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O Verão convida a comeres frescos, pouco pesados, carregados de cromatismo, acompanhados por vinhos mais leves, esfuziantes, muitos deles intranquilos, para lá da cerveja, sidra e…água inodora, insípida e incolor. A sazão estival é época de saladas, muitas saladas, sejam de índole cromática, ao exemplo das construções culinárias sul-coreanas, do Norte pouco sabemos, para lá propaganda, sejam baseadas nos produtos do Novo Mundo, pimentas, pimentos, milho maís, tomates, ou num casamento das matérias-primas originárias do Médio Oriente e Oriente sem esquecer a África da malagueta, do caju, da manga e da miscigenação.

A globalização centrada na mobilidade dos produtos são nos dias que correm as escoras essenciais para os mercados não esgotarem as existências, no caso em apreço imprescindíveis a diariamente termos a faculdade de nas nossas casas aparecerem sobre a mesa saladas capazes de nos regalarem e quantas vezes a salientarem a labuta das mulheres e homens nas hortas e quintais onde semeiam e plantam novidades regadas com o suor do rosto de pessoas idosas cientes de ainda possuírem capacidades e forças a resistirem enquanto puderem.

Saladas de peixe também marcam presença nos dias calmosos, sim, não deixo no limbo do esquecimento a célebre masturbação onanista de bacalhau mais ou menos bem apimentada e azeitada ao gosto de cada oficiante. A dita cuja receita é apresentada em numerosas variantes ou não fosse o gadídeo nosso fiel amigo desde há setecentos anos.

Saladas de carnes frias também devem ser incluídas na carta doméstica de aproveitamento de sobras, sendo as aves de capoeira, coelho, borrego e vaca as mais usuais, e que, após serem bem esfiapadas, devem ser colocadas a marinar durante algumas horas dando azo a macerações capazes de só por elas próprias constituírem o prato principal seja ao almoço, ao jantar e quando nos der vontade.

Na área dos cogumelos (nesta altura de colheita no supermercado a par dos espargos) salvam a «honra do convento» numa situação inopinada dada a sua versatilidade, é tudo uma questão de arte e engenho ao sabor da experiência praticada umas vezes inspirada nos programas de televisão dedicados à gastronomia, outras herdadas das avós e como todos sabemos nada chega às saladas e outros comeres da autoria das saudosas avós. Lembrem-nas!

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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