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Certamente, o leitor já cozinhou uma refeição de «restos», além de ter exercitado a sua capacidade inventiva conseguindo um bom enlace (casamento) dos elementos envolvidos, para lá da poupança conseguida, continuando práticas antigas pois nada se podia perder no tocante a toda a casta de alimentos. Esta ideia de poupança fazia parte do código de conduta da maior parte das pessoas, só os desmiolados, os «índios chupistas» e os rebentos da terceira geração desprezavam as sobras. As Mestras cozinheiras conseguiam e conseguem operar prodígios recuperando legumes, carnes e peixes sobrantes de outras refeições utilizando técnicas e truques a revitalizarem produtos cozinhados anteriormente. A maestria vai ao ponto de as novas criações culinárias empregando «roupa velha» captarem o gosto refinado de palatos sensíveis, passando a dita criação a ascender à primazia em termos de confecção, pensemos nas empadas, empadões, omeletas, tartes, ensopados, escabeches, bolos, compotas, geleias, entre outras especialidades.

Obviamente, alguns desses produtos não aguentam muito tempo por isso não vale a pena gastar tempo a pensar no modo de serem ressuscitados, no entanto, a grande maioria daquilo se cozinha em cada casa é passível de voltar a proporcionar prazer e alimentar as pessoas. Pessoalmente, tenho memória de pedaços de peças de caça, de aves de capoeira, de peixes, de cogumelos e vários vegetais reaparecerem sobre a mesa concedendo exultantes sabores, levando a dar os parabéns à cozinheira e pedidos de repetição da receita – eis o momento de passar a receita inicial –, existindo numerosos exemplos a atestarem o atrás referido, um deles está associado a popular e suculento doce abrantino e redondezas.

As leitoras sabem quão falível é o cabal aproveitamento de restos, experimenta-se até acertar, mal o preparado logre aprovação inicia-se o caminho (faz-se caminhando) em direcção ao êxito, passa a composição às vizinhas, depois irradia de terra em terra, passa a receita da região, daí a nacional e há casos de prato global. Da receita inicial a, pelo menos nacional, muitas vezes a dita cuja sofre o efeito de – cada roca com seu fuso, cada terra com seu uso – logo se multiplicam as versões, acrescento e mutilações.

Estamos a atravessar o Verão, sugiro a quem me lê o salutar exercício do aproveitamento dos restos. Podem não chegar a rivalizar com o chefe do momento, José Avillez, mas de certeza, certezinha, é elaborarem gratos comeres a repetirem nas restantes estações do ano.

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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