Caviar Beluga. Foto: DR

A restauração no dia 25 de Abril, para lá da ventania de alegria provocada nas mulheres e homens desde Valença à ilha do Corvo (nas colónias a gloriosa novidade suscitou aplausos em círculos restritos e receios na população branca e órgãos repressivos), ficou virada do avesso e, naturalmente, os grandes responsáveis pelo acto viram-se envolvidos num torvelinho de solicitações, encontros e tomada de decisões de contornos inimagináveis à maioria dos que «queriam fazer tudo ao mesmo tempo».

E quando escrevo tudo era esse o sentimento geral, num ápice, desde a empregada da limpeza de uma escola à gestora de uma fábrica, de um polícia ao general comandante de uma região militar, de um grumete ao Chefe do Estado Maior da Armada, do guarda portão ao presidente do conselho de administração da Metalúrgica Duarte Ferreira, dos improvisados dirigentes do poder local.

Ninguém escapou ao corrupio de reuniões até altas horas da noite, sem falar das comissões de tudo e mais alguma coisa, os partidos a surgirem como cogumelos em Novembro. Outra fervente actividade passava pela elaboração de manifestos, ficando célebre e difícil de encontrar nos dias de hoje o comunicado saído no Diário de Lisboa subscrito pelo núcleo ou comité das prostitutas a anunciar descontos para os soldados e marinheiros. A imprensa estrangeira chamou-lhe um figo!

Ora, os capitães mal dormiam, convites para isto, para aquilo, por isso mesmo um especulador da bolsa convidou um capitão para almoçar no Tavares Rico no intuito de saber quais as intenções do MFA relativamente ao mercado de capitais. O capitão levou companhia, o argentário também. Concluídas as apresentações, sobre a mesa apareceram várias entradas onde se destacava o caviar Beluga, o de maior fama e de alto preço. O autor do convite obsequioso colocou grãos do caviar no prato do capitão. Bebido um gole de champanhe o capitão provou a iguaria e exclamou: sabe a peixe!

Os circunstantes ficaram em silêncio mas não ficaram os jornalistas radiantes por lhe terem soprado que a ignorância do capitão revelou não saber de onde provém a caríssima delicadeza gastronómica, o que era compreensível dada a origem de classe do militar e em vez de gozar o fresco do ar condicionado combatia no então Ultramar enorme fautor de gigantescos lucros para os nababos exploradores das populações nativas e brancos pequenos comerciantes disseminados por Angola, Guiné e Moçambique.

O militar (felizmente vivo), certamente, não sabia, não sabia que o rio Tejo criou e alimentou esturjões até pelo menos ao século XVII, segundo documentos guardados na Torre do Tombo o rei D. Dinis recebeu em Valada do Ribatejo um soberbo esturjão como presente e D. João III estando a repousar e a fugir da pestilência de Lisboa na sadia e amena terra de Almeirim teve a ventura (o cognome Venturoso assenta-lhe como uma luva) de lhe terem ofertado outro esturjão, este pesando 17 arrobas. Sim, 255 quilos. Como teria sido cozinhado? O leitor faça o favor de ler o grande humanista Garcia de Resende.

25 de Abril sempre!

Armando Fernandes

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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