Nestes dias antecedentes da noite de largarmos o velho ano, muitas paredes ostentam cartazes a anunciarem «grandiosos», «magníficos», «inolvidáveis» e muitos mais superlativos réveillons de despedida do dito cujo ano. Estou convicto de a maioria dos leitores desses cartazes associarem a palavra a bailações bem mexidas, comidas em conformidade com possibilidades e gostos dos organizadores e na esmagadora maioria dos casos a bebida eleita tem a designação de champanhe, embora não passe de vinho gaseificado.

Ora, o propagandeado réveillon é, fundamentalmente (era) uma refeição lauta tomada após as mulheres e os homens terem participado nas cerimónias religiosas a seguir à Consoada, por cá após a missa do galo, as vozes enrouquecidas de tanto cantar em honra do Deus Menino e os estômagos vazios após a ida e a vinda da igreja a fim de ser honrado o Menino, suscitavam o apetite daí o réveillon retemperador.

Porque a quadra natalícia se estendia até à noite de S. Silvestre veio e ficou a tradição do ora famoso réveillon da noite de fim de ano. Em traços largos e de modo simplificado é esta a história da noite de folia a assinalar o início do novo ciclo temporal – Ano Novo – o qual logo no primeiro dia suscita mensagens políticas, religiosas e sociais.

Os comentadores, quais pescadores à linha, procuram ideias escondidas nas palavras utilizadas, depois debitam enxúndias considerações a originarem o aumento de irritação das ressacas. No que tange a comeres na noite de saídas e entradas vou limitar-me a salientar vários produtos que podem satisfazer o estômago e afagar o palato.

Em primeiro lugar aconselho o leitor a escolher um bom espumante ribatejano, existem vários, capazes de fazerem esquecer champanhes, para lá dos açucarados vinhos daqui e de além.

A globalização dos produtos alimentares trouxe-nos o salmão fumado, o salame, o foie-gras, ovas em conserva, que em frutuoso conúbio com presunto português curado capazmente, salpicão, paio, e linguiças, sem esquecer morcelas e alheiras, são excelentes de todas as maneiras, ainda mais dada a ocasião, no registo de entradas.

O outrora classista peru democratizou-se, por assim ser sugiro peru assado recheado, no recheio as castanhas são importantes. Pés de porco recheados também prosperam, lembrando outros deglutidos nos réveillons medievais.

Às vezes excedo-me nas enunciações, sustenho a vontade, no entanto, façam o favor de trincar as doze passas, doze amêndoas peladas, doze cascas de fruta cristalizada, doze grãos de nozes, doze pinhões e ao soar a última badalada oscule quem ama e gosta.

Bom Ano Novo!

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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