É do senso comum dizer-se de uma embrulhada ou miscelânea qualquer: aquilo é uma salada russa, e no entanto, a salada existe, trata-se de uma macedónia de legumes ligada com maionese, podendo ser acrescentada de peixe ou carne. A razão do epíteto reside no facto de a uma salada russa poder ser acrescentada toda a sorte de elementos desde que bem temperados e a ligação ser conseguida a contento.

Esta salada além de possibilitar uma acertada economia doméstica através do aproveitar os restos, a sua amplitude leva-a a distinguir-se da salada de alface e/ou das saladas doces, e é muito comum na época estival. Por isso mesmo existem centenas de receitas cobertas por esta designação dando a entender a sua multiplicidade tantas vezes autêntica tábua de salvação das donas de casa numa situação inesperada de aperto salvando a «honra» do convento como é costume dizer-se.

Uma das melhores saladas russas que degustei foi num «restaurante» de estrada nas imediações de Betanzos (Corunha), a mesma levou anchova, amêijoas, atum e mexilhões e lavagante sendo acompanhada por capitoso vinho branco galego. Bem sei, esta salada russa teve custo acima da média, mas valeu a pena o desajuste porque o calor e o cansaço são a causa de satisfazer a tentação escrita numa lousa preta a giz branco.

A tentação acima referida é exemplo da união entre o desejo e a sua consumação, porque a composição culinária expressava a sábia união dos alimentos levando ao aplauso de quem a apreciou, por seu turno a cozinheira limitou-se a sorrir e dizer quão contente ficava por nos ter proporcionado prazer, ao fim, e ao cabo, cumpria a missão ternurenta de afagar o palato dos clientes de modo a passados muitos anos eles a recordarem positivamente.

Cara leitora, caro leitor, se tiverem paciência e vagar procurem imitar a cozinheira galega, tentem a execução de uma salada russa que o seja independentemente dos componentes, nunca uma salada russa elaborada de mau modo, misturada a trouxe mouche resultado de um fazer preguiçoso destituído de uma pitada de prazer.

Avante, mas sem batota do copianço de uma qualquer receita retirada da Internet. Sejam imaginativos!

Armando Fernandes

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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