Volta que não volta, as sardinhas voltam a motivar a minha atenção porque ao longo dos séculos foi sustento marítimo das populações costeiras e do interior após mil trabalhos para chegarem ao destino. Tenho escrito acerca desta popular espécie, a qual está registada nos anais desde a Idade Média como elemento alimentar das populações de menos recursos, constituindo, na companhia do chicharro e do carapau, a base da dieta piscícola vinda do mar, embora apareçam outras variedades, no entanto sem a intensidade da tríade, e nesta, a sardinha.
O Verão está à porta, mais ainda os Santos menos reservados, menos recatados, menos sisudos. Por isso mesmo também pertencem ao registo popular, longe do popularucho rasca ou não fosse Santo António doutor da Igreja e exímio orador sacro, S. João grande arauto da chegada de Jesus Cristo a quem baptizou nas margens do rio Jordão e S. Pedro pescador de almas e chaveiro das portas do Céu.
Ora, a sardinha, peixe azul das dietas, transformou-se no elemento primacial dos comeres dos dias de exaltação daqueles Santos. Os foliões não prescindem delas regalando o palato, enchendo a barriga, prodigalizando lautos banquetes aos gatos vivendo de biscates, rouba ali, rouba acolá, tão bem retratados pelo notável pintor Stuart que bem merecia ser homenageado na Galeria de Arte de Abrantes dado talento do artista cuja obra faz perdurar na nossa memória profissões desaparecidas – ardinas zombeteiros, varinas de seios polpudos, cauteleiros e fadistas de beata na boca – num mundo de tabernas, copos de vinho carrascão, sardinhas fritas e iscas com e sem ceboladas.
Historiadores da área da alimentação e costumes assinalam o papel da sardinha seja no alimento dos galegos ensarilhadores dos socalcos no Douro, seja nos camponeses transmontanos, seja no seio dos fangueiros ribatejanos, lembrando uns e outros a clássica divisão de uma sardinha dividida por três esfaimados.
A literatura consagra páginas e páginas à Senhora cantada pelos fadistas, agora elevada à categoria de delicadeza gastronómica despida da pele ou vestida com a pele e encasacada por pimentos, tomates, pepinos, batatas, grãos, sem esquecer as especiarias e molhos conforme o cozinheiro esteja disposto.
No Norte apresentam a sardinha na forma de costeletas, além e ali cruas após boa marinada, em bolas, em empadas, forneadas, guisadas, de caldeirada, em escabeche macio ou avinagrado. Prefiro-as assadas, cozidas se forem de barrica. Boas sardinhadas! Gordas e prósperas.
