Massa de pão, em repouso. Créditos: Unsplash

Tal como o guerreiro necessita de repouso entre batalhas, também certas massas necessitam de repousar, em lugar fresco, para levedarem convenientemente. Não por acaso existem na poesia popular dezenas e dezenas (cada terra com seu uso…) de orações a solicitarem ajuda ao Criador para as massas destinadas ao fabrico do pão (nosso de cada dia) levedarem conforme os desejos de quem as amassou.

Lembro-me de a minha avó materna embrulhar a massa num cobertor do mesmo modo como embrulhava amorosamente os netos mais novos do que eu. Depois da massa repousar, cortava com as mãos um pedaço para obter fermento destinado a uma nova fornada de centeio para os dias correntes e fornadas de trigo a ilustrarem as épocas festivas e dias nomeados do calendário religioso.

Agora, nesta época trepidante da globalização, os pães surgem nas aldeias ao som de uma buzina com música de elevador e, no que tange a pão dito caseiro ou à antiga, só quando ocorre festim caça votos. Mesmo assim, quantas vezes pão «zorro», pois legítimo-legítimo, só em casas de robusta confiança.

Armando Fernandes

Armando Fernandes é um gastrónomo dedicado, estudioso das raízes culturais do que chega à nossa mesa. Já publicou vários livros sobre o tema e o seu "À Mesa em Mação", editado em 2014, ganhou o Prémio Internacional de Literatura Gastronómica ("Prix de la Littérature Gastronomique"), atribuído em Paris.
Escreve no mediotejo.net aos domingos

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