José Vieira, 71 anos, trabalhou na Central entre 1993 e 2020. Foi diretor financeiro e de recursos humanos da PEGOP, operadora do Centro de Produção de Eletricidade do Pego, com o pelouro das relações externas. Foto: mediotejo.net

O fim da produção de energia a carvão é um momento histórico para o país, mas vivido de forma ambivalente na região, pela importância social e económica da Central do Pego, nos últimos 30 anos. A 30 de novembro termina o ciclo do carvão em Portugal, mas para centenas de pessoas, que de forma direta ou indireta mantinham relação com a Central, acaba também o trabalho e um ciclo que haviam construído em conjunto. No horizonte há promessas de um futuro melhor, mas também pairam incertezas sobre esse amanhã que há de vir.

O mediotejo.net acompanhou a fase final da produção de energia a carvão no Pego. Entrevistámos gestores, diretores e alguns dos trabalhadores mais antigos – um deles desde a construção das fundações. Falámos com antigos e atuais decisores políticos, analisámos a evolução da política energética e procurámos antever o que será esta Central no futuro. Uma Grande Reportagem que será publicada ao longo dos próximos dias, em diferentes capítulos.

A central a carvão do Pego, instalada no concelho de Abrantes, começou em 1993 a produzir energia elétrica com uma licença detida pela Tejo Energia, válida por 28 anos, terminando o Contrato de Aquisição de Energia (CAE) a 30 de novembro de 2021, não tendo o mesmo sido renovado pelo governo, que decidiu acabar com o carvão no âmbito da estratégia de descarbonização nacional. O Centro de Produção de Eletricidade do Pego, operado pela PEGOP, tem como atividade principal a produção de eletricidade, garantindo a segurança de abastecimento à rede elétrica em complemento com as energias renováveis.

José Vieira foi Diretor Financeiro e de Recursos Humanos na PEGOP entre 1993 e 2020, tendo um conhecimento muito próximo de tudo o que se passou ao longo deste ciclo de produção a carvão, que agora se fecha. Foto: mediotejo.net

É constituído por duas centrais de produção de eletricidade, uma que utiliza como matéria-prima o carvão, e é propriedade da Tejo Energia, e outra que utiliza como matéria-prima o gás natural, e é propriedade da Elecgas. O Centro de Produção de Eletricidade do Pego é o maior centro produtor nacional de energia, com uma potência instalada de 628 megawatts (MW) na central a carvão, e de 800 MW na central a gás, que prosseguirá em atividade. No total, trabalham ali cerca de 180 pessoas.

Entrevista a José Vieira, 71 anos, ex-diretor financeiro e de recursos humanos da PEGOP, operadora do Centro de Produção de Eletricidade do Pego, com o pelouro das relações externas.

José Vieira, 71 anos, ex-diretor financeiro e de recursos humanos da PEGOP, operadora do Centro de Produção de Eletricidade do Pego, com o pelouro das relações externas. Foto: mediotejo.net

mediotejo.net – Que momentos, pessoas e histórias guarda deste seu percurso na Central do Pego? Qual a importância da proximidade da central à comunidade envolvente e quando iniciou aqui a sua atividade profissional?

José Vieira – Estive cá desde a primeira hora, vim em  Outubro de 1993. Os chefes de central, desde o início do projeto por parte do consórcio vencedor eram todos oriundos da empresa que ganhou o concurso, que era a National Power, que depois evoluiu para a International Power e depois foi comprada pela Engie. Nessa altura lembro-me sempre do segundo chefe de central, o senhor Keith Gavins, que tinha uma frase que me ficou na memória: “Nós só estávamos aqui porque as pessoas queriam que nós estivéssemos aqui.” Ou seja, se não tivéssemos uma relação profícua e boa com a comunidade local, e se tivéssemos uma relação de antagonismo, estaríamos condenados ao insucesso do projeto. Isto era uma filosofia que vinha muito das centrais inglesas, onde houve alguns enfrentamentos e as pessoas percebiam perfeitamente que tinham de ter a comunidade local do seu lado, e nós éramos parte dessa comunidade local.

Este é um projeto da Tejo Energia, mas localmente há uma empresa, que é a Pegop, que faz a operação e manutenção deste centro electroprodutor desde 1993, e eu, mais ou menos desde essa altura, fui muito a cara, ou o interface com a comunidade local, com os autarcas, com as associações, com as pessoas, tinha sempre a porta aberta para receber quem aqui quisesse vir falar connosco, pedir ou solicitar o nosso apoio para as coisas mais diversas. E desde essa data nós estivemos sempre abertos a trabalhar com a comunidade. Tivemos sempre uma excelente relação, e fomos ganhando a confiança de  todos os presidentes de Junta, que eram as faces mais próximas das populações, nomeadamente aqui no Pego, na Concavada, Vale das Mós, São Facundo, Mouriscas e nas outras freguesias de Abrantes, e desde sempre que tivemos essa preocupação e esse diálogo muito franco e aberto, com os presidentes de junta –conheci vários durante 28 anos –, que vinham amiúde solicitar apoios e que nós nos disponibilizávamos para ajudar, como podíamos.

Como faziam a seleção e essa gestão de apoios solicitados pela comunidade?
Nós tínhamos um orçamento anual e, essencialmente, tínhamos uma preocupação que eram as questões de natureza social. E daí, por exemplo, que o nosso projeto mais emblemático, e que apoiámos desde o princípio, seja o Centro Social do Pego. Depois havia as outras partes, lúdicas, do desporto, dos apoios às coisas mais diversas para que íamos sendo solicitados permanentemente. E apoiámos muitas coisas, por exemplo a recuperação da Igreja de Vale das Mós e o Centro Social no Pego. Estou-me a lembrar de um projeto que não foi em Abrantes, mas sim no Gavião, a recuperação da Igreja da Margem depois do grande incêndio de 2003, que destruiu quase a aldeia toda e destruiu a igreja, que era uma igreja muito bonita e muito antiga, que nós também comparticipámos e ajudámos a (re)construir. Demos muitos apoios na área social, mas também a todos os clubes, associações, grupos de interesses, etc. Há uma coisa que decidimos nunca apoiar, que era o futebol, que levava logo o orçamento todo… apoiámos apenas algum futebol amador aqui à volta.

Apoiámos sempre muito a comunidade e, para além disso, é bom não esquecer que uma parte significativa desse apoio faz parte do orçamento da Câmara de Abrantes e de alguns concelhos aqui à volta, com a fatia de leão sendo de Abrantes, mas a renda da Central e os impostos cobrados localmente correspondem a um valor muito significativo, muito alto, que contribuiu indiretamente para a Câmara de Abrantes poder fazer coisas que se não tivesse esse rendimento não poderia fazer, e portanto, indiretamente, essa é também uma parte do apoio que foi feito e que, provavelmente. agora poderá vir a desaparecer ou a ser muito diminuído.

Central termoelétrica do Pego. Foto: mediotejo.net

Com a visão do presidente da Câmara de Abrantes de então, José Bioucas, o projeto veio para esta região e o primeiro grupo da central a carvão começou a trabalhar a 1 dezembro de 1993, então com contrato de aquisição de energia válido por 28 anos e que termina agora, a 30 de novembro de 2021. A vinda da Central a Carvão, no início, trouxe reticências e dúvidas à comunidade residente?
Houve de facto uma visão pioneira do engenheiro José Bioucas, que depois da recusa da instalação da Central em vários sítios, nomeadamente em Viana do Castelo, depois na Figueira da Foz, agarrou no projeto e o trouxe para aqui, com algumas reticências da população local, nomeadamente as pessoas do Pego, que não sabiam o que ia acontecer. E eu acho que, pela nossa gestão ambiental, tivemos sempre todas as certificações ambientais, fomos quase sempre pioneiros nessas certificações ambientais mais exigentes, no EMAS , na ISSO 14001, e fomos ganhando a confiança da população de que não havia aqui nenhuma coisa escondida, nem mistérios. E uma coisa que foi muito importante também nessa relação foi essa abertura que tivemos com a comunidade: “Venham cá ver, venham visitar-nos e ver-nos”. E portanto, paulatina e progressivamente criou-se uma relação de confiança com toda a comunidade local e regional, que eu acho que foi muito importante para o negócio da central mas também foi muito importante para a comunidade, houve  aqui uma junção de sinergias entre as duas partes.  

Infelizmente é um ciclo que acaba, vamos ver o que o futuro nos vai dar, mas este ciclo do carvão é um ciclo que está a acabar um pouco por todo o lado, principalmente na Europa, embora Portugal seja nessa matéria muito pioneiro. Enfim, não quero fazer comentários acerca desse assunto, mas só para percebermos, na Europa, e na Alemanha por exemplo, ainda há mais de 40 centrais de carvão em funcionamento. E na Polónia, então, a maior parte da energia ainda vem do carvão.

José Vieira, 71 anos, ex-diretor financeiro e de recursos humanos da PEGOP, operadora do Centro de Produção de Eletricidade do Pego, com o pelouro das relações externas. Foto: mediotejo.net

A comunidade envolvente, se ao início tinha algumas dúvidas pelos impactos da central, hoje com o fim deste ciclo, vai sentir a falta, nomeadamente o comércio e restauração…
Vai desaparecer muita atividade local que no fundo alimentava restaurantes, hotelaria, apoiava iniciativas, e provavelmente estamos a chegar ao fim desse ciclo. É uma data e uma hora que não é feliz, oxalá que outros projetos mais interessantes e também criadores de postos de trabalho possam vir a substituir o carvão que neste momento cessa.

E este trabalho de proximidade com a comunidade envolvente, pode de alguma forma continuar tendo em conta que a produção de eletricidade vai continuar, pelo menos com a central a gás?
Eu acredito que sim, porque pelo menos a PEGOP vai continuar a fazer a operação da central a gás, pertença de Elecgás, e também a fornecer serviços à Elecgás prestados ainda pela Tejo Energia, e haverá com certeza o descomissionamento do carvão e depois, dependendo dos projetos que possam vir a ser implementados, pode haver ou não o desmantelamento. Acho que é uma coisa que neste momento ainda ninguém sabe, está a decorrer o concurso… o que vai acontecer no futuro à central a carvão ainda é prematuro dizer neste momento. Descomissionada será, desmantelada é um ponto de interrogação neste momento, porque pode ter outras utilizações.

Dos imensos pedidos que teve, das forças vivas do concelho e dos concelhos vizinhos, houve algum mais inusitado?
Um dos mais inusitados, e que me levou logo a ficar de pé atrás com o futebol, foi em 1994, quando o clube de futebol local queria um apoio que era praticamente todo o orçamento que nós tínhamos, e de maneira que fiquei logo vacinado relativamente a essa situação. Tínhamos de ter equilíbrio na repartição do orçamento disponível e, principalmente, tendo sempre a atenção e orientação de que nos era dada, de que o apoio era primariamente para as questões de natureza social e também para a  educação. Sempre colaborámos com a Câmara e com as Juntas de Freguesia. Fizemos por exemplo um protocolo com a Câmara para atribuirmos os prémios aos melhores alunos dos diversos Agrupamentos Escolares de Abrantes e que já tem, se calhar, mais de dez anos, portanto fizemos sempre esse tipo de apoios que nos foram solicitados e que nós próprios até dinamizámos. Para além disso, eu estive no Conselho Geral da Escola Manuel Fernandes, e a minha sucessora, Dulce Franco, faz parte do Conselho da Solano de Abreu. Estamos também no Conselho Geral do Politécnico de Tomar, portanto sempre muito envolvidos nestas questões também relacionadas com a educação. Também no Tagus Valley, na Médio Tejo XXI, sempre estivemos envolvidos neste tipo de iniciativas locais para as quais fomos solicitados. E imagino que no futuro continuaremos a participar. Já cá não estou, mas sei que a política é de continuar a ter com a comunidade o mesmo tipo de relacionamento. Os recursos podem é ser outros.

Foi um período gratificante para si, pessoal e profissionalmente?
Foi um período gratificante porque conheci muitas pessoas, com quem ainda hoje mantenho relações de proximidade e de amizade com muitos. Para mim foi uma atividade muito gratificante. Eu vim para Abrantes em outubro de 1993, tinha saído de um projeto pessoal, familiar, que encerrou também, entrei antes ainda de a Central ser passada da EDP para a Tejo Energia, ou seja, antes da assinatura do contrato de aquisição de energia, o chamado CAE ou PPA. Acompanhei o ciclo dos 28 anos, só saí no ano passado, mas tenho continuado sempre que me pedem, nomeadamente para lembrar aquilo que foram os 28 anos que aqui estivemos. E acho que, quer para os acionistas – foi um projeto muito bom para os acionistas – quer para Abrantes, foi um projeto muito bom.

Há o sentimento de alguma coisa que não tenha conseguido fazer?
Nestas histórias estamos sempre limitados pelos recursos que temos, temos que estar balizados por determinadas regras e valores, e, portanto, fomos fazendo aquilo que foi possível. Seria possível com certeza fazer mais, se houvesse mais recursos, mas acho que Abrantes com a soma daquilo que recebe através da renda da central e dos impostos locais mais aquilo que a Tejo Energia e a PEGOP adicionalmente proporcionavam através dos seus orçamentos, Abrantes só pode estar agradecida ao projeto. O projeto não pode deixar de estar agradecido à comunidade local, mas acho que Abrantes também deve estar muito agradecida.

Entrevista a José Vieira, ex-diretor financeiro e de recursos humanos da PEGOP, operadora do Centro de Produção de Eletricidade do Pego, com o pelouro das relações externas. Foto: mediotejo.net

E este fim de ciclo do carvão faz sentido para si, tendo em conta a realidade climática que vivemos?
Todos sabemos que a transição energética é hoje em dia uma questão quase indiscutível, e portanto, o fim do ciclo do carvão e das suas emissões é claro que faz sentido. Só que a transição para as energias de natureza renovável podem ser mais ou menos penosas, trazem sempre muitos custos associados, até que nasça um novo paradigma de produção energética. Porque quer queiramos quer não, durante muitos anos não vai ser possível viver só com as energias renováveis. A garantia do abastecimento vai ter que ser sempre complementada com combustíveis que ainda vão vir das energias fósseis, e isso vai ser feito em Portugal essencialmente através do gás. Neste momento existem ou estão em estudo muitas alternativas tecnológicas que podem permitir o aproveitamento das instalações existentes para continuar a produzir energia de formas completamente diversas. Ainda recentemente vi um vídeo de uma tecnologia que está em desenvolvimento e já com uma unidade experimental que permite o aproveitamento das centrais a carvão agora desativadas praticamente na sua totalidade, menos as caldeiras, sem haver combustão, mas utilizando energia renovável  sobrante para ser acumulada em baterias, permitindo depois utilizar os geradores existentes, sempre que o sistema necessite, permitindo manter uma parte significativa dos postos de trabalho. Não é forçoso desmantelar já. É um concurso público, o futuro a Deus pertence, mas são os homens que têm de o decidir.

Para fechar este ciclo, a quem brindaria nestes 28 anos de produção, neste que é o maior centro produtor nacional de eletricidade?
Normalmente associa-se o maior centro de produção nacional a Sines, mas a verdade é que o Pego, somando o carvão e o gás, tem cerca de 1400 megawatts instalados, contra os 1200 de Sines, o que significa que este centro electroprodutor é o maior nacional, e foi durante pelo menos os últimos 10 anos, embora seja uma coisa que a maior parte dos portugueses não conhecem.

Brindo a todos aqueles que aqui passaram, a todos os trabalhadores e a todas as pessoas envolvidas que contribuíram para que este projeto fosse efetivamente um sucesso, porque foi um sucesso do ponto de vista económico, e foi também um sucesso do ponto de vista social e de integração de um projeto fabril numa comunidade mais alargada. Portanto, acho que a toda a comunidade abrantina, e principalmente aos trabalhadores do Pego. É a eles que brindo nesta hora.

Os últimos dias na central a carvão do Pego. Foto: mediotejo.net

Central Termoelétrica do Pego – O fecho da última central a carvão do país

A central termoelétrica da Tejo Energia é atualmente a única central a carvão em operação no país, em sequência do encerramento da central de Sines da EDP em janeiro, tendo o Governo decidido que a sua atividade deveria terminar até 30 de novembro de 2021, apesar do projeto de continuidade apresentado pela Tejo Energia ter sido entregue ao governo, a pedido deste e em devido tempo, tendo o mesmo sido rejeitado e o governo decidido lançar um concurso público.

O futuro da Central, que passará por uma reconversão para um ‘cluster’ de produção de energias verdes, vai ser decidido em janeiro de 2022, depois do adiamento dos prazos previstos no concurso público que o Governo lançou em setembro para concessionar aquele ponto de injeção na rede elétrica nacional.

Em causa, está a central da Tejo Energia, uma ‘joint-venture’ entre a TrustEnergy, com uma participação de 56,25%, e a Endesa Generación, com 43,75%. Esta é uma das centrais que se manteve com CAE, incentivo à produção que foi substituído pelos Custos de Manutenção do Equilíbrio Contratual (CMEC).

Os acionistas maioritários da Tejo Energia têm reiterado que o Governo levou a leilão um bem que lhes pertence por direito e entregaram uma providência cautelar no Tribunal de Leiria contestando o procedimento, bem como uma ação paralela em que é pedida uma indemnização de 290 milhões de euros ao Ministério do Ambiente.

A Tejo Energia é detida pela TrustEnergy (56%), um consórcio constituído pelos franceses da Engie e os japoneses da Marubeni, e pela espanhola Endesa (44%), empresas que exploram a central localizada em Pego, a 150 quilómetros de Lisboa, sendo o maior centro produtor nacional de energia, com uma potência instalada de 628 megawatts (MW) na central a carvão, e que irá cessar as operações até final de novembro, e de 800 MW na central a gás, que prosseguirá em atividade até 2035.

Fotos e multimédia | David Belém Pereira/mediotejo.net

Mário Rui Fonseca

A experiência de trabalho nas rádios locais despertaram-no para a importância do exercício de um jornalismo de proximidade, qual espírito irrequieto que se apazigua ao dar voz às histórias das gentes, a dar conta dos seus receios e derrotas, mas também das suas alegrias e vitórias. A vida tem outro sentido a ver e a perguntar, a querer saber, ouvir e informar, levando o microfone até ao último habitante da aldeia que resiste.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.