Nos textos de vários matizes que vou escrevendo cito ou refiro personalidades a quem chamo sábios porque no meu parecer são mesmo sábios. Um ou outro leitor não afina pela mesma bitola, por isso mesmo envinagra-se ao ponto desmerecer a minha classificação de forma a fazer chegar a sua discordância aos meus ouvidos. Estão os discordantes no seu direito de divergir, no entanto, não aventam argumentos favoráveis às suas discordâncias.
Se tenho o prazer de chamar sábio a Joaquim Leite de Vasconcelos escoro-me na sua monumental e múltipla obra abrangendo várias áreas do conhecimento num carrear de conteúdos científicos e cultural ao longo de um estimulante percurso intelectual sem pausas, avesso a diletantismos e luzes da ribalta.
Se atribuo a qualidade de sábio ao geógrafo Orlando Ribeiro é porque os fecundos trabalhos científicos nos permitem compreender o passado à luz intensa das transformações culturais em representações técnicas onde as humanidades estão sempre presentes.
Ao atrever-me a designar Manuel Antunes como sábio não estou a projectar para outros a admiração que sinto pelo meu saudoso Mestre, estou sim a referir-me à pujança eclética do seu labor como lendário professor de milhares e milhares e alunos, polemista fero mas elegante, filósofo, historiador, sociólogo da cultura, intérprete de obras clássicas, enfim…um sábio.
Os exemplos (três) trazidos à colação neste artigo podem ser acrescidos de outros na esfera da língua portuguesa (Herculano de Carvalho, Joaquim de Carvalho, Joaquim da Natividade Correia), todavia, por uma qualquer nas e nefas, no meu entender não atingem o alcance universal dos três primeiros. O leitor poderá resmungar ante esta categorização trazendo a terreiro pessoas ilustres pelos méritos olvidados por mim, não coloco isso em dúvida, já duvido da possibilidade de as nossas classificações assentarem nos mesmos pressupostos.
Um dos maiores é o conhecimento da obra do sábio. Por assim ser vou gastando os olhos a ler e a estudar os escritos destes e de outros autores que no meu entender merecem atenção. E, aqui outro pressuposto – o do merecimento – sofismável na argumentação, insofismável na análise do conteúdo.
Sim, eu sei, nós sabemos da existência de grandes autores de obras de enorme valia num ou em mais ângulos do saber, porém menos totais e menos claras na enunciação das matérias. Sim, eu sei, alguns de nós sabem da imperiosa necessidade de recorremos amiúde ao dicionário no decorrer dessas mesmas leituras, só que a decifração do vocábulo escancara-nos as portas para o conhecimento das matrizes em causa.
Caro leitor: não encerro o tema, a ele voltarei quando existir motivo, aceito discordâncias menos as eivadas de fantasia opinativa, de emprenhar pelos ouvidos (vale a pena perceber o dito de cariz religioso), de filistinismo bacoco e presumido.
