Carlos Ribeirinho, Engenheiro, 52 anos, diretor do Centro de Produção de Eletricidade do Pego. Foto: mediotejo.net

O fim da produção de energia a carvão é um momento histórico para o país, mas vivido de forma ambivalente na região, pela importância social e económica da Central do Pego, nos últimos 30 anos. A 30 de novembro termina o ciclo do carvão em Portugal, mas para centenas de pessoas, que de forma direta ou indireta mantinham relação com a Central, acaba também o trabalho e um ciclo que haviam construído em conjunto. No horizonte há promessas de um futuro melhor, mas também pairam incertezas sobre esse amanhã que há de vir.

O mediotejo.net acompanhou a fase final da produção de energia a carvão no Pego. Entrevistámos gestores, diretores e alguns dos trabalhadores mais antigos – um deles desde a construção das fundações. Falámos com antigos e atuais decisores políticos, analisámos a evolução da política energética e procurámos antever o que será esta Central no futuro. Uma Grande Reportagem que será publicada ao longo dos próximos dias, em diferentes capítulos.

A central a carvão do Pego, instalada no concelho de Abrantes, começou em 1993 a produzir energia elétrica com uma licença detida pela Tejo Energia, válida por 28 anos, terminando o Contrato de Aquisição de Energia (CAE) a 30 de novembro de 2021, não tendo o mesmo sido renovado pelo governo, que decidiu acabar com o carvão no âmbito da estratégia de descarbonização nacional. O Centro de Produção de Eletricidade do Pego, operado pela PEGOP, tem como atividade principal a produção de eletricidade, garantindo a segurança de abastecimento à rede elétrica em complemento com as energias renováveis.

É constituído por duas centrais de produção de eletricidade, uma que utiliza como matéria-prima o carvão, e é propriedade da Tejo Energia, e outra que utiliza como matéria-prima o gás natural, e é propriedade da Elecgas. O Centro de Produção de Eletricidade do Pego é o maior centro produtor nacional de energia, com uma potência instalada de 628 megawatts (MW) na central a carvão, e de 800 MW na central a gás, que prosseguirá em atividade. No total, trabalham ali cerca de 180 pessoas.

Carlos Ribeirinho, Engenheiro, 52 anos, diretor do Centro de Produção de Eletricidade do Pego. Foto: mediotejo.net

Entrevista a Carlos Ribeirinho, Engenheiro, 52 anos, diretor do Centro de Produção de Eletricidade do Pego

mediotejo.net – Estamos a assistir a um momento histórico, com o encerramento da produção de eletricidade a partir do carvão. Como foi o processo até chegar a diretor do maior centro de produção nacional de energia, no Pego?

Carlos Ribeirinho – É verdade. Quando, em 2011, o segundo grupo da Central a Gás foi comissionado, tornou-se no maior centro eletroprodutor de Portugal com cerca de 1400 megawatts (MGW) contra os, na altura, 1200 MGW de Sines, sendo que 600 são da Central a Carvão e 800 da central a gás. Estou desde outubro do ano passado como diretor da central, tenho tido carreira dentro da Pegop, em que fui ocupando várias posições, e este ano como chefe (diretor) da Central.

Como tem sido o evoluir da produção da energia a carvão ao longo da história nesta central?
Esta central teve sempre um fator de produção muito elevado até aos anos 2018/2019, ou seja, na casa dos 70% a 80% da produção. Estávamos quase sempre a laborar, cerca de sete a oito mil horas por ano. A partir de 2019/2020, e agora este ano baixou radicalmente, fruto do próprio mercado de eletricidade que se alterou, das fontes de energias renováveis, das centrais de ciclo combinado que foram tendo custos mais vantajosos, até por toda a carga fiscal associada à produção destas energias… e foi perdendo essa importância a nível da produção. O que está a mudar é também o planeta, temos as alterações climáticas nas medidas dos governos e esta é última central de carvão em Portugal ainda a laborar e vai continuar até ao fim do contrato em vigor atualmente, que finda a 30 de novembro. Neste momento [ao dia da entrevista, a 10 de novembro] temos uma unidade a produzir, estamos a terminar o carvão que existe ainda em stock na central, e de facto é a última central a queimar carvão em Portugal.

É o diretor do centro de produção no Pego, de ambas as produções, tanto a carvão e a gás?
Exato, porque a Pegop faz a operação das duas centrais. Apesar de o dono das duas centrais ser diferente – a propriedade da central a carvão é da Tejo Energia e a do gás é de Elecgás – é à Pegop que compete fazer a operação e manutenção com critérios bastante altos das duas centrais.

Carlos Ribeirinho com uma das equipas da sala de comando da Central Termoelétrica do Pego. Foto: mediotejo.net

Há muito carvão armazenado ou estão a gerir o stock tendo em conta o calendário?
Já há mais de um ano que não é comprado carvão, que vinha nos últimos anos da Colômbia, mas com toda esta alteração do regime de funcionamento, a certa altura tínhamos um stock no nosso parque de carvão muito grande e, portanto, teve que ir sendo gerido. Neste momento é isso que estamos a fazer, a terminar o que ainda existe.

Como vê o aproximar do dia 30 de novembro e o fecho de um ciclo de 28 anos?
É uma saída dos grupos da rede, mas será como um dia normal, em que quando nós temos que sair da rede faremos as tarefas necessárias para que o grupo saia em segurança da rede. Páram-se as máquinas e arrefece-se. É uma paragem diferente porque sabemos que pelo menos a carvão já não vai haver nenhum arranque.

Como tem sido este processo e como se avalia o que também pode vir aí?
A partir de 1 de dezembro na Central do Pego continuaremos com a central a gás, e também Portugal deixa de ter outras opções energéticas, via fóssil, que não o gás.

Carlos Ribeirinho, Engenheiro, 52 anos, diretor do Centro de Produção de Eletricidade do Pego. Foto: mediotejo.net

É um passo importante ambientalmente. Qual é o sentimento de vir a ser o responsável por carregar no botão e fechar as centrais a carvão em Portugal?
Há um misto… nós percebemos, e de facto ninguém está contra aquilo que é o aquecimento global e todas estas alterações que existem, percebemos toda essa componente, mas é uma história longa, a desta central. Uma história de sucesso grande, de pessoas que passaram aqui 30 anos da sua carreira, o que não é o meu caso mas de muitos de nós, pois a equipa foi mantendo-se mais ou menos coesa e a mesma ao longo destes anos. Pessoas que passaram aqui mais tempo do que em casa com as famílias, que responderam sempre com um desempenho extraordinário, sempre que foi necessário, sempre que havia algum problema. Tipicamente nós lembramo-nos mais dessas situações, que são aquelas onde vemos todo o empenho. Mas é um projeto que de facto teve um enorme sucesso durante este tempo de vida, não só a nível do desempenho técnico como também em termos da sua importância na economia local, para o desenvolvimento regional e pela sua importância fundamental para o setor energético português.

Central do Pego Foto: David Belém Pereira/mediotejo.net

Central Termoelétrica do Pego – O fecho da última central a carvão do país

A central termoelétrica da Tejo Energia é atualmente a única central a carvão em operação no país, em sequência do encerramento da central de Sines da EDP em janeiro, tendo o Governo decidido que a sua atividade deveria terminar até 30 de novembro de 2021, apesar do projeto de continuidade apresentado pela Tejo Energia ter sido entregue ao governo, a pedido deste e em devido tempo, tendo o mesmo sido rejeitado e o governo decidido lançar um concurso público.

O futuro da Central, que passará por uma reconversão para um ‘cluster’ de produção de energias verdes, vai ser decidido em janeiro de 2022, depois do adiamento dos prazos previstos no concurso público que o Governo lançou em setembro para concessionar aquele ponto de injeção na rede elétrica nacional.

Em causa, está a central da Tejo Energia, uma ‘joint-venture’ entre a TrustEnergy, com uma participação de 56,25%, e a Endesa Generación, com 43,75%. Esta é uma das centrais que se manteve com CAE, incentivo à produção que foi substituído pelos Custos de Manutenção do Equilíbrio Contratual (CMEC).

Os acionistas maioritários da Tejo Energia têm reiterado que o Governo levou a leilão um bem que lhes pertence por direito e entregaram uma providência cautelar no Tribunal de Leiria contestando o procedimento, bem como uma ação paralela em que é pedida uma indemnização de 290 milhões de euros ao Ministério do Ambiente.

A Tejo Energia é detida pela TrustEnergy (56%), um consórcio constituído pelos franceses da Engie e os japoneses da Marubeni, e pela espanhola Endesa (44%), empresas que exploram a central localizada em Pego, a 150 quilómetros de Lisboa, sendo o maior centro produtor nacional de energia, com uma potência instalada de 628 megawatts (MW) na central a carvão, e que irá cessar as operações até final de novembro, e de 800 MW na central a gás, que prosseguirá em atividade até 2035.

Fotos e multimédia – David Belém Pereira

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Mário Rui Fonseca

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

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