Numa perspectiva hierofânica que sobrevivências simbólicas e vestígios cultuais permitem ainda perceber nos nossos dias, poder-se-á dizer que o Sol tem sido, na tradição mediterrânea, identificado com o princípio masculino e com a simbologia do pai e patriarca.
Dele emana o poder fecundante, bem como um princípio da autoridade a este intimamente associado.
Mas o Sol é uma potência multifacetada; de diversificadas valências que muitas vezes surgem, até, como ambivalentes. Fecundador da terra, logo símbolo da fertilidade e potência viril. Divindade da luz, logo dador de conhecimento. Caminhante diurno e incansável, deus da beleza, facultador da harmonia e senhor do fogo. É ele que cíclica e quotidianamente imerge no mundo subterrâneo, logo é visitante assíduo do “inferno” tornando-se, assim, guia dos mortos!
Austero na sua impassibilidade, terrível na sua flamejante energia, os seus vestígios cultuais encontram-se hoje, especialmente, associados às tradições festivas do Natal e dos Santos Populares que herdaram a temporalidade cósmica dos solstícios.
É aí, em manifestações de origem pré-cristã como as “fogueiras” ou os “lumes novos”, o “cepo de natal” ou a “missa do galo”, que se perpetuam os símbolos arcaicos das antigas teofanias solares!
Atitudes de subversão emergem em profusão próprias de um tempo de rotura com um quotidiano, obrigatoriamente, habitual e disciplinado.
Pois este é o “tempo entre os tempos”; onde impera a desordem e a licenciosidade.
Aliás, o canto do galo marca, à meia-noite, a inflexão solar própria dos mesmos. Assinala, em apoteose, o fim do período das trevas e da dominância das criaturas do caos. E anuncia a luz que a alvorada há-de trazer!
E ai! Se o galo canta
Que à fatal hora,
encantos quebrou
E o poder lhes acaba!
Pois estas são as épocas anuais em que o Sol atinge o seu clímax de vitalidade ou, pelo contrário, o seu estádio mais baixo de entrópica degeneração. Marcam, assim, tempos críticos de inversão de tendências que ameaçam perpetuar-se.
Tempos do fim e do princípio do domínio solar, do tempo que o mesmo consubstancia e das coisas a que dá existência.
E, neste complexo simbólico, São João irá ser identificado com a hierofania pagã da manifestação solar.
Pois se Jesus, “o Novo Sol”, é feito nascer a 24 de Dezembro (numa estratégia apropriadora do Natal de Mithra) João, o Batista, é colocado seis meses antes; de acordo com a temporalidade solsticial.
É por isso que o Santo é visto muitas vezes como representando o astro diurno. É o precursor, o anunciador!
E se o solstício estival é tempo de consagração do potencial fertilizante e fecundante, as potestades ao mesmo ligadas (desde logo São João mas, também Santo António, por ser o grande santo português, e São Pedro, pela importância que a tradição consagra) tornam-se advogados da mais importante e intemporal das áreas vivenciais, as valências do amor e da fertilidade: tornada casamenteira pela hagiologia cristã.
Daí, a sua importância.
Daí, igualmente, a iconografia juvenil de São João e Santo António; com a sedução e o casamento relacionada.
Iconografia de que São Pedro não partilha: visto como mais velho, careca, de barbas, austero e distante. E, daí, a sua menor dimensão sentimental.
Por isso a noite solsticial (antigamente correspondendo ao 24 de junho) é, na nossa tradição, a grande noite dos prodígios. Em que o maravilhoso domina e o impossível acontece.
Noite de São João, que emerge de tempos imemoriais como a, também chamada, “noite dos amores”; estimuladora de comportamentos sedutores e sensuais que as diligentes restrições cristãs de séculos não conseguiram, totalmente, erradicar.
Tempo divinatório em que por todo o país se “deitavam as sortes”; seculares fórmulas adivinhatórias respeitantes ao amor e ao casamento, bem como proliferavam as crenças e práticas difusoras e propiciatórias da fertilidade humana e da purificação da natureza. Eram as alcachofras, a erva-pinheira, o alho-porro, o manjerico.
Comemora-se, deste modo, o apogeu criativo de uma natureza grávida de vida.
Saltar às fogueiras, fomenta nesta altura a fertilidade, acreditava-se por toda a Europa. Defumar as casas, purifica e esconjura dos malefícios e “coisas ruins”. Campos e animais são alvo de práticas fertilizantes e fecundantes diversas.
O comportamento do astro-rei impregna assim, o lendário popular, dum paradigma de prodígio cósmico e senciente.
Acreditava-se, por exemplo, em muitas zonas do país, que o Sol, ao nascer, “dava três voltas” ou “vinha a dançar”. Fenomologia mística em que radicam, também, os episódios contemporâneos dos, assim chamados, “milagres do sol”; omnipresentes nos mais diversos fenómenos ditos de “aparições”.
Um pouco por toda a Europa eram erguidos mastros nos campos ou no centro das povoações. Em seu redor dançava-se, cantava-se e bebia-se, durante toda a noite. Os mais jovens desencadeavam perseguições amorosas. Assim se aguardava, em orgiástica alegria, pelo nascer do dia!
Também no nosso país as fogueiras dos Santos Populares constituíam iniciativas comunitárias, festivas e sedutoras. Em que os jovens desempenhavam o papel dominante. Também aqui se queimando ritualmente, à meia-noite, uma estaca ou uma árvore a que se chamava “mastro”, “carvalho” ou “pinheiro de São João”.
Em tempos idos, danças e cantos, interligavam-se com corridas equestres e “cavalhadas” em que o cavalo assumia uma função simbólica dominante.
Tempo sagrado, este. Em que o orvalho é “benfazejo” e, o “benfazejo”, sinónimo de virtuoso!
As ervas têm virtude. A água purifica e renova. O fogo fertiliza!
Enfim, outras maneiras de entender o mundo. Com uma natureza inevitavelmente sagrada e, com um cosmos, desejavelmente inteligível, inevitavelmente relacionadas.
