, nas procissões tocar na igreja como faço há muitos anos e farei sábado e domingo”.

Falando da programação complementar da Semana Santa de Sardoal e também dos tapetes de flores confessa-se “sempre surpreendido” com a criatividade dos sardoalenses.

“São sempre diferentes. Até porque, sendo a Páscoa alta ou Páscoa baixa, têm um colorido completamente diferente, porque há mais ou menos flores. Mas na verdade os sardoalenses transcendem-se neste momento. Conseguimos sempre ter uma alegria imensa naquilo que vemos, mesmo na simplicidade que alguns têm, mas é a simplicidade com alguns tapetes mais elaborados que fazem esta riqueza. No fundo é a dedicação dos sardoalenses e o orgulho destas crianças que fizeram estes tapetes. Surpreende-me sempre!”.

ÁUDIO | PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DE SARDOAL, MIGUEL BORGES

Os tapetes nos templos refletem o empenho com que a comunidade sardoalense trabalha e se envolve na Semana Santa. É um trabalho minucioso que se prolonga durante dias e uma noite madrugada fora, nas vésperas das celebrações da Semana Santa. Dezenas de pessoas dedicam-se aos desenhos a recriar, à imaginação da paleta de cores, à escolha das flores certas a combinar. As gerações mais velhas ensinam as mais novas e assim se passam os segredos da tradição e da arte de fazer os tapetes de flores que decoram as capelas durante a Páscoa.

Sempre relacionados com símbolos pascais e religiosos, os tradicionais tapetes floridos colocam crentes e descrentes de olhos postos no chão, os mesmos que se levantam na contemplação obrigatória do património histórico, religioso e nas peças de arte sacra.

As aldeias do concelho juntam-se à iniciativa no adorno das Igrejas e Capelas fora do centro da vila. Presa, Panascos, Vale de Onegas, Santiago de Montalegre, Mivaqueiro, Valhascos (S. Bartolomeu), Venda Nova, São Simão, Entrevinhas, Monte Cimeiro, Cabeça das Mós e Andreus também embelezaram os seus templos religiosos nesta edição da Semana Santa de Sardoal, podendo ser visitados até domingo de Páscoa.

A Semana Santa de Sardoal, que engloba um programa complementar com exposições, concertos e outros momentos culturais, iniciou com a Procissão dos Passos do Senhor, seguindo-se a dos Ramos, no domingo, dia 13, a dos Fogaréus (dia 17), e a do Enterro do Senhor (dia 18), culminando com a Procissão da Ressurreição, no domingo de Páscoa (dia 20).

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A sua formação é jurídica e a sua paixão é História mas, por sorte, o jornalismo caiu-lhe no colo há mais de 20 anos e nunca mais o largou. É normal ser do contra, talvez também por isso tenha um caminho feito ao contrário: iniciação no nacional, quem sabe terminar no regional. Começou na rádio TSF, depois passou para o Diário de Notícias, uma década mais tarde apostou na economia de Macau como ponte de Portugal para a China. Após uma vida inteira na capital, regressou em 2015 à cidade natal; Abrantes. Gosta de viver no campo, quer para a filha a qualidade de vida da ruralidade e se for possível dedicar-se a contar histórias.

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